O Tambor: Entre o infantil e o brutal

Um desejo que já passou pela mente de qualquer pessoa, ao menos uma vez na vida, é o de não crescer. Ser criança e não conviver com o mundo dos adultos é um anseio recôndito em nosso inconsciente.

“O Tambor”, de Volker Schlöndorff, conta a história do jovem Oskar Metzerath (David Bennent). Na verdade, o filme é narrado em primeira pessoa por Oskar, e tem momentos muito interessantes. Logo de início, ainda no útero, Oskar começa a narrar suas impressões, e assim segue, como um expectador da vida, emitindo suas opiniões, contrapondo-as, intercalando-as num embate entre o mundo dos adultos e seu universo “infantil”.

A linha do tempo do filme vem passando desde seus avós, chegando à sua mãe, que vive com dois maridos e com alma de intensa libido. Em meio a esse mundo de estrutura familiar diferente das demais, Oskar se refugia do mundo tocando um tambor e, diante de situações de risco ou incômodo perante a vida, emite um grito agudo, que tem o poder de estilhaçar vidraças.

http://www.youtube.com/watch?v=_x-dJaSS3Og&feature=youtu.be

Desde que ganhara o tambor nunca mais o tirou do colo e fala para si mesmo que não quer mais crescer. Assim Oskar não cresce mais e vive como um jovem aprisionado no corpo de criança. Uma alegoria sobre o desejo de não adentrar ao mundo dos adultos, diante de tudo o que ele convivia.

No roteiro do escritor alemão Günter Grass, o pano de fundo é a ascensão do Nazismo. As promessas de uma nova era, as alterações do modo de ver o mundo com o “novo Reich”. Tudo isso de uma força subvertida, anarquizada,  sob os olhos do diretor Schlöndorff, para mostrar a debilidade do sistema que se erguia.

Um filme original, na forma de narrar e com momentos surreais, que reafirmam o ponto de vista das crianças diante do mundo e que nos leva também a indagar: não somos crianças inventando sistemas, e títulos e formas para uma vida que, no fundo, precisa de muito pouco? Não damos um ar ministerial para ações corriqueiras? Não nos revestimos de teorias para dar um sentido, ainda que disforme, à vida?

O TAMBOR
(Die Blechtrommel, Alemanha Ocidental / França / Iugoslávia / Polônia, 1979).
Direção: Volker Schlöndorff.
Roteiro: Jean-Claude Carrière (roteiro), Günter Grass (romance e diálogos adicionais), Volker Schlöndorff (roteiro), Franz Seitz (roteiro).
Elenco: Mario Adorf, Angela Winkler, David Bennent, Katharina Thalbach, Daniel Olbrychski.
Drama.
142 minutos.

– Oscar: Filme em língua estrangeira.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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