O Espelho

Hoje foi uma manhã estranha e a natureza nos deu mostras simples do que é possível, cobrindo a orla marítima de uma neblina tão densa, que quem estava à beira mar não conseguia ver sequer o vulto dos edifícios na avenida da praia.

Depois de uma hora, aproximadamente, o sol foi ressurgindo com o seu vigor de verão e o céu azul se abriu novamente aos nossos olhos.

Encontramo-nos com nosso filho e juntos, os três, caminhamos longamente pela beira d´água, observando miríades de pequenos peixes, muitos e muitos siris e até um tatuí, que eu dissera na semana passada que nem mais existia por aqui. Segurei-o por algum tempo na palma da mão; tempo suficiente para que meu filho o fotografasse para a posteridade.

A manhã estava alegre, a conversa amena, mas os nossos corações estavam apertados, porque soubéramos logo cedo, que um amigo nosso perdera o emprego injustamente, acusado de inverdades, que são fruto do leva-e-traz de pessoas que, embora pretensamente cultas, acabam não tendo consciência do mal praticado e sequer ideia da responsabilidade material e espiritual que acarretam ações como esta.

Caminhávamos, observávamos a beleza da natureza de que podemos usufruir livremente, mas os nossos corações e o nosso pensamento divagavam entre possíveis soluções para o impasse.

De volta à nossa casa, continuamos cismando, entristecidos e impotentes.

Depois do almoço, me deitei no sofá e o coração aquietou-se um pouco, com este pensamento:

“A nossa vida na matéria é igual à estada na frente de um espelho, onde cada ação se reflete, se processa exatamente na imagem que está defronte a ele e o resultado é apenas questão de tempo”.

One thought on “O Espelho

  1. Ter coração às vezes é doloroso. Ter amigos também. Ter os dois, causa sempre as angústias às quais nosso Carlos Gama relata. Com a competência de sempre.

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