Gente que é gente

Era um ônibus quatro, nesta terça depois do carnaval, que passava por volta das quatro e dez ou quatro e quinze, no primeiro ponto logo que ele retoma a avenida da praia, vindo do canal seis.

Saíramos depois do almoço para uma caminhada na praia, neste vinte e oito de fevereiro e penúltimo dia do mês.

Calor intenso, um vento fresco de outono em pleno verão na orla do mar, e nós nos propomos a caminhar em direção do sol, lá para os lados da divisa com São Vicente.

Na beira d´água eu tiro a camiseta e me lambuzo de protetor solar; foi-se o tempo de ficar o dia inteiro exposto ao sol sem maiores riscos.

Meia hora ou pouco mais de caminhada e decidimos voltar, tomando o sol nas costas e enfrentando o mar que se espraia com força de ressaca.

Nenhuma concha, mas o mais estranho é não ver nenhum “tatuí” nesse arrasto da maré; a vida nativa vai se afastando do predador inconsequente.

Duas horas de caminhada neste sentido e muita conversa, chegamos ao canal seis, na Ponta da Praia e decidimos voltar. Temos compromissos, é melhor tomar um ônibus quatro (é o único que passa por aqui em direção à Encruzilhada). Dez minutos de espera e lá vem ele, meio cheio. Entramos e divisamos alguns lugares, bem lá no fundo. Minha companheira se acomoda no penúltimo banco e, quando eu vou me aproximando, o jovenzinho no último banco já faz menção de se levantar. Agradeço e me acomodo antes, no lado do sol.

Quando o coletivo vai chegando no Boqueirão, levanta-se a jovem ao lado da minha parceira e eu mudo de lugar.

No ponto que antecede ao da rua Mato Grosso, o jovem atrás de mim se levanta e esbarra de leve com a mochila no meu ombro. Desculpa-se, meio envergonhado e nós sorrimos para ele.

-Ainda tem gente que é gente – comento.

Ele permanece em pé junto à porta, provavelmente para descer no ponto seguinte, que é onde descem os que vão ao Colégio Canadá ou à Universidade Santa Cecília.

Muita gente desceu no mesmo ponto e ele foi o último, esperando por todos, com aquele seu jeito gentil que hoje já faz tanta falta.

Parabéns a você meu jovem sem nome, de cabelos negros e curtos, camiseta branca e bermuda cinza como a sua mochila.

Vá em frente e não mude nunca, porque o mundo precisa de você.

3 thoughts on “Gente que é gente

  1. Caro amigo Carlos!

    Sem sombra de dúvida, suas palavras, conseguem transmitir imagens do cotidiano. Inclusive, consegui visualizar o jovem gentil, de cabelos curtos e escuros.

    Abraços

  2. É tão bom quando, AINDA, nos deparamos com cenas assim!! Me alegra o coração em ver que existem sim, pessoas boas que ainda praticam a tão esquecida CORTESIA….
    E é mais especial ainda perceber que AINDA existem pessoas sensíveis que percebam essas atitudes e comentam sobre elas…..

    Obrigada por ser esse Homem tão especial, sensível e raro!!

    Fulvia Carolinne (Sobrinha, afilhada e fã….)

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