Segunda Chance Para o Amor: Simples, doce e muito bom

Patrick Wilson e Selma Blair

Em “Segunda Chance para o Amor”, seu filme de 2007, Edward Burns permanece fiel a tudo o que havia feito antes, e faria depois – mas, ao mesmo tempo, avança sobre um mundo que não havia abordado anteriormente.

Desde seu filme de estreia, “Os Irmãos McMullen”, de 1995, esse diretor-escritor de imenso talento focalizava pessoas comuns, gente como a gente, ordinary people. Tinha, em todos os seus filmes – produções independentes, com baixo orçamento, em geral escritos por ele mesmo –, um estilo muito pessoal, mas que, ao mesmo tempo, lembrava um pouco o do grande autor de filmes sobre pessoas de Nova York, Woody Allen. Manteve seu estilo estritamente pessoal aqui, mas aproximou-se do universo específico de Allen – artistas, intelectuais, criadores de arte.

Gente que não é exatamente como a gente – nós, seres humanos normais.

O tema básico, como em todos os filmes de Burns, é o amor, os encontros e desencontros afetivos. Aqui, especificamente, da segunda chance para o primeiro amor, como mostra o título brasileiro. O segundo tema mais importante é distância entre a grande literatura e a literatura de lazer.

Na maioria de seus filmes, Burns trata das opções que muitas pessoas têm que enfrentar entre ganhar muito dinheiro fazendo algo que não traz realização, felicidade, ou então ganhar menos e ser mais feliz. O autor sempre indica que sua opção preferencial é pela segunda possibilidade.

Em “Segunda Chance para o Amor”, Brian Callahan (interpretado por Patrick Wilson, esse bom ator, boa estampa) é um escritor de grande sucesso. Escreveu seis livros que se tornaram best sellers, viraram filmes, o deixaram rico – novelas policiais, sobre um detetive da polícia de Nova York, Frank Knight, que sempre consegue descobrir o autor de crimes incríveis. Agora, na época em que se passa a ação, Brian está lançando seu primeiro romance sério. Está farto de escrever sua literatura “barata”, “vagabunda”; quer ser grande, como (ele cita os nomes) Norman Mailer, Philip Roth, Saul Bellow.

Quer criar o grande romance americano de sua geração – exatamente como Isaac Davis, o personagem de Woody Allen em “Manhattan”. Exatamente como todo jovem aspirante a escritor.

Naturalmente, sua literatura profunda, seu romance sério, será escorraçado pela crítica, e decepcionará seus milhões de leitores.

Num restaurante, popr acaso, os dois amigos revêem suas antigas paixões

Edward Burns

Brian é um dos quatro personagens centrais da trama. Quando a ação começa, ele está namorando há alguns meses uma garota mais jovem, Bernie (Elizabeth Reaser), de 25 anos, produtora de música, cheia de energia, fã de ecstasy e noitadas de dança. A garota Bernie, no entanto, não faz parte do quarteto central da história, é apenas uma coadjuvante. O casal sai sempre com o maior amigo de Brian, Murphy (o papel de Edward Burns).

Brian e Murphy, mais Bernie, estão em um restaurante no qual estão também, em uma outra mesa, Patti (Selma Blair) e Kate (Debra Messing).

É uma sequência memorável, esta, em que o espectador vê pela primeira vez os quatro personagens centrais da história.

Acontece bem no início do filme. Na primeira sequência, vemos Patti, sozinha, numa praia, junto a uma casa gigantesca, modernosa, de rico. Mais tarde saberemos que é em Hamptons, a praia dos milionários, ao Norte de Nova York. Depois vemos Patti num ônibus, certamente voltando da praia, lendo um livro. Ela vai lendo enquanto desce do ônibus, anda pelas calçadas, chega em casa. E aí vemos a seqüência em que Patti chega em casa. O marido dela, Chazz (Donal Logue), está preparando um molho para o jantar. Patti diz que vai tomar um rápido banho e então os dois vão sair para jantar com Kate – é o aniversário dela. Chazz diz que não sabia dessa história de jantar, e que não vai sair, porque está no meio da preparação de um molho.

Patti vai sozinha para o jantar de aniversário de 33 anos de Kate – e então, na sequência no restaurante, que acontece quando o filme está aí com uns cinco minutos, apenas, o espectador já está sabendo que o casamento de Patti não anda muito bem, e que Chazz, o marido dela, é um pentelho, um chato de galocha.

As duas amigas vêem que, em outra mesa, um tanto distante da delas, estão Murphy e Brian. Os dois amigos também vêem que Patti e Kate estão no mesmo restaurante.

Tinham sido colegas na faculdade, os quatro. Brian e Patti tinham tido um namoro, uma paixão; Murphy e Kate também. Os dois casais haviam se separado fazia muitos anos, e não haviam se visto novamente.

As mulheres comentam sobre os homens. Os homens comentam entre si se não deveriam ir lá cumprimentá-las. Depois de alguma indecisão, Brian vai até a mesa delas.

Nessa sequência maravilhosa, o filme mostra ao espectador diversas informações sobre os personagens. Ficamos sabendo que Murphy traiu Kate, e ela rompeu o namoro, e jamais o perdoou. Demonstra ódio dele. Murphy tinha um passado de muita bebida; Kate fica surpresíssima em saber que ele se tornou advogado, e é, atualmente, o advogado de Brian, o escritor famoso. Parou de beber faz dois anos, informa Brian – e ele logo quer saber como está Patti. Tem escrito?

Patti havia lançado um livro logo depois que os quatro se formaram; o livro, sério, bela literatura, havia vendido pouco, mas recebido excelentes críticas. Brian sempre teve profunda admiração pelo talento de Patti.

Ela mente para ele, diz que está trabalhando em um romance.

A conversa de Brian com a antiga paixão e com a antiga paixão de seu maior amigo dura aí uns três, quatro minutos, apenas, e ele volta para a mesa onde estão Bernie e Murphy.

Duas antigas histórias de amor. Haverá uma segunda chance para os dois casais?

Patti não está escrevendo romance algum. Trabalha atualmente como corretora imobiliária. Veremos logo que, assim como seu casamento com Chazz não vai bem, o emprego dela na imobiliária de um tal Gilmore (Dennis Farina) também vai mal. Faz meses que ela não consegue vender um único imóvel, e Gilmore está pegando no pé dela, enchendo o saco, ameaçando com demissão.

Por uma imensa coincidência, dessas que parecem coisa de filme, mas de que a vida é cheia, Patti vai reencontrar Murphy alguns dias depois do episódio do restaurante. Murphy, agora um advogado bem de vida, estava visitando um apartamento com um corretor – e Patti tinha ido ver aquele mesmo apartamento, para conhecer. Murphy dispensa o corretor na maior, depois de explicar a ele que aquela outra corretora é sua velha amiga da faculdade.

Murphy pede a Patti que lhe mostre alguns apartamentos. Aproveita para pedir o telefone de Kate – quer pedir desculpas a ela, explicar que na verdade não comeu a tal moça que provocou o fim do namoro e o ódio eterno de Kate por ele.

Ao saber do novo encontro de Murphy com Patti, Brian fica indignado, frustrado com o fato de que seu nome não foi mencionado.

Duas antigas histórias de amor, dois casos de amor que haviam terminado quando eles todos estavam aí na faixa dos 23 a 25 anos. Agora todos estão com uns 33. Murphy jamais conseguiu superar o fim do caso com Kate. Brian e Patti sempre se admiraram. Haverá segunda chance para os dois casais?

“Você prefere sofrer com Faulkner, ou relaxar com o pequeno John Grisham?”

John Fitzgerald Kennedy – dirá Murphy a seu amigo Brian – dizia que não há segundos atos na vida. Brian o corrige: quem disse isso foi outro Fitzgerald, o F. Scott – e Brian, apesar de ser fã de Fitzgerald, capaz de encontrar uma frase de “O Grande Gatsby” ao folhear o livro em menos de um minuto, diz não acredita no que dizia o grande escritor. Para ele, há, sim, uma segunda chance.

Outro escritor da grande literatura, Lawrence Durell, que não é citado no filme, escreveu uma frase da qual me lembrei ao ver este filme maravilhoso: “Que capacidade temos, nós, os escritores, de sermos infelizes”.

Patti, que escreveu um livro aclamado e depois não escreveu mais, é uma mulher que está infeliz na vida. Brian, escritor de sucesso, está profundamente infeliz com o fato de que as histórias do detetive Frank Knight vendem feito água, e seu primeiro romance sério é um fracasso de público e crítica.

Edward Burns, escritor de belas histórias que conta em belos filmes, faz uma deliciosa mistura desses temas – a segunda chance e as distâncias entre a grande literatura e a literatura de lazer.

Lá pela metade do filme, Murphy, o personagem interpretado por Burns, diz para Patti:

– “Você está no metrô, indo para casa ou para o trabalho. Ou então passando um fim de semana na praia. Você prefere sofrer com Faulkner, ou relaxar com o pequeno John Grisham?”

A câmara de Burns passeia pelo rosto de Selma Blair, faz carícias nele
São quatro personagens centrais, mas a principal protagonista é Patti – e até se tem a impressão de que o autor e diretor Edward Burns estava apaixonado por Selma Blair, a atriz que faz Patti.

A câmara passeia longamente pelo rosto de Selma Blair-Patti. Acaricia seu rosto, sua expressão em geral pensativa, ensimesmada, tristonha, melancólica. A câmara de Edward Burns acaricia tanto o rosto de Selma Blair-Patti que ele fica lindo.

http://www.youtube.com/watch?v=lySA4x0jS18&feature=youtu.be

O que é fascinante, porque Selma Blair está longe de ter aquela beleza acachapante de uma Grace Kelly, ou Michelle Pfeiffer, ou de sua quase xará Salma Hayek, só para dar alguns exemplos de diferentes gerações. Seu rosto tem aquela beleza forte, que parece vir de dentro, da personalidade – muito longe da beleza óbvia de traços perfeitos de deusa grega.

Ao contrário de seu personagem, Burns não quer fazer a Grande Obra Definitiva

Vejo no IMDb que “Segunda Chance para o Amor” custou US$ 4 milhões. Quatro vezes o salário de Elizabeth Taylor em “Cleópatra” – em termos nominais, sem levar em conta a inflação desde 1963 para cá –, ou menos da metade do salário que Tom Cruise recebia por um único filme uns dez anos atrás.

Uma merreca, uma bobagem, em termos de cinema americano. Mas até que bastante, em termos de Edward Burns: para fazer “Os Amores de Johnny”, seu filme de 2010, gastou US$ 2,5 milhões, exatamente a mesma soma usada para sua estréia em “Os Irmãos McMullen”.

Não que com esse orçamento micro para os termos de seu país ele faça filmes pobres. Nada. “Segunda Chance para o Amor”, assim como os demais filmes do autor, é perfeito nos quesitos técnicos todos – a fotografia, por exemplo, é maravilhosa, luminosa. Burns filma sua Nova York com a mesma paixão com que Woody Allen a filmava na época de “Manhattan”. A trilha sonora, de autoria de P.T. Walkley, é bela, funcional, ao mesmo tempo suave e envolvente, e a escolha das canções incidentais – tudo coisa de cantores ou grupos novos, que não conheço – tem um bom gosto incrível.

Grande Edward Burns!

Suavemente, sem alarde, vai fazendo seus belos filmes. Ao contrário de seu personagem Brian Callahan, que sonha em estar ao lado dos Mailers, Roths, Bellows, esse Burns não parece querer ser reconhecido como um John Ford, um Orson Welles, um Howard Hawks. Como sua personagem Patti Petalson, faz obras pessoais, sobre temas que conhece bem, sempre com um tom confessional, particular, melancolicamente alegre, alegremente tristonho, e por isso consegue ser profundo sem ser chato, bem humorado sem ser raso.

Grande, imprescindível Edward Burns!

SEGUNDA CHANCE PARA O AMOR
(Purple Violets, EUA, 2007).
Direção e roteiro: Edward Burns.
Elenco: Selma Blair (Patti Petalson), Patrick Wilson (Brian Callahan), Edward Burns (Michael Murphy), Debra Messing (Kate Scott), Dennis Farina (Gilmore), Donal Logue (Chazz Coleman), Elizabeth Reaser (Bernie).
Drama.
103 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *