O animal político

George Clooney ao lado da jovem revelação Shailene Woodley, em “Os Descendentes”

George Clooney é um sobrevivente. Aos 50 anos, o ator consegue ser um dos poucos que produz e pensa política dentro da indústria cinematográfica. Ele o faz sem poupar adversários e, principalmente, sem duvidar das próprias crenças.

A estratégia, segundo o próprio ator e diretor, é mesclar roteiros comerciais – ainda assim inteligentes – com produções mais profundas e críticas, nas quais Clooney permite que a história fale por si mesma. O exemplo mais recente é “Tudo Pelo Poder”, em que adota uma tática semelhante à primeira experiência política como cineasta, quando dirigiu “Boa Noite e Boa Sorte”, em 2005, pelo qual recebeu a indicação de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar.

As semelhanças são variadas. Ambas as temáticas são espinhosas para o passado recente dos Estados Unidos. “Tudo Pelo Poder” conta a história de um jornalista que se vê envolvido em intrigas quando é contratado para trabalhar nas prévias da campanha presidencial. O jornalista, interpretado por Ryan Gosling, um dos principais atores do cenário atual, assessora um governador que disputa as prévias do Partido Democrata.

Galã atua e dirige “Tudo Pelo Poder”; na imagem, ao lado de Ryan Gosling

O filme, sólido em questionar os procedimentos do marketing político, não poupa os democratas ao aproximá-los dos republicanos em propostas, jogos de bastidores, negociatas por apoio e votos nas prévias. Clooney apóia o partido e levantou a bandeira de Barack Obama nas últimas eleições.

Outro mérito é que Clooney não se incomoda em servir de escada para colegas. Em “Boa Noite e Boa Sorte”, George Clooney se escondeu no papel de coadjuvante, investindo-se na construção de um personagem com as contradições e receios de um sujeito comum. Ele é o principal produtor do programa de notícias da CBS, que comprou uma briga com o senador Joseph McCarthy, no auge da caça às bruxas comunistas, na década de 50.

A trama, baseada em fatos reais, mudou a imagem do jornalismo de TV, fragilizou a paranóia em enxergar multidões de comunistas em todos os setores da indústria cultural e revelou o despreparo dos parlamentares envolvidos na investigação, em plena Guerra Fria.

Com David Strathairn em “Boa Noite e Boa Sorte”, no qual também dirigiu

Em “Tudo Pelo Poder”, Clooney também fica com o segundo posto, o do governador. Inicialmente, um personagem comprometido com a política, que se revela muito parecido com seus colegas engravatados que estamos acostumados a ver. Fora que possui um segredo da vida privada que poderia inviabilizar sua candidatura. Na cultura política norte-americana, o eleitor comum dá mais valor às ações de seus representantes entre quatro paredes do que para deslizes ou benfeitorias públicas. Bill Clinton é um ícone recente desta mentalidade.

A trajetória cinematográfica de George Clooney mudou de rumo quando ele se associou ao diretor Steven Soderbergh na criação de uma produtora, em 2000. A partir daí, o ator passou a alternar produções comerciais tradicionais, como a série “Onze Homens e Um Segredo”, com filmes políticos. Levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor ator coadjuvante em 2006 por “Syriana”, excelente filme que cutuca as entranhas da indústria do petróleo.

http://www.youtube.com/watch?v=NqDbG9h-f7c&feature=youtu.be Clooney recebe o Oscar de ator coadjuvante, por “Syriana”, e dispara a célebre frase: “Agora, não vou vencer melhor diretor” – ele também concorria pela direção de “Boa Noite e Boa Sorte”

Mesmo em produções aparentemente inofensivas, Clooney prova que as escolhas costumam ser acertadas. Aí, entra – em camadas mais profundas de percepção – o debate social, que pode ser travestido de comédia ou drama familiar. “Amor Sem Escalas”, por exemplo, finge ser uma comédia romântica, mas apresenta diálogos bem acima das demais obras do gênero. Coloca na pauta a solidão, os relacionamentos líquidos e as esquizofrenias do mundo corporativo. A coerência se mantém em “Os Descendentes”, que transita para construção idealizada de família e casamento, além da relação entre pais e filhos adolescentes.

“Syriana”

George Clooney consegue fazer em Hollywood o que poucos arriscariam ou teriam competência em executar. Sean Penn e Clint Eastwood são dois outros casos de mentes criativas dispostas a desnudar a sociedade norte-americana, com seus conflitos, paradoxos, hipocrisias e desejos.

Clooney se junta a eles quando representa um oásis dentro de um deserto de padronização, superficialidade, escravidão comercial e desprezo pela inteligência do espectador. Em ano de eleições, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, “Tudo Pelo Poder” é uma análise profunda sobre a estrutura que cerca a disputa por votos. Uma reflexão que, por vezes, você não encontra no noticiário do horário nobre ou nas páginas de jornais.

Marcus Vinicius Batista é jornalista e professor universitário. Adora escrever sobre histórias cotidianas e personagens anônimos. Escreve também sobre educação, política e futebol. É um goleiro mediano, leitor voraz e, paradoxalmente, sereno. Gosta de um bom cinema, que pode também ser um filme ruim. Apaixonado pela praia, pelo mar e por seus dois filhos, Mariana e Vinicius.

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