O Pierre Menard do cinema & outros blefes

Cena de "Solidão"

O filme do mês é o documentário  “Solidão”, de Sokurov. Alexander Sokurov está para Andrei Tarkovski, como o Radiohead para o Pink Floyd. Se você não leu Alex Ross, autor de “Listen to this The rest is noise”,  essa frase não significará grande coisa. (Fade out)  O cinema se alimenta das outras artes como a música se alimenta do silêncio. Ainda pensando em Godard, o cinema é uma síntese possível de imaginação, sonho e política, no sentido mais poético do termo. Sim, existe a poética da política e não estou falando de utopia. A poética da política é o controle social como um grau máximo da ética-estética convertida em ação direta. A imagem em movimento enquanto força política é uma filha bastarda da literatura, da pintura, do teatro, da música e da fotografia (Close).

É óbvio que a imaginação de um bom escritor pode superar todos os filmes: Fernando Pessoa enquanto explorador de territórios interiores, enquanto teórico da metapolítica e da metaeconomia é maior do que Moisés e Napoleão – leiam os textos recentemente editados do poeta português sobre política e economia.

(Contracampo). O universo de  Jorge Luis Borges, que era também um crítico de cinema, um dos raros a considerar “Cidadão Kane”, de Orson Welles, um filme menor e hipervalorizado. Alguns dos  textos  de Borges são filmes mentais. “História universal da infâmia” poderia ter sido um roteiro para um filme de Buñuel ou Tarantino. Onde quero chegar? A um ponto de convergência entre a ficção fílmica e a literária, algo a anos-luz dos resumos dos clássicos para o ridículo vestibular e seu clone, o exame do Enem: O histórico escolar valendo como ingresso perpétuo para sessões de clássicos do cinema nas extintas câmaras municipais. Antes dessa renascença, imaginemos  exercícios de imaginação em forma de manchetes ao modo do autor de “O Aleph”, exercícios baseados na recente historiografia do cinema. Vamos lá e depois voltaremos para Sokurov e sua linhagem de pensadores do espiritual na arte. (Ver kandisnki, “O espiritual na arte”, Ed. Martins Fontes).

1 – O meio cinematográfico aplaudiu de pé a decisão do cineasta brasileiro José Padilha, que recusou ser o diretor de uma nova versão do filme “Robocop”, alegando já ter iniciado um outro projeto, a refilmagem de “Queimada!”, de Gillo Pontecorvo. As filmagens se iniciam em março de 2012 no Haiti, com produção de Oliver Stone e Martin Scorcesse. O remake de “Queimada!” terá Selton Melo no papel que no original foi interpretado por Marlon Brando, e Seu Jorge como o líder dos rebeldes.

2 – Steven Spielberg produzirá o próximo filme de animação de Hayao Myazaki, autor de “A viagem de Chihiro”. O novo filme será baseado em “A Divina Comédia” de Dante.

3 – Manoel de Oliveira se prepara para iniciar as filmagens de “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, baseado no livro de José Saramago, com Guilherme Weber e Lázaro Ramos dividindo o papel de Jesus.

Este é um belo exercício que recomendo aos leitores do CineZen: imaginar o filme que gostariam de ver nos cinemas,em alguma dimensão paralela. Estes filmes que imaginei devem existir, senão eu não os teria concebido neste antisonho.

Voltando a Sokurov, o maior cineasta vivo em atividade no mundo, vejam seu documentário “Solidão”, lançado pela Magnus Opus. A minha pergunta não é: quem é o novo Glauber Rocha do cinema brasileiro? É outra, quero saber: onde está o Alexander Sokuróv do Brasil? Fumando crack em algum beco de São Paulo? Minha pergunta não é quem é o novo Cecil B. De Mile. O novo Marlon Brando. Minha pergunta é: Onde está o Rimbaud do cinema mundial? Ele deve ser algum poeta chinês preso por crime de opinião, escrevendo suas memórias em um papel de embalagem de cigarro? Melhor esquecermos os rastros harmônicos soterrados no Tsunami de merda cultural e política. Atenção! Não forneço sinopses, nem estrelinhas, o que me interessa é o jogo de ideias, o fio de lucidez no meio do meu Caos. Voltando ao belíssimo documentário de A.S., “Solidão”  evoca o conceito de imagem em Matérie et mémoire, de  Henri Bergson, o filósofo francês que fazia a cabeça de João Guimarães Rosa: “Chamo de matéria o conjunto  das imagens, e de percepção da matéria estas mesmas imagens relacionadas a uma ação possível de uma certa imagem determinada, meu corpo (….) Há  um sistema de imagens que chamo minha percepção do universo, e que se conturba de alto a baixo por leves variações de uma certa imagem privilegiada, meu corpo.” Fragmentos do capítulo um de Matérie et mémorie que poderiam ter sido escritos por Sokurov em um caderno de notas das filmagens de “Solidão”.

Uma lágrima no orvalho para Théo Angelopoulos, que morreu em um patético acidente de trânsito. Nos filmes de T.A., existe uma noção de Destino, que só um grego seria capaz de projetar no espaço temporal-fílmico. Angelopoulos conseguiu em seus melhores momentos transfigurar essa noção de Destino em uma exposição  mítica e pictórica do “fracasso da transcendência humana”. Seu filme inacabado sobre as revoltas populares na Grécia, cujas filmagens foram interrompidas por sua morte trágica, poderia ser concluído por Wim Wenders, e talvez isso tenha ocorrido naquela dimensão paralela onde todos os filmes que imaginamos estão em cartaz…

Para encerrar a palavra “Blefes” no título dessa coluna meus caros, é uma homenagem ao idiota socialmente útil, que no final de uma palestra que cometi na USP sobre cinema, me disse assim: “Você deve estar blefando, como um negro da periferia pode ter lido tanto? Me diga a verdade, você não leu, nem metade do que cita, não é mesmo?”. Respondi ao dito cujo que, na verdade, jamais li nada. O fato é que em minha antiga reencarnação eu era um bibliotecário nazista amigo de Heidegger. Ironia fina e sutilíssima que o cara na hora não percebeu e duvido que ele tenha me ouvido. Quando acontecerá a encenação do incêndio da Vila Socó na Praia do Gonzaga? 

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

2 thoughts on “O Pierre Menard do cinema & outros blefes

  1. Não vi nada de Sokurov, mas pelas referências se torna uma obrigatoriedade conhecer seu trabalho. Algumas imagens que pude ver de alguns filmes são muito fortes, marcantes. Susan Sontag o recomendou, e ela sabia das coisas. Quanto a Borges achar “KANE” um filme menor, para mim, só o fato de ridicularizar Hearst já foi bom demais, e marcou Welles em toda sua carreira, tornando-se um maldito na terra de McCarthy e Hoover. Refazer “QUEIMADA” acho sacanagem. Selton Mello como William Walker, Seu Jorge como José Dolores para mim é dose. E a trilha sonora? quem faria melhor que Morricone?

  2. Miro meu Amigo !
    A refilmagem de Queimada é uma notícia imaginária de alguma dimensão paralela…rsrsr…mas poderia ser uma possibilidade, o Gus Van Sant não fez um remake ( para muitos dispensável) do Psicose do Hitchcock? O que digo ali nas entrelinhas é que uma refilmagem do Robocop é dispensável… Quanto ao elenco dessa versão imaginária de Queimada dirigida por José Padilha, vc pode se quiser, imaginar outra escalação melhor, com a vantagem maior de poder materializá-la em uma historia em quadrinhos desenhada por você, considero Selton e o Seu Jorge ( não confunda o ator com o cantor), os dois são grandes atores de cinema e o tempo em nossa dimensão irá provar isso…,Como o físico Kikuchi prova matematicamente, nossa dimensão é apenas uma das várias versões da realidade, em alguma realidade paralela não existe o Big Brother Brasil e Michel Teló deve ser apenas um garçom do Copacabana Palace , nesta diemnsão paralela Gláuber deve estar vivo e filmando a vida de Ciro da Pérsia. e vc continua desenhando para o Pasquim…É um belo exercício de imaginação esse, sem nenhuma dose de Nostalgia. Quanto ao Sokuróv, veja tudo o que puder dele, é o supra-Tarkovski!
    Um grande abraço e obrigado por acompanhar minha coluna.

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