Cinema

Precisamos Falar Sobre o Kevin: sombria trama de relacionamento entre mãe e filho

Em uma atuação competente, Tilda Swinton equilibra a dramaticidade com a aterrorizante narrativa
Por Mayara Maluceli (22/01/2012) // 1 comentário

Massacres constantemente são abordados na cinematografia internacional: “Tiros em Columbine” (2002, Michael Moore) e “Elefante” (2003, Gus Van Sant) são exemplos que retrataram a cruel realidade de episódios de atos psicóticos. Esses longas perdem horas procurando encontrar o verdadeiro culpado pela tragédia: videogames, facilidade de comprar armas, bullying, rock, ou, enfim, a própria natureza do detrator; e deixam de lado a visão dos pais. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” foca justamente nesse vazio.

Com a direção de Lynne Ramsey, “Precisamos…” é uma adaptação do livro homônimo de Lionel Shriver. Trata-se da história de Eva Khatchadourian (Tilda Swinton), uma amargurada e solitária, que não tem vida social, ou amigos, muito menos família. O motivo desse isolamento está em seu passado, quando foi casada com Franklin (John C. Reily), com quem teve dois filhos: o diabolicamente esperto Kevin (na infância por Jasper Newell e na adolescência por Ezra Miller) e a doce Celia (Ashley Gerasimovich).

Após ser vítima de vandalismo, no qual os vizinhos pintam a varanda da casa de vermelho vibrante, Eva começa a relembrar do seu passado, principalmente, de sua convivência com o primogênito, Kevin. Entre tantos desentendimentos, brigas e desafetos, Eva procura entender onde ela errou na educação, ou tenta se convencer de que Kevin já carregava algo sombrio em sua mente.

Para não dizer que “Precisamos Falar Sobre o Kevin” traz uma abordagem inovadora sobre o assunto, focando apenas na incompreensão paterna perante um massacre, “Tarde Demais” (2010) também segue essa linha. O sensível filme de Shawn Ku, porém, apela para o questionamento dos pais que, apesar de tudo, tem um ao outro.

Em “Precisamos…” Eva está sozinha e a cada lembrança, ela se fecha às suas angústias. Acostumada com os maus tratos recebidos na rua, Eva estranha ao ser querida por algum colega em plena luz do dia, em lugar público. Quando perguntada se sabia para onde ia quando morrer, Eva responde com sarcasmo e verdade “Para o inferno, pagar meus pecados”.

Tilda Swinton interpreta Eva como se fosse um vulto, uma alma que busca por uma resposta. Com olhos fundos, olheiras negras, magra e sem vocação para moda, Eva se auto-assombra com suas recordações e lembranças. Apesar de seu esforço, Eva tenta compensar um crime cuja responsabilidade não é sua, e cujo motivo não compreende.

A ótima montagem revela aos poucos o desfecho que tanto atormenta a vida de Eva. Flashbacks e lapsos foram belamente usados, ditando o necessário ritmo arrastado da trama. Além de tudo, o espectador é sugado pelo olhar, quase cego e vazio de emoções, de Eva que apenas enxerga seu aterrorizado passado, afundando em uma profunda angústia.

“Precisamos…” fala sobre um crime grotesco que vai além do que já foi dito, é aterrorizante e sentimentalmente devastador.

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN
(We Need Talk About Kevin, EUA / Reino Unido, 2011).
Direção:  Lynne Ramsay.
Roteiro:  Lynne Ramsay, Rory Kinnear, baseados na obra de Lionel Shriver.
Elenco: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Siobhan Fallon, Ursula Parker, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Erin Maya Darke.
Drama.
112 minutos.

Estreia no Brasil: 27/01/2012.

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Mayara Maluceli é aspirante a ser uma “contadora de histórias”, desde um perfil sobre uma realizadora social no sertão brasileiro até as resenhas sobre a sétima arte hollywoodiana. Quando pequena, acompanhava os filmes da cabeça aos pés, e admirava os contos narrados por pessoas da vida comum no engenho de seu avô, no interior de Pernambuco. Acredita que o jornalismo se encontra nessas pequenas ruelas recheadas de roteiros cinematográficos da vida real. Contato: maluceli@gmail.com


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1 Comentário
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  1. Confesso que não me senti atraída pelo livro na época de seu lançamento.
    Mas o filme parece ser muito bom! Fiquei com mais vontade de ver depois de ler esse texto.

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