Brazil – O Filme: aquarela burocrática

“Brazil – O Filme” segue a mesma linha de filmes como “Laranja Mecânica” e “1984”, onde as pessoas vivem sob um sistema social opressor, vigilante e tecnicista.

Ao contrário do que possa parecer, “Brazil” leva esse nome porque é embalado pela música “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, mas a trama não tem ligação direta com imagens brasileiras, a não ser pela burocracia, que é universal…

A história se desenvolve a partir de uma falha na digitação (que trocou o T pela letra B), fazendo com que o departamento de repressão do governo aprisione um simples sapateiro, acusado de terrorismo contra o sistema.

Paralelamente ao fato, o filme mostra a vida do funcionário do governo Sam Lowry, interpretado por Jonathan Pryce, afundado numa repartição, que sonha escapar desse mundo burocrático e que têm sonhos escapistas por uma linda mulher, Jill Layton (Kim Greist).

As histórias da mulher e do funcionário vão se entrelaçar, pois Jill é filha do sapateiro acusado injustamente de terrorista. Coexistem no mundo dos sonhos, mas, na realidade, são antagônicos, pois Jill pertence a um grupo de resistência ao sistema, enquanto Sam é uma engrenagem dessa máquina governamental.

O diretor Terry Gilliam (autor também de “Monty Python”) faz referências, entre outras coisas, ao Estado Nazista e também aos modelos de sociedades autoritárias como o socialismo soviético. Também faz referências às histórias de quadrinhos por meio de cenários e personagens, motivo pelo qual foi muito criticado ao fazer uma “salada” de signos.

Se o riso vem da calamidade, o diretor extrai risos por meio de um roteiro nonsense, potencializando os níveis de burocracia e tecnicismo da sociedade, criando situações surreais, mas que estão próximas da nossa realidade.

Outro ponto em que Gilliam critica é a preocupação exagerada com a aparência. A eterna busca pela juventude em detrimento dos valores morais. O que também é predominante no mundo em que vivemos e que todos nós sonhamos em uma vida mais simples, mais próxima de nossos sonhos.

O diretor de arte de “Brazil – O filme”, criou um futuro sombrio, entre o moderno e o antigo, como computadores feitos parte em máquinas de escrever e monitores. Mescla o moderno com o arcaico de forma propositada, para mostrar que apesar de novas tecnologias, o sistema estatal é burocrático e ineficiente.

“Brazil – O Filme”, dentro de seu roteiro aparentemente sem sentido, mostra de forma criativa que vivemos mesmo sob uma sociedade absurdamente burocrática, opressora, que contradiz os instintos humanos.

Curiosidade: Terry Gilliam pretendia que o filme se chamasse “1984 and a 1/2”, como forma de homenagear o diretor Federico Fellini, mas teve que trocar o nome após o lançamento de “1984”, baseado na obra de George Orwell.

BRAZIL, O FILME
(Brazil, 1985, Inglaterra).
Direção: Terry Gilliam.
Roteiro: Terry Gilliam, Charles McKeown e Tom Stoppard.
Elenco: Jonathan Pryce (Sam Lowry), Robert De Niro (Archibald “Harry” Tuttle),  Katherine Helmond (Ida Lowry), Ian Holm (M. Kurtzmann), Bob Hoskins (Spoor), Michael Palin (Jack Lint), Ian Richardson (Sr. Warrenn).
Ficção científica.
131 minutos.

– Indicado ao Oscar: Roteiro, Direção de arte.
– Bafta:  Efeitos visuais, desenho de produção.
– Crítica de Los Angeles: Filme, Diretor, Roteiro.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

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Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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