Cinema

O Espião que Sabia Demais | Sóbrio, thriller de espionagem tem elenco impecável

Baseado no romance de John Le Carré, filme traz de volta o universo tão representativo da obra deste autor
Por Carlos Cirne (12/01/2012) // Comente


Baseado no romance de John Le Carré, “Tinker Tailor Soldier Spy” de 1974, “O Espião Que Sabia Demais” traz de volta o universo da espionagem internacional, tão representativo da obra deste autor. Ele mesmo um ex-espião inglês, revelado publicamente pelo agente duplo britânico Kim Philby, tornou-se autor de livros de espionagem que, via de regra, renderam bons filmes sobre o tema – principalmente os centrados na época da Guerra Fria, nos anos 1960: “O Espião Que Veio do Frio” (1965), de Martin Ritt, com Richard Burton; “A Garota do Tambor” (1984), de George Roy Hill, com Diane Keaton; “A Casa da Rússia” (1990), de Fred Schepisi, com Sean Connery e Michelle Pfeiffer; “O Alfaiate do Panamá” (2001), de John Boorman, com Pierce Brosnan; e “O Jardineiro Fiel” (2005), de Fernando Meirelles, com Ralph Fiennes e Rachel Weiss.

Na trama de “O Espião Que Sabia Demais”, após uma desastrada operação em Budapeste, Control (John Hurt), chefe da cúpula do Serviço Secreto inglês conhecida como The Circus, é forçado a se retirar do cargo, levando consigo seu homem de confiança, George Smiley (Gary Oldman) – auterego de Le Carré, presente em outros de seus romances -, ambos partindo para uma aposentadoria compulsória. Neste meio tempo, Control morre e veem à tona suas suspeitas de que haveria um agente duplo, trabalhando para os soviéticos, infiltrado na cúpula do Circus, e Smiley é chamado para tentar descobrir de quem se trata, sem com isso despertar a suspeita de seus componentes. Vale lembrar que a história se passa nos ainda românticos anos 1970, e a tecnologia se resumia a telefones, extensos dossiês datilografados, e câmeras fotográficas do tamanho de um tijolo. Esqueça James Bond, e pense mais em vida real.

Apenas com a ajuda de dois agentes – um deles ainda na ativa do MI6, Peter Guillam (Benedict Cumberbatch, da série inglesa “Sherlock” e também presente no elenco de “Cavalo de Guerra”) – Smiley tem que descobrir qual dos quatro remanescentes membros do Circus pode ser o agente infiltrado: Percy Alleline (Toby Jones), Bill Haydon (Colin Firth, excelente como sempre), Roy Bland (Ciarán Hinds), e Toby Esterhase (David Dencik), que viriam a ser justamente os personagens do título original, “Tinker Tailor Soldier Spy”, não necessariamente nesta ordem, claro.

Neste ponto, as aparências revelam que qualquer um dos suspeitos pode ser o agente duplo, e é justamente aí que reside o grande trunfo do roteiro (de Bridget O’Connor e Peter Straughan), além do grande elenco reunido.

Gary Oldman, em contida performance, apresenta um amargurado homem de meia idade, desiludido com a carreira e com sua vida pessoal – o que acaba por interferir num julgamento mais isento da situação -, está sutil como há muito não se via. Os componentes da cúpula do Circus, cada qual desenvolvido com dimensionalidade por seus atores, colaboram para o clima de suspeita necessário ao desenrolar da trama. Não há dúvida de que cada personagem colocado na tela recebeu o intérprete adequado, tornando este elenco dos mais coesos de tempos recentes.

Com um clima visual que remeta a clássicos como” A Conversação” (1974, de Francis Ford Coppola), e uma trilha sonora de fina influência jazzística, este primeiro trabalho do diretor sueco Tomas Alfredson é, sem dúvida, reservado a um público menos focado na ação mirabolante de filmes de espionagem. De clima denso, poucas palavras e imagens soturnas, nem por isso deixa de ser cativante, em grande parte em função do excepcional elenco. Não perca nenhum detalhe da intrincada trama, mas não deixe de assistir.

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS
(Tinker Tailor Soldier Spy, França / Reino Unido / Alemanha, 2011)
Direção: Tomas Alfredson.
Roteiro: Bridget O’Connor e Peter Straughan, baseados em livro de John le Carré.
Elenco: Gary Oldman, John Hurt, Colin Firth, Toby Jones, David Dencik, Ciarán Hinds, Benedict Cumberbatch.
Drama / Mistério / Thriller.
127 minutos.

Estreia no Brasil: 13/01/2012.

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Carlos Cirne é designer gráfico e co-editor da newsletter de cultura e entretenimento Colunas & Notas (mar.ca@uol.com.br).


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