Criação: Seleção pela sobrevivência

As concepções de mundo foram chacoalhadas quando, em 1859, Charles Darwin publicou “A Origem das Espécies”. Daquele momento em diante, o conceito de Deus como criador supremo passou a ser questionado por uma teoria evolucionista.

E é a dualidade entre Deus, senhor da criação, pregada pela Bíblia; e a teoria de evolução das espécies, o tema central do filme “Criação”.

No filme dirigido por Jon Amiel (“Sommersby – O Retorno de um Estranho”, “Armadilha”) não temos a imagem de Darwin velhinho, de barbas longas, mas do jovem cientista, pai de 10 filhos, uma esposa extremamente religiosa, que sofre com os conflitos em sua mente diante de tamanha constatação evolucionista da criação do ser humano.

Se por um lado a esposa Emma (interpretada pela linda Jennifer Connelly) atormenta o cientista com sua religiosidade ferrenha, em contrapartida, o biólogo Thomas Huxley e o botânico Joseph Hooke, pressionam Darwin para concluir a obra e “entregá-la ao mundo”.

A verdade é que Darwin, por mais religioso que fosse, já não acreditava mais nas palavras da Bíblia. Mas, como dizer isso a si mesmo e ao mundo, em pleno século 19? Consciente da situação, num diálogo, Darwin diz a Huxley: “vivemos numa sociedade que é mantida coesa pela Igreja”.

Sua razão não deixava mais espaços para o criacionismo. E isso o atormentava.

Enquanto Huxley insistia para que o cientista continuasse seus estudos e reafirma que “nosso comportamento evolui de acordo com nossas necessidades. E então, ao longo do tempo, perdemos aquelas partes que não eram mais necessárias. Como o apêndice, o mamilo do macho e, por fim, a crença redundante num Todo-Poderoso”.

Em meio aos estudos e suas experiências genéticas, o filme enfoca o ser humano Darwin, homem jovem que vive imensos conflitos com a morte de sua filha preferida de 10 anos. Peso que lhe arrebatará até os últimos dias de sua vida.

Para que a vida tenha sentido, caminhamos por um chão invisível, que nos sustenta formado por respostas metafísicas como quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Muitos livros, principalmente religiosos, nos dão o cimento para esse chão, mas quando Darwin lançou “A Origem das Espécies”, fez com que esse piso ruísse…

Em uma cena fabulosa, diante do baú onde estão guardados os manuscritos do livro, num conflito interno entre publicar e abalar as estruturas do mundo e deixá-lo escondido, pela pressão imposta pelos valores religiosos de sua esposa, Darwin fala para a filha: “Suponha que o mundo parasse de acreditar que Deus tenha um plano para nós. Que nada importava. Nem o amor, nem a confiança, nem a fé. E nem a honra. Apenas a sobrevivência bruta. Além de tudo mais partiria o coração de sua mãe”.

Curiosidade: Um dos cartazes de divulgação traz uma foto em que aparece o jovem Darwin tocando o dedo com um chipanzé. Uma referência às pinturas da Capela Sistina (de Michelangelo), em que Deus dá o toque da criação.

CRIAÇÃO
(Creation, Reino Unido, 2009).
Direção: Jon Amiel.
Roteiro: John Collee, Randal Keynes.
Elenco: Jennifer Connelly, Paul Bettany, Jeremy Northam, Toby Jones, Jim Carter, Benedict Cumberbatch, Teresa Churcher, Pauline Stone, Martha West, Zak Davies, Harrison Sansostri, Christopher Dunkin.
Drama biográfico.
108 minutos.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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