Meu refúgio

Durante toda minha infância, meu maior desejo foi ser grande e forte. Maior e mais forte que meu pai. Maior não só em altura, mas para superá-lo em muitas das dás suas débeis características que ele ousava chamar de qualidade. Desejo este que era potencializado por minha incompatibilidade com seu sorriso sem verdade, sua boca de falsas palavras e sua indiferença familiar.

Quando ele dormia, costumava varrer seu rosto a procura de um traço em sua personalidade crua que justificasse sua posição diante da vida.  Sempre que jogava vídeo-game, ele parecia hipnotizado ao enlaçar com certa paixão os labirintos que o personagem do jogo eletrônico ia desvendando. Esperava eu “perder uma vida” e se lançava com um cigarro na boca para a escadaria da entrada da casa com a velocidade de Sonic, personagem principal de meu jogo favorito.

Por não me reconhecer em casa, troquei os jogos eletrônicos pelo mundo do “Taco”, bola de gude; pião, pipa e pique – esconde. Enquanto as crianças buscavam diversão nesses jogos infantis, eu fazia deles uma maneira de expurgar toda dor latente escondida amargamente no peito.  “Matar” uma gude era o desejo de uma resposta malcriada que nunca dei verdadeiramente a meu pai. O pião desencadeava a força reprimida, se tornando o soco com a mão que jamais ousei levantar contra ele no momento que rachei no meio o pião de Paulinho. Rebatia a bolinha de tênis do jogo do taco para gastar a energia que me traria a leveza de um sono tranquilo.

No pique–esconde eu me reconhecia, afinal, sempre fui impulsionado a reprimir minhas vontades, dúvidas e qualquer outra coisa que fugisse do direcionamento de meus pais.
Não à toa, ninguém nunca conseguia me encontrar.  Sempre fui meu melhor esconderijo.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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