Melancolia: Lars Von Trier coloca o ser humano no devido lugar


As declarações de Lars Von Trier em Cannes foram tolas. A punição imposta a ele, hipócrita. Mel Gibson falou coisa pior sobre judeus e foi recebido com pompa por lá. Dito isso, o mais importante é a obra do diretor. “Melancolia”, que rendeu à Kirsten Dunst o prêmio de melhor atriz no festival, tem tudo o que uma obra de arte na acepção da palavra precisa ter: provoca, gera reflexão, incomoda, contesta, impressiona.

Resumidamente, a trama em si tem tudo o que outros filmes-catástrofe nos entregam desde que os irmãos Lumière deram vida ao cinema: a família dispersa que busca se unir, o medo pela extinção da humanidade, algo que se aproxima da Terra para devastá-la. No caso, é o planeta que dá título ao longa. Há as irmãs Justine (Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg).


O roteiro, assim como demais trabalhos do cineasta, é dividido em episódios. São dois, que levam os nomes das protagonistas. O primeiro acompanha a recepção de casamento de Justine na mansão que a irmã divide com o marido John (Kiefer Sutherland). Durante a cerimônia, a jovem lida com a cobrança dos parentes e constata a infelicidade que permeia a família: todos têm rancores, mas se disfarçam de pessoas felizes. A metade final da projeção flagra a aproximação do planeta e a ansiedade crescente de Claire ante a possibilidade do fim do mundo – ela enfrenta a situação enquanto cuida da irmã, cada vez mais deprimida.

Tal qual “Anticristo” (que também teve Charlotte no elenco), um longo prelúdio em câmera lenta abre “Melancolia”, trazendo à tona o desfecho da história e imagens que podem significar os sonhos, ou desejos, das personagens.

Nos deparamos com uma jornada sem esperança. O mundo vai acabar, não tem jeito. O importante agora é qual atitude tomar até o fim. Com quem gostaríamos de estar? E mais: ao afirmar, por meio das irmãs, que somos os únicos no universo, o realizador trata de esfregar no espectador a insignificância do homem perante o infinito. A promoção no trabalho, como somos enxergados pela sociedade, o protocolo em eventos sociais. Tudo é pequeno, ridiculamente minúsculo e sem sentido quando a vida, de todos, está em jogo.

Fotografia, trilha sonora, sonorização e o excelente elenco (principalmente Kirsten, na melhor atuação da carreira) colaboram para a tremenda sensação de desconforto causada no público. Numa época em que profecias consideram 2012 o último ano da humanidade, impossível não refletir sobre o tema, não sentir o coração bater acelerado. Com este filme, Lars Von Trier expõe mais dos seus pesadelos, sonhos, delírios, frustrações, medos. Nos tira do lugar comum – não é essa a função da arte? E surpreende. Considerado pessimista, considera o amor fraterno como a única forma de suportar o temor e o caos. Se para cada declaração boba ele conceber um longa desse nível, está perdoado. Cannes, pensa a respeito.

MELANCOLIA
(Melancholia, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011).
Direção e roteiro: Lars Von Trier.
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, Charlotte Rampling, John Hurt, Stellan Skarsgård, Udo Kier, Jesper Christensen.
Drama / Ficção científica.
130 minutos.

– Festival de Cannes: Melhor atriz (Kirsten Dunst).
– Concorreu à Palma de Ouro em Cannes.

Estreia no Brasil: 05/08/2011.

Lançamento em DVD e Blu-ray: 14/12/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.  

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

2 thoughts on “Melancolia: Lars Von Trier coloca o ser humano no devido lugar

  1. Também gostei demais de Melancolia, especialmente pelo tratamento literário dado pelo diretor. Coisas que funcionariam bem em livros, acabam tendo bom desempenho no filme. Uma dramaticidade contida, prestes a explodir o tempo todo, constrasta com a esperança que teima em existir até o fim (até mesmo entre os espectadores). Fotografia e música belíssimas, efeitos especiais que impressionam e atores competentes (achei a intérprete de Justine ainda muito caras e bocas, mas o papel a salva). Vale a pena conferir.

  2. entre o filme e a orla de Santos, fico com o filme, excelente, com cores e afeto, enquanto a orla é a melancolia materializada – cores “mortas”, escuridão. arte, cadê nesse tipo de iluminação? talvez arte fria, arte morta em mês que celebra o nascimento da Luz. é triste estarmos com gestores que decidem pela melancolia!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *