Um Caminho Para Dois: Fim do romantismo é retratado com elegância

Um Caminho para Dois” é a forma mais absolutamente elegante, requintada, sofisticada – e divertida – de fazer aquelas afirmações em que muita gente acredita: que o casamento é o túmulo da paixão, o tempo acaba com a chama, o romantismo é soterrado com o passar dos anos, no começo tudo são flores mas depois tudo piora.

Ah, sim: e também de dizer aquela outra coisa em que muita gente não acredita: que o dinheiro não traz felicidade.

Mark e Joanna se conheceram jovens, lindos e pobres, dois estrangeiros passeando pelo interior da França – e foram imensa, gloriosamente felizes. Doze anos depois, estão de novo passeando pelo interior da França – são lindos, não tão jovens, muito ricos, e o encanto se perdeu em algum lugar do caminho.

Mark vem na pele de Albert Finney, o grande ator inglês que estava então no auge do estrelato, quatro anos depois do premiado e aclamado “As Aventuras de Tom Jones”. Tinha 31 anos.

Joanna vem na beleza única, exclusiva de Audrey Hepburn, também no auge da fama e do reconhecimento geral, três anos depois de “My Fair Lady”. Tinha 38 anos, e a mesma graça suave, encantadora, que exibiu aos 24 no seu primeiro papel importante, em “A Princesa e o Plebeu”.

O filme, lançado em 1967, tem a direção segura, experiente, talentosa de Stanley Donen, um absoluto mestre do musical, da aventura e do romance. Embora já fosse um veterano – seu “Núpcias Reais” é de 1951, e “Cantando na Chuva”, que co-dirigiu com Gene Kelly, é de 1952 –, gostava de experimentar, ousar. E “Um Caminho para Dois” é todo cheio de invencionices, brincadeiras formais, sacadinhas na narrativa – assim como “Tom Jones”, do então jovem Tony Richardson.

Uma narrativa cheia de brincadeirinhas formais, criativóis

“Um Caminho para Dois” é cheio de criativóis, um atrás do outro, sem parar. Parece assim um pouco, nesse sentido, com “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.

Manda às favas, por exemplo, a ordem cronológica. Mark e Joanna, ingleses, mas apaixonados pelo Continente, fizeram várias viagens pela França, entre a primeira, aquela em que se conheceram, e a mais recente, doze anos depois – e o filme mistura as diversas viagens, as diversas épocas. Mas mistura muito, mistura bem misturado – quase como se, na sala de montagem, tivessem embaralhado as sequências aleatoriamente

Quase como se – porque nada, na verdade, é aleatório. Os acontecimentos do passado alegre, feliz, brincalhão, voltam à memória do casal que hoje está sério, sem graça, um distante do outro. Uma lembrança puxa a outra, um fato leva a outro parecido de um passado mais distante.

O roteiro – do inglês Frederic Raphael – costura com um brilhantismo raro as idas e vindas no tempo, que duram o filme inteiro, sem cessar.

Numa bela sacada visual, Stanley Donen promoveu uma farra com os carros das diferentes épocas da vida de Joanna e Mark. Assim, nos dias de hoje – se considerarmos como dias de hoje os da viagem mais recente mostrada no filme, a que abre a narrativa, quando os dois estão com doze anos de casados – o casal viaja num confortável Mercedes-Benz. Na primeira das suas viagens, andaram a pé e pedindo carona. Um pouco depois, já tinham dinheiro para comprar um pequeno e velho MG. Quando estavam com dois anos de casados, viajaram num utilitário, juntamente com um casal de amigos e sua filhinha insuportável.

Pois bem: então, quando Joanna e Mark estão no seu velho MG, cruzam com um Mercedes idêntico àquele que usarão quando já estiverem mais velhos, mais ricos e menos felizes. Quando estão viajando no Mercedes, cruzam com um utilitário como o que usaram na desafortunada aventura a cinco. Coisas assim acontecerão diversas, muitas, muitas vezes.

As diferentes épocas invadem as demais, sem parar. Nos carros, nos locais, nas paisagens, nos diálogos. Um diálogo de doze anos antes é repetido agora. O tempo barafunda-se todo, o tempo todo.

Diálogos afiados, inteligentes, brilhantes

Um dos primeiros diálogos entre Mark e Joanna acontece nos dias de hoje. Eles estão no Mercedes, e passam por uma cidadezinha do interior da França onde acaba de se realizar um casamento. Joanna olha para o jovem casal: – “Eles não parecem muito felizes.”

Mark: – “E por que estariam felizes? Acabaram de se casar.”

Da primeira vez que viajam juntos, vêem num restaurante um casal de meia idade que não se fala – ficam em silêncio. Joanna pergunta como é possível um casal estar junto e não se falar, e Mark responde depressa: – “É porque eles são casados”.

Numa outra sequência, os dois observam um casal discutindo, brigando:

Mark: – “Isso é o casamento para você.”

Joanna: – “Isso é o casamento para eles.”

Mark: – “Isso é o casamento, ponto final.”

Alguns close-ups do rosto de Audrey são mais belos que os rostos pintados por Boticelli

Como a ação se passa ao longo de doze anos, desde os tempos em que os dois são muito jovens e ainda sem dinheiro, até uma época em que estão muito bem de vida (Mark é um arquiteto que sobe rapidamente na profissão), Audrey Hepburn usa os mais diferentes tipos de roupa, ao longo dos 112 minutos do filme, que aliás passam depressa demais. Audrey, sinônimo perfeito de elegância, usou, em vários de seus filmes, figurinos especialmente desenhados para ela por Givenchy. Aqui são tantos figurinos, mas tantos, que foi necessário encomendar roupas para diversos figurinistas – Paco Rabanne, Hardy Amies, Ken Scott, Michele Posier, Foale and Tuffin, Mary Quant.

Claro, tinha que ter Mary Quant. Mary Quant era um must, em 1967, era a própria imagem da Inglaterra em mudança acelerada de costumes, a Swingin’ London em pessoa, a sra. Minissaia.

Aliás, em “Um Caminho para Dois” Audrey Hepburn aparece em diversas cenas de short, de maiô. Magrinha, magrinha – mas com um pouquinho mais de carne nas coxas do que Angelina Jolie. Eram tempos melhores. Até as magrelas não eram tão anorexicamente biafrentas.

Alguns close-ups do rosto de Audrey Hepburn, na câmara de Stanley Donen, são tão belos quanto os rostos das mulheres pintadas por Boticelli.

Audrey Hepburn, Stanley Donen, Henry Mancini – que trio

Stanley Donen teve a sorte grande de dirigir Audrey Hepburn em três filmes. Fizeram juntos “Cinderela em Paris” (1957), “Charada” (1963) e este “Um Caminho para Dois”.

Nós, espectadores, tivemos a sorte de receber de Stanley Donen três filmes com Audrey Hepburn.

Donen era daqueles diretores que gostavam de manter os colaboradores. Henry Mancini compôs a trilha sonora de “Charada”, “Arabesque” (1966) e “Um Caminho para Dois”. O tema principal de “Um Caminho para Dois” é belíssimo, como tantos compostos pelo mestre.

Mancini fez também a trilha de outros filmes estrelados por Audrey Hepburn. A mais famosa delas é a de “Bonequinha de Luxo”, de 1961. É dele também a trilha de “Terror nas Trevas”, do mesmo ano deste filme aqui, 1967 – uma beleza de thriller dirigido por Terence Young, o inglês que realizou os primeiros filmes da série James Bond, em que Audrey interpreta, maravilhosamente, uma jovem cega cuja casa é invadida por um assassino.

Um americano que adorava fazer flmes passados na Europa

Americano da Carolina do Sul, Stanley Donen adorava filmar na Europa, contar histórias passadas na Europa. “Charada” e “Cinderela em Paris” se passam em Paris, “Arabesque” e “Indiscreta” (1958), na Inglaterra. Este aqui, seu road movie, se passa inteiramente na França.

Os americanos que aparecem no filme – Cathy e Howard, o tal casal que viaja junto com Mark e Joanna, com a filhinha pentelha – são absolutamente ridículos. O roteirista inglês Frederic Raphael foi especialmente cruel na criação desses personagens, atiçando aquela velha relação de amor e ódio que une e separa EUA e Europa.

Cathy (Eleanor Bron) havia sido namorada de Mark, no passado. Casou-se com Howard (William Daniels), um contador, um sujeito organizado, meticuloso, cuidadoso, um estudioso da psicologia mais barata possível – um dos tipos mais chatos que já povoaram os filmes. Tiveram Ruth (Gabrielle Middleton), uma garotinha criada numa educação em que a palavra “não” inexistia, o que é típico da segunda metade dos anos 60 – Ruth, ou Ruthie, como os pais a chamam, é, assim como o pai, um dos tipos mais pentelhos da história do cinema.

A viagem que os cinco fazem juntos, e que, como todas as demais viagens de Mark e Joanna, é mostrada em pílulas ao longo de todo o filme, é o absoluto inferno para o casal de protagonistas – e fornece ao espectador algumas piadas hilariantes. Howard cronometra quanto tempo cada um dirige; de tempos em tempos, caderninho à mão, manda que Mark assuma a direção, depois Joanna. No restaurante, caderninho à mão, apresenta a seguinte decisão: assumindo que o que Ruth consome equivale à metade de um adulto, ela será considerada uma parte, e cada adulto, duas partes, de tal maneira que a conta será dividida por 9, cabendo ao casal Mark e Joanna quatro nove avos do total, e a eles, cinco nove avos. (Será que é assim que se diz uma fração – 4/9, 5/9? Não posso criticar a ignorância dos estudantes que fazem Enem…)

Lá pelas tantas, Ruthie pega a chave do carro e a joga longe. Ficam os quatro adultos durante horas procurando a chave na beira da estrada.

Um parênteses absolutamente pessoal

(Vimos “Um Caminho para Dois” juntos, Regina e eu, quando estávamos casados e não sabíamos como conduzir nossa vida a quatro, ela com a filha dela, eu com a minha filha. Ela implicava comigo e com a forma como eu educava minha filha; dizia que eu não impunha limites a ela, que ela era igual à Ruthinha do filme.

Foi impossível não lembrar disso, ao rever o filme agora, tanto tempo depois. Hoje, passados tantos anos-luz, as dores todas esquecidas, a filha dela linda, maravilhosa, resolvida, a minha linda, maravilhosa, resolvida, sorrio com a lembrança da grossa besteira de Regina, aquela mulher extraordinária.)

Eleanor Bron, a moça de “Help!” E Jacqueline Bisset num papel mínimo

Ao rever Eleanor Bron no papel de Cathy, a mãe do monstrinho, tive a certeza de que a vi em outros filmes, mas não me lembrava quais. Uma olhada no IMDb resolveu o problema: Eleanor Bron, inglesa de Middlesex, nascida em 1938, fez um papel pequeno mais importante em Help!, o segundo filme dos Beatles, dirigido por Richard Lester em 1965. Trabalhou também em “Como Conquistar as Mulheres”, de 1966. Continua na ativa; o IMDB registra 83 filmes com ela.

Mas não me lembrava, de jeito nenhum, de que Jacqueline Bisset faz um pequeno papel em “Um Caminho para Dois”.

Jacqueline Bisset estava com 23 aninhos quando o filme foi lançado. Já havia tido outros papéis bem pequenos em cinco outros filmes, inclusive “Armadilha do Destino”, de Polanski, de 1966. Aqui, faz o papel de Jackie, uma das garotas da Kombi que Mark e Joanna encontram quando estão viajando pedindo caronas pelas estradas francesas.

Embora o namoro com Joanna estivesse no início, e o início do namoro tenha sido absolutamente idílico, Mark se engraça por Jackie-Jacqueline Bisset. Mark é um grande galinha, não pode ver uma saia. Vai se engraçar mais tarde com uma outra mulher.

Um Albert Finney um tanto empostado demais, Audrey sempre natural

Mark, na verdade, é um chato de galocha – foi o que achei nesta revisão do filme agora. Sempre foi, desde o início, quando era mais jovem e ainda não tinha enchido o rabo de dinheiro. Verdade que depois de rico fica ainda pior, ainda mais chato, mas chato, sempre foi. Não dá para entender como Joanna-Audrey Hepburn, aquela gracinha, se apaixonou por ele, e continuou apaixonada ao longo de tanto tempo.

Mas tudo bem: o amor é cego, dizem.

Na revisão, achei Albert Finney empostado demais. Tem uma voz falsa, empostada, como se estivesse o tempo todo representando um papel de alguém que não é ele. É esquisito – mas é um tanto chocante o contraste com Audrey Hepburn, que atua muito mais à vontade.

“O filme tentar fazer um comentário amargo sobre o tédio conjugal, tipo La Notte

Outras opiniões. Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4: “Um filme maravilhosamente interpretado sobre casal Hepburn e Finney sempre em guerra parando para fazer reminiscências sobre seus 12 anos de casamento, tentando salvar sua felicidade. Um filme perceptivo, vencedor, bem dirigido por Donen. Agradável tema por Henry Mancini.”

Dame Pauline Kael, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema:

“Outros filmes do diretor, Stanley Donen, não são tão aguçados. É o roteirista inglês Frederic Raphael, com um homor contido, quem pôs uma marca nesta história de marido e mulher – Albert Finney e Audrey Hepburn – vistos durante algumas viagens européias, em períodos diferentes e não consecutivos de suas vidas, oscilando entre o presente e o passado. A intenção é mostrar um casamento moderno, em que pessoas ideais, apaixonadas e bem-sucedidas, mesmo assim não são felizes. (…) O filme tenta fazer um comentário amargo sobre o tédio conjugal, tipo ‘La Notte’. Os trechos cômicos, fáceis, despertam expectativas nos espectadores que depois são traídas, e as coisas inteligentes e amargas parecem apenas rançosas. No entanto, às vezes Hepburn está extraordinariamente bela – sobretudo no final, em que se pretende que ela aparente mais ou menos a idade que na verdade tem, e seu minirrosto duro e laqueado é enfatizado por um vestido reluzente. Como o marido, Finney está musculoso, mal-humorado e meio infantil – o que faz Hepburn parecer mais valente e comovente, como a esposa que tenta remediar as situações. As caricaturas dos americanos, feitas por William Daniels e Eleanor Bron, seriam constrangedoramente exageradas vistas a 50 metros – aqui são filmadas em close.”

“Em todo lugar, a qualquer momento, o amor acaba”

Mas, afinal, le mariage est le tombeau de la passion? E, aliás, de quem é essa frase famosérria? Voltaire? Balzac? Flaubert? Nenhuma das alternativas anteriores, parece. Parece que a frase não tem autoria definida.

O casamento mata a paixão? Todo amor, toda paixão é necessariamente finita, conforme nos diz Stanley Donen neste filme?

Paulo Mendes Campos, num dos textos que mais admiro, que mais me fazem babar, diz que o amor acaba “numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas”.

Num momento de genialidade, Nelson Motta escreveu que “dor de amor quando não passa é porque o amor valeu”.

Eu sei lá. Tive umas dez paixões sérias na vida, três casamentos; amo minhas duas ex-mulheres, e 21 anos depois do terceiro casamento não encontro jeito de perder o encanto. Muito menos procuro – ao contrário do que fazem, com perseverança, Mark e Joanna.

UM CAMINHO PARA DOIS
(Two for the Road, Inglaterra, 1967).
Direção: Stanley Donen.
Roteiro: Frederic Raphael.
Elenco: Audrey Hepburn (Joanna Wallace), Albert Finney (Mark Wallace), Eleanor Bron (Cathy Manchester), William Daniels (Howard Manchester), Claude Dauphin (Maurice Dalbret), Jacqueline Bisset (Jackie).
Drama / Romance / Comédia.
111 minutos.

– Indicação ao Oscar: Roteiro.
– Indicação ao Bafta: Roteiro britânico.
– Indicação ao Globo de Ouro: Trilha sonora, atriz em comédia/musical )Audrey Hepburn).

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

One thought on “Um Caminho Para Dois: Fim do romantismo é retratado com elegância

  1. Excelente sua matéria, Sergio!
    ‘Two for the Road’ é um dos pontos altos da carreira de Audrey, tão linda e elegante!
    Parabéns!

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