Fórmula ‘Nelson Motta’ de biografias não funciona em A Primavera do Dragão

Na contracapa de “A Primavera do Dragão”, o autor Nelson Motta é descrito como um biógrafo pop e amoroso. Nada mais adequado. As experiências anteriores justificam esses adjetivos. Pop, por levar para uma quantidade maior de pessoas em uma linguagem acessível a vida de artistas como Tim Maia e momentos da música nacional como fez em “Noites Tropicais” e, amoroso, pois evita entrar em conflitos maiores e privilegia o lado bom de quem retrata.

Se nos livros anteriores isso funcionou bem, o mesmo não pode se dizer com a obra que trata da vida do cineasta Glauber Rocha, lançada pela Editora Objetiva com 370 páginas. Mesmo que o autor avise no subtítulo: “A Juventude de Glauber Rocha”, o trabalho fica superficial demais para uma personalidade tão genial e confusa quanto a deste baiano nascido em 14 de março de 1939 em Vitória da Conquista e falecido no Rio de Janeiro em 22 de agosto de 1981.

Glauber Rocha foi uma figura controversa que se arremessava de cabeça no que acreditava. Gostava de um poema de Murilo Mendes chamado “Mapa”, que pregava o “desespero de não poder estar presente a todo os atos da vida” para “inaugurar no mundo o estado de bagunça transcendente.” Esse desejado estado, ele colaborou para existir principalmente na tríade “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”.

“A Primavera do Dragão” mostra a infância de Glauber e reconstrói os primeiros passos da família, o levando ao colégio e a formação das primeiras amizades, com nomes como João Ubaldo Ribeiro. Depois, envereda pelo raciocínio mais crítico e a paixão avassaladora pelo cinema, que foi responsável pelas mais diversas peripécias. Repleto de casos espirituosos, Nelson Motta encerra o livro justamente na participação de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” em Cannes, deixando muita coisa de fora.

Da parte que talvez seja a mais brilhante com “Terra Em Transe”, e depois passando pelo exílio até os últimos anos de difícil convivência e trato, Nelson Motta preferiu abster-se. Uma atitude sábia do ponto de vista de aceitação do trabalho, pois se optasse por tratar desses fatos, evidente que fugiria do subtítulo da obra, mas principalmente a deixaria mais densa e traumática e assim não poderia ostentar colocá-la entre a lista de mais vendidos onde vez ou outra se faz presente.

A fórmula “Nelson Motta” de biografias não parece desgastada em si, só que fica melhor direcionada para artistas com um lado menor de problemas existenciais (não que Tim Maia fosse um anjo, mas…). Para tentar entender Glauber Rocha, o maestro que impulsionou o Cinema Novo, não cabe somente a leitura desse “A Primavera do Dragão”, e sim a de outras obras, algumas inclusive relacionadas como própria fonte de pesquisa do livro. Como início para os mais jovens, até que funciona. Mas, só isso.

A PRIMAVERA DO DRAGÃO – A JUVENTUDE DE GLAUBER ROCHA
Autor: Nelson Motta
Editora Objetiva
370 páginas
Biografia

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

2 thoughts on “Fórmula ‘Nelson Motta’ de biografias não funciona em A Primavera do Dragão

  1. Não li a biografia, mas se ele se absteve em abordar a fase em que Glauber realizou “Terra em Transe”, penso que isso não poderia acontecer. Acho que foi o talvez o momento de inspiração maior do cineasta, conseguindo uma síntese que continua atual e que vai sendo sempre atualizada pela espúria política brasileira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *