Potiche: a esposa troféu


Caricato é a primeira palavra que vem na mente para adjetivar “Potiche”. Num segundo olhar, a palavra é engraçado. Depois sutil e engajado. No final dos anos 70, uma dona de casa rica fecha os olhos para a traição do marido com a secretária. O seu filho é um revolucionário filhinho de papai. A sua filha é bem moderna. Casada e com dois filhos, pensa em se divorciar. Mas é capaz de ter atitudes anti-éticas para manter o casamento. O seu marido simboliza o machista capitalista. Há também o político tipicamente comunista e revolucionário. A secretária que busca subir de vida dormindo com o chefe. E, é claro, a esposa troféu. Aquela que sempre está impecável, deixa a casa perfeita e é compreensiva com todos. Será que esses personagens tão caricatos são realmente o que parecem ser?

Uma greve na fábrica de guarda-chuvas deixa a situação fora de controle e de repente a “esposa troféu” tem de administrar a empresa da família. É nesse momento que as máscaras começam a cair e o filme começa a levantar problemas tão atuais hoje como há mais de 30 anos. Além da questão feminista, tanto o capitalismo e o comunismo são questionados, discute-se temas como traição e, de uma maneira quase imperceptível, o aborto e a homossexualidade.

Saí do cinema com a sensação de que algumas coisas não mudaram. Sim, muitas delas evoluíram desde o tempo das suffragettes que lutavam pelo direito ao voto e das feministas que queimavam sutiãs. Mas ainda há muitas mulheres que têm medo de ficarem sozinhas a ponto de manterem um relacionamento que não está bom. Há aquelas que gostam de ser “objeto” e buscam subir na vida através de um homem. Um exemplo clássico são as marias-chuteiras. Apesar de todas as conquistas ainda a sociedade deixa subentendido que uma mulher “fracassou” se após uma determinada idade não encontrou o “homem certo”. Um exemplo bem engraçado dessa “exigência” é a Bridget Jones. Nem tudo o que o humorista Christian Pior diz eu concordo, mas adorei o  vídeo sobre o Dia dos namorados. Veja abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=45wa1GuM4WY

Apesar das conquistas ainda há algumas desigualdades entre os gêneros. Segundo uma pesquisa da Catho online publicada no ano passado, os salários entre homens e mulheres têm diferenças de até 51%. É algo para pensar. Uma mulher que sai com vários homens pode receber adjetivos pouco elogiosos, mas, um homem, não. Em pleno século XXI ainda há violência contra a mulher. Ser uma feminista radical que queima sutiã ou uma yuppie que se veste como um “homem” já passou de época, pois lutar pelos seus direitos dessa forma não é uma boa estratégia nos dias atuais. Talvez, essas atitudes foram necessárias em uma determinada década, mas não hoje. Quando eu ainda estava na faculdade, escutei de uma menina, que se dizia feminista, que o scarpin era um objeto de tortura da sociedade machista e imposto pelos homens às  mulheres! Ora, será que ela nunca escutou falar do rei francês Luiz XV?

Para piorar, confunde-se cavalheirismo com machismo. Adoro receber flores e acho uma tremenda falta de educação esses caras que não seguram a porta do elevador para deixar uma mulher passar. Acredito que do mesmo modo que não há nada demais uma mulher dividir a conta ou até mesmo pagá-la, também acho que aceitar que o namorado pague o cinema ou a conta do restaurante não a faz menos independente.

http://www.youtube.com/watch?v=45wa1GuM4WY&feature=youtu.be Trailer

Homens e mulheres são fisiologicamente diferentes. Mas, como seres humanos, devem ter os mesmos direitos. O que eu mais gostei desse filme foi a personagem mostrar que tem a mesma capacidade de um homem em ser bem sucedida nos negócios sem, necessariamente, perder a sua feminilidade. Há uma cena em que madame Pujol teria de negociar com os grevistas e se veste com a sua melhor roupa. Foi inevitável não rir da cena e de mim mesma. Lembrei-me  do efeito psicológico que um par de scarpins com saltos à Luiz XV tem sobre mim. Quando os coloco, sinto-me poderosa. Mas isso não me impede de também saber instalar um chuveiro e usar uma furadeira.

Somos humanos e devemos lutar pelo direito de sermos nós mesmos. Sem rotular que isso ou aquilo deve ser feito por homens ou mulheres e que determinadas características devem ser somente de um gênero ou de outro. Cuidado com as etiquetas que colam na nossa testa. Aliás, uma ótima sacada do pôster do filme.

Tome nota:

Assista também “O Sorriso de Monalisa” e “Diário de Bridget Jones”.

Leia: “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir

Curiosidades:

| Mesmo pós-graduadas, mulheres ganham até 51% menos que homens

| Como surgiu o salto alto

POTICHE – ESPOSA TROFÉU
(Potiche, França, 2010).
Direção: François Ozon.
Roteiro: Pierre Barillet, Jean-Pierre Grédy, François Ozon.
Elenco: Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Jêrémie Renier, Karin Viard, Judith Godrèche.
Comédia.
103 minutos.

– Concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Estreia no Brasil: 24/06/2011.

Lançamento em DVD: Novembro/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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