Minhas tardes com Margueritte: Pode parecer clichê, mas filme é singelo


Adoro o jeito bonachão do Gérard Depardieu. Colocar aquele homenzarrão rude num banco de praça junto com uma velhinha simpática e delicada – com o nome de flor a qual seu pai registrou com um T a mais – para mostrar que vale a pena mergulhar no mundo dos livros. Pode até parecer um clichê, porém, esse filme é singelo. Aliás, esse é o melhor adjetivo para defini-lo. Saímos mais leves do cinema.


Diferente do personagem de Ralph Fiennes, em “O Leitor”, essa contadora de histórias é alguém que conheceu o mundo e, no final da vida, ainda tem tempo para se surpreender. Uma vez, eu escutei de alguém que eu era “netinha de vovó”, acho que seria uma adaptação de “filhinho da mamãe” ou algo do tipo. Confesso, sou mesmo. Amo conversar com as minhas duas avós. Às vezes, fico horas papeando no telefone com elas. Há uma sabedoria de quem viveu a vida e sabe que, apesar de tudo, tem ainda muita coisa a aprender. É uma calma que vem de não sei onde, talvez por terem superado muitos problemas e até mesmo ansiedades que, hoje, jamais imaginaríamos que elas ainda as têm. Sim, elas ainda as têm. Tenho de aprender, pois sempre me surpreendo quando elas me contam de seus anseios e dos momentos que lhes faltam a calma. Ora, podem estar mais sábias, mas são humanas. Aliás, ficar velho não é sinônimo de sabedoria. Entretanto, as experiências e o tempo ajudam a encontrá-la.

Margueritte me faz lembrar daquelas pessoas que cruzamos em nossas vidas que amamos e são mais importantes que muitos parentes. Por que e como alguém passa a fazer parte da nossa família? Laços de sangue? Não, não, não, são laços amarrados na nossa alma. Parentes são meus dentes, de vez enquanto, mordem a minha língua. Não é mesmo? Aliás, sempre diz uma das minhas avós.

E a opinião alheia? Muitas vezes esse “Outro” nos faz enxergarmos a nossa imagem no espelho de maneira distorcida daquela a qual realmente somos. O olhar, que não é nosso, vira um fardo que levamos pela vida e damos uma importância de maneira errada. É difícil, porém, necessário dizer: dane-se, dane-se, dane-se. A sua opinião sobre mim não é o que eu realmente sou.

MINHAS TARDES COM MARGUERITTE
(La Tête en Friche, França , 2010).
Direção: Jean Becker.
Roteiro: Jean Becker, Jean-Loup Dabadie, Marie-Sabine Roger.
Elenco: Gérard Depardieu, Gisèle Casadesus, Maurane, Patrick Bouchitey.
Comédia / Drama.
82 minutos.

Estreia no Brasil: 27/05/2011.

Lançamento em DVD: Novembro/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

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Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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