O Mensageiro do Diabo: Dualismo humano


O ser humano é um ser em conflito. Tantos são os dilemas do homem, mas, Amor e Ódio estão sempre no cerne da existência. “O Mensageiro do Diabo”, que como título original “The Night of the Hunter” (O Dia do Caçador) traz à tona o dualismo do ser humano entre o Bem e o Mal.

Robert Mitchum interpreta o Reverendo Harry Powell, um pseudo pastor, que vive dando golpes em viúvas. Psicótico, o pastor incorpora pensamentos religiosos, que os alimenta em suas matanças e justificam (na mente dele) o profano em seus atos.

Numa dessas andanças pelos Estados Unido o reverendo Harry Powell é preso numa casa de shows de mulheres por dirigir um carro roubado.

Enviado para a prisão, lá divide cela com Ben Harper (Peter Graves), um homem que roubou US$ 10 mil do banco de Western Virginia (uma fortuna para a época) para salvar sua família.

O fato é que Ben Harper, antes de ser pego, deixa o dinheiro do furto com seus filhos e pede para que eles mantenham segredo absoluto e não contem nem a sua mãe.


O roubo fica conhecido em toda região. E o reverendo Harry Powell, que pegara 30 dias de prisão por dirigir um carro roubado, tenta extrair o local onde estão escondidos os US$ 10 mil de Ben Harper, que condenado Powell à forca.

Obcecado em encontrar o dinheiro, ao sair da prisão, Harry Powell segue atrás da família de Harper. Com seu disfarce de reverendo, o afável e homem bom Powell conquista a simpatia de todos os amigos da família, que logo o intitulam como um novo marido para Willa Harper, viúva de Ben.

Depois de se casar com Willa Harper (Shelley Winters), Powell faz uma lavagem cerebral na nova esposa, que passa a se sentir uma mulher pecaminosa. Ainda confusa pela prisão e a condenação à forca de seu marido, Willa Harper, de mente fraca e fragilizada, entra num transe religioso condenando a si mesma.

Na surdina, Powell vem aterrorizando as crianças para revelarem onde está o dinheiro. O disfarce de Powell vai até o momento em que Willa, ao chegar em casa depois do trabalho, escuta o falso reverendo coagindo seus filhos, numa cena fortíssima, em que Powell os deixa famintos e monta uma mesa farta. Mas para comer, só se revelarem o segredo.

Powell percebe que Willa Harper ouviu sua conversa com as crianças. Diante disso, o serial killer entra em ação. Numa cena antológica, antes de cortar a garganta de Willa, o reverendo que tem tatuado nos dedos da mão esquerda a palavra LOVE (amor) e nos da direita HATE (ódio), inicia uma luta consigo, com uma mão tentando segurar a outra, sintetizando a luta entre o bem e o mal que temos dentro de nós, como uma versão de Dr. Jekyll e Mrs. Hide, no romance “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson.

Depois de matar a mãe, Powell parte para arrancar a qualquer custo o segredo das crianças. Num deslize, o reverendo os deixa escapar. Eis que se inicia outra etapa do filme, numa perseguição aterrorizante de Powell às crianças, que se refugiam num barco quase que à deriva pelo rio. (As cenas em que Powell segue a cavalo o barco com duas crianças à bordo são de arrepiar.)

O diferencial do filme de Laughton, e o que o torna um grande clássico e cult, é que pegou um tema bastante divulgado, mas a maneira como fez o filme o tornou grandioso. Como sempre digo, na maioria dos casos, não precisamos de monstros, aliens e predadores, pois o maior mal está dentro dos homens.

Curiosidades: Para ilustrar o personagem de si mesmo, o reverendo reveste-se de histórias. Para explicar ao menino sobre as palavras se dirige ao pequeno John e diz: “Ah, meu filho, vejo que está olhando para os meus dedos. Quer que lhe conte a história da mão direita e da mão esquerda, a história do bem e do mal? Foi com esta mão esquerda que Caim matou o seu irmão mais moço. E agora está vendo a mão direita? Esta mão tem veias que vão diretamente ao coração! É a mão do amor!”

O MENSAGEIRO DO DIABO
(The Night of the Hunter, 1955, EUA).
Direção: Charles Laughton.
Roteiro: James Agee, baseado em livro de Davis Grubb.
Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper), Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Birdie Steptoe), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Don Beddoe (Walt Spoon), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper), Gloria Castillo (Ruby).
Thriller / Noir / Drama.
93 minutos.

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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