Tomates Verdes Fritos é sensível, caloroso, com tom melancólico bem temperado por momentos leves

Continua tão delicioso de se ver quanto na época em que foi feito, 20 anos atrás, este “Tomates Verdes Fritos”. É uma beleza de filme, sensível, caloroso, com um tom melancólico bem temperado por momentos leves, bem humorados. Uma pequena ode à vida e à amizade – suave, não uma sinfonia, mas um quarteto de cordas.

E que quarteto de atrizes, todas elas no auge de seu talento, perfeitas nos papéis – as então jovens Mary Stuart Masterson e Mary-Louise Parker, a sempre excepcional Kathy Bates em uma de suas melhores interpretações e a veteraníssima Jessica Tandy linda e sapeca. Ah, sim, e a importância delas dentro do filme é nessa ordem – primeiro as duas mais jovens, depois as duas mais velhas. Nos créditos iniciais, Kathy Bates e Jessica Tandy aparecem primeiro, por serem atrizes mais famosas.

“Tomates Verdes Fritos” é o exemplar mais perfeito de um subgênero que chamo de “filmes sensíveis, mais sobre sensações do que contando histórias”. É um subgênero que tem muitos títulos; não é a praia de quem gosta de filmes de ação, thrillers ou westerns. Só para enumerar os que me vêm à cabeça de imediato, há, entre outros, “Colcha de Retalhos” , “Tudo Pela Vida”, “Romance de Outono”, “Spitfire Grill – O Recomeço”, “O Clube da Felicidade e da Sorte”.

Como vários desses filmes citados aí, “Tomates Verdes Fritos” é uma obra de alma feminina, de olhar feminino do mundo – mesmo sendo o diretor um homem, Jon Avnet, em seu primeiro longa-metragem depois de uma carreira sólida na TV. O filme se baseia no romance escrito por uma mulher, Fannie Flag, que assina o roteiro com mais uma mulher, Carol Sobieski.

Uma história nos anos 30, outra nos anos 90

É um daqueles filmes que se passam em dois tempos: parte da ação acontece nos dias de hoje (no caso, o início dos anos 1990), e a outra parte, no passado distante (começando nos anos 1920 e concentrando-se basicamente nos anos 1930).

Quando a ação começa, nos dias de hoje (ou da época em que o filme começa, é claro), temos um casal que vai visitar, numa pequena cidade do interior – veremos depois que é no interior do Alabama, Sul Profundo – uma tia do marido, que está em uma confortável, simpática casa de repouso para idosos. Os dois, Ed (Gailard Sartain) e Evelyn (Kathy Bates), são pessoas bem acima do peso; ela, em especial, é uma comedora compulsiva de doces. Na sala de espera da casa de repouso, enquanto Ed está no quarto da tia, Evelyn é abordada por uma velhinha de 82 anos, alegre, falante, Ninny Threadgoode – o papel de Jessica Tandy, que, com a carreira iniciada em 1932, vinha de três sucessos recentes, “Cocoon”, de 1985, “Cocoon, o Retorno”, de 1988, e “Conduzindo Miss Daisy”, de 1989.

A velhinha Ninny começa a falar com Evelyn como se já a conhecesse há muito tempo: conta que tiraram sua vesícula, e em seguida está contando histórias de seu passado – começa a contar sobre Idgie Threadgoode (que, quando criança, é interpretada por Nancy Moore Atchison, e logo em seguida por Mary Stuart Masterson), de como Idgie perdeu o irmão mais velho que adorava, Buddy (Chris O’Donnell), e de sua amizade com Ruth (Mary-Louise Parker).

Duas histórias paralelas da amizade entre duas mulheres

A princípio, Evelyn ouve as histórias de Ninny só por polidez, educação – sem conseguir disfarçar, porém, um certo mal-estar. Mas acaba gostando das histórias que ouve. E as duas voltarão a se encontrar, em novas visitas de Evelyn e seu marido à casa de repouso. O espectador acompanha, então, as duas histórias – a da amizade de Idgie e Ruth, e a da nascente amizade entre Ninny e Evelyn.

A jovem Idgie era uma figura fascinante; em plenos anos 30, no Sul Profundo, era uma libertária, independente, solta; freqüentava bar mal afamado, jogava pôquer, bebia uísque, fazia amizade com negros e negras. A jovem Ruth, bem mais careta, tímida, reservada, fica fascinada por ela.

Assim como fica fascinada por ela, décadas depois, a nossa Evelyn, comilona, com um marido manso, que não a trata mal, mas que praticamente a ignora, e prefere sempre um jogo de qualquer coisa na TV à companhia da mulher. Através do que vai sabendo sobre Idgie, e da amizade que vai crescendo entre ela e a velhinha Ninny, Evelyn começa a mudar de vida.

Haverá, nas histórias do passado, um marido espancador, um misterioso desaparecimento, com suspeita de assassinato, um julgamento, perda. As histórias são simples, mas envolventes. As atrizes estão maravilhosas, o filme tem um tom de sinceridade que é arrebatador.

Fez um grande sucesso, na época, e vem ganhando um status de cult ao longo destes 19 anos que se passaram.

Não há menção explícita a um amor homossexual, mas…

Fiquei pensando, depois de revê-lo agora, após vários anos, assim como pensei quando vi pela primeira vez, o quanto há, na história de Idgie e Ruth, de sugestão de um amor maior que uma grande amizade. Não há qualquer menção explícita a um amor homossexual; não há, nem de longe, qualquer cena de sexo entre Mary Stuart Masterson e Mary-Louise Parker – nem mesmo de carinho.

Acho que há, sim, uma suave, sutil sugestão de que Idgie tinha uma paixão por Ruth. Mas é muito, muito suave e sutil. Mas isso é só um pequeno detalhe. Não muda nada.

Alguns fatos – e outras opiniões

Vamos a alguns fatos e a outras opiniões. O filme recebeu duas indicações ao Oscar: de melhor atriz coadjuvante para Jessica Tandy e de melhor roteiro adaptado. Jessica Tandy teve indicação ao Bafta de melhor atriz e Kathy Bates, ao de atriz coadjuvante. No total, foram seis prêmios e seis indicações.

Fannie Flagg, a autora do romance em que o filme se baseia e uma das roteiristas, teve uma carreira como atriz, e, no filme, faz um pequeno papel, interpretando uma das líderes dos grupos de auto-ajuda de que Evelyn, o personagem de Kathy Bates, participa. Parece que conhece a vida nas pequenas cidades do Alabama que descreve: é natural de lá mesmo.

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4, e diz que é uma agradável filme com uma história dentro da história, em que uma reprimida dona de casa do Sul (o personagem de Kathy Bates) encontra uma velhinha numa casa de repouso e fica cativada pelas histórias que ela conta a respeito de duas combativas amigas dos anos 20 e 30. “Adaptação de primeira linha da novela de Fannie Flagg, tem só um problema: um par de finais a mais. Impressionante estréia na direção de longa-metragem do produtor Avnet.”

O autor da resenha no AllMovie (4 estrelas em 5), Derek Armstrong, diz que o filme oferece úteis mensagens sobre a amizade e a independência pessoal, mas aqui e ali cai em alguns exageros, inclusive na descrição dos homens como bestas feras. Conclui dizendo que é o típico épico do feminismo pop e do velho sul. No meio, trata da questão do homossexualismo: “O roteiro também consegue ser sutil, especialmente ao lidar com o lesbianismo não declarado de Idgie Threadgoode.”

Se você não viu o filme ainda, é melhor não ler a partir daqui

Roger Ebert, que dá 3 estrelas em 4, é como sempre mais prolífico. Começa falando da imensa resistência que ele tem com esse tipo de filme em que duas pessoas no presente se sentam e contam histórias do passado: “Por que não contar simplesmente a história do passado, e pronto?” E diz que odeia especialmente os filmes em que, no final – epa! – o espectador é levado a entender que, surpresa, quem está contando a história é, afinal de contas, a própria personagem da história! Mas aí diz que Tomates Verdes Fritos consegue sobreviver à estrutura de flashbacks graças à personagem que ouve a história, Evelyn-Kathy Bates.

A questão do lesbianismo está clara para Ebert. Diz ele: “O assassinato e o subseqüente julgamento não são de fato o tema de Fried Green Tomatoes, que é realmente sobre o não-conformismo em uma sociedade intolerante. É bastante claro que Idgie é lésbica, e bastante claro que ela e Ruth são um casal, embora, por causa dos costumes do Sul naquele tempo, muita coisa não é falada, e nunca estamos muito certas de até que ponto as coisas são claras para Ruth.” E conclui dizendo que o filme é bastante previsível, e a estrutura de flashbacks é uma distração, mas a força das atuações supera os problemas de estrutura.

Está certo o Ebert – como quase sempre.

Um pequeno detalhe: o filme foi lançado no Brasil em DVD (por uma pequena empresa chamada NBO Editora) como “Tomates Verdes e Fritos”, com o acréscimo de um e que absolutamente não existe. Essa empresa é meio doida – na capa, o filme está classificado como musical!

TOMATES VERDES FRITOS
(Fried Green Tomatoes, EUA, 1991).
Direção: Jon Avnet.
Roteiro: Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado no romance Fried Green Tomatoes at the Whistle Stop Café, de Fannie Flagg.
Elenco: Mary Stuart Masterson (Idgie Threadgoode), Mary-Louise Parker (Ruth Jamison), Kathy Bates (Evelyn Couch), Jessica Tandy (Ninny Threadgoode), Cicely Tyson (Sipsey), Nick Searcy (Frank Bennett), Gailard Sartain (Ed Couch), Stan Shaw (Big George), Gary Basaraba (Grady Kilgore).
Drama.
130 minutos.

– Indicação ao Oscar: Atriz coadjuvante (Jessica Tandy), Roteiro adaptado.
– Indicação ao Bafta: Atriz (Jessica Tandy), Atriz coadjuvante (Kathy Bates).
– Indicação ao Globo de Ouro: Filme comédia/musical, Atriz em comédia/musical (Kathy Bates), Atriz coadjuvante (Jessic Tandy).

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Leia mais sobre e comente o filme também na Cinemaki.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *