Expresso Para Berlim: Thriller sombrio faz importantes considerações sobre a guerra


Um filme muito interessante, este “Expresso para Berlim”, que Jacques Tourneur fez em 1948, três anos após o final da Segunda Guerra Mundial. São impressionantes, apavorantes, as muitas tomadas feitas em Frankfurt e Berlim completamente em escombros após os bombardeios aliados.

É um thriller em tom sombrio, com pesado clima de film noir, um monte de considerações a respeito da guerra, um grande questionamento sobre a possibilidade – ou não – de a humanidade conseguir viver em harmonia, sem guerras, sem ódios. O clima noir é realçado pela fotografia impressionante de Lucien Ballard, em preto-e-branco; todo o filme é povoado por imagens aterrorizantes, mas de imensa beleza plástica

A ação começa em Paris, “a cidade mais bela do mundo”, como diz o filme. Um locutor com voz empostada narra a história, com um texto igualmente empostado.

Em um trem do exército americano que fará a viagem de Paris à Berlim dividida em quatro setores – o americano, o soviético, o inglês, o francês – embarcam personagens dessas quatro nacionalidades: o americano Robert (Robert Ryan), o francês Perrot (Charles Korvin), o russo Maxim (Roman Toporow), tenente do exército soviético, o inglês Sterling (Robert Coote).

Viajará também no trem para Berlim uma mulher um tanto misteriosa (interpretada por Merle Oberon), que fala com fluência alemão, francês e inglês; mais tarde veremos que se chama Lucienne.

No mesmo vagão desses cinco personagens estará também um homem muito importante; o exército americano o protege com o maior cuidado. Só depois de algum tempo o espectador fica sabendo que ele se chama Bernhardt (o papel de Paul Lukas), é um alemão que lutou na resistência contra Hitler e o nazismo, é respeitadíssimo, e tem planos para, com o apoio das quatro potências que ocupam a Alemanha, unificar o país.

Um pacifista, um pacificador, Bernhardt tem, por isso mesmo, inimigos ferozes, que pretendem assassiná-lo. Não é dito explicitamente quem são essas pessoas, a que organização pertencem, mas o que se depreende é que são nazistas que resistem a qualquer nova ordem a se instalar na Alemanha.

Uma bomba explodirá na cabine reservada a Bernhardt.

O momento em que os antigos aliados se dividem e começa uma nova guerra, a fria

Há uma clima de hostilidade ou, no mínimo, de desconfiança, entre os passageiros que representam cada uma das nações que ocupam a Alemanha derrotada. O oficial soviético a princípio não quer participar de uma ação ao lado dos demais. É uma metáfora muito clara, muito óbvia, da nova divisão que ia ficando cada vez mais clara entre os vencedores da guerra: de aliados na luta contra o nazismo, passam agora a ser adversários, inimigos – os países capitalistas de um lado, o império soviético do outro.

Por causa disso, o filme me fez lembrar muito de “Os Vitoriosos”, que Carl Foreman dirigiu a partir de seu próprio roteiro, em 1963; só vi “Os Vitoriosos” quando era adolescente, ainda em Belo Horizonte, e acho que não revi mais, mas o filme ficou firme na minha memória. Mostra os últimos momentos da guerra, pouco antes da queda de Berlim, e focaliza a entrada na Alemanha das forças americanas, inglesas e francesas, vindo do Oeste, e do Exército Vermelho, vindo do Leste. Uma briga de soldados americanos e russos, ao final, prenuncia a guerra fria que começaria logo em seguida.

Por causa das longas tomadas das cidades alemãs em ruínas – imagens terríveis, pavorosas, absurdas –, o filme faz lembrar também “A Mundana”, que Billy Wilder filmou também na Alemanha, naquele mesmo ano de 1948. São, obviamente, filmes muito diferentes um do outro, este aqui e A Mundana; o filme de Wilder tem um ingrediente de humor; está certo que é um humor amargo, sombrio, que vai travando cada vez mais à medida em que a ação avança. Mas é interessante notar que os dois foram feitos no mesmo ano, não em estúdio, mas em locação na Alemanha devastada pela guerra; os dois mostram o mercado negro, a miséria, a desolação absoluta.

O diretor de fotografia Lucien Ballard soube muito aproveitar a oportunidade de filmar in loco, em meio às ruínas de Frankfurt e Berlim. O visual do filme é de uma grande beleza – e, ao mesmo tempo, um aterrador grito contra o horror da guerra.

Um diretor mezzo francês, mezzo americano, que fez terror, thrillers e westerns


Jacques Tourneur é meio francês e meio americano. Nasceu em Paris, em 1904, filho do diretor Maurice Tourneur; o pai mudou-se para os Estados Unidos em 1914, quando, portanto, o filho era um garoto de dez anos; em 1919, tornou-se cidadão americano. Faria seus primeiros filmes, a partir de 1931, na França do período entre guerras, mas a partir de 1939, estabelecido de novo nos Estados Unidos, faria filmes americanos, voltando para a França apenas no final da vida.

“É com um ciclo de filmes de terror filmados para Val Lewton (‘Sangue de Pantera’, ‘A Morta-Viva’, ‘O Homem Leopardo’) que se tornará conhecido”, diz Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema – Os Diretores. “Filmes admiráveis de uma força tanto maior na medida em que o horror, ao invés de ser mostrado, era simplesmente sugerido.”

“Sangue de Pantera”, feito em 1942, seria refilmado em 1982, com o mesmo título original (no Brasil, chamou-se “A Marca da Pantera”), com uma deslumbrante Nastassja Kinski no papel que havia sido de Simone Simon. A refilmagem, feita pelo irregular Paul Schrader, jogou fora exatamente o que era forte na primeira versão, o horror que não era mostrado, e apenas sugerido.

“É necessário evitar reduzir Tourneur ao gênero fantástico”, escreve seu conterrâneo Jean Tulard. “Devemos a ele excelentes thrillers e brilhante westerns.”

Vi um dos westerns de Tourneur, “Paixão Selvagem”, de 1946. Na época, 2000, fiz uma anotação curtinha: “Um western sem tiros, com belos cenários, Hoagy Carmichael cantando canção dele próprio (que concorreu ao Oscar) e a beleza de Susan Hayward um tanto deslocada. São histórias de costumes, e um caso de amor que não chega a acontecer.”

“Berlin Express” foi o primeiro filme americano filmado dentro da Alemanha após o início da Segunda Guerra, em 1939, informa o livro The RKO Story.

A história é de Curt Siodmak, outro europeu que se estabeleceu em Hollywood e dirigiu belos filmes, muitos deles noirs. É simbólico, sintomático, que Siodmak tenha nascido em Dresden, tida como uma das cidades alemãs de maior beleza arquitetônica, e que foi devastada por bombardeios aliados.

EXPRESSO PARA BERLIM
(Berlin Express, EUA, 1948).
Direção: Jacques Tourneur.
Roteiro: Harold Medford, baseado em história de Curt Siodmak.
Elenco: Merle Oberon (Lucienne), Robert Ryan (Robert Lindley), Charles Korvin (Perrot), Paul Lukas (Dr. Bernhardt), Robert Coote (Sterling), Reinhold Schünzel (Walther), Roman Toporow (tenente Maxim Kiroshilov), Peter von Zerneck (Hans Schmidt).
Drama / Thriller / Noir.
87 minutos.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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