Fernanda Montenegro em Central do Brasil: Quase o Oscar

“27  de janeiro de 1996

Prezado Walter Salles,

Em nome do Sundance Institute, NHK, NHK Enterprises 21 Inc. e The Seiyu Ltd., queremos parabenizá-lo por ser o ganhador do Prêmio Cinema 100/Sundance Internacional para a América Latina.

Concebido pela NHK, este prêmio foi criado para homenagear os cinco cineastas que melhor representam a próxima geração de talento em seus países ao redor do mundo. (…) Esperamos que esse prêmio seja um calalisador para ajudá-lo a começar a produção do seu roteiro de ‘Central do Brasil’.

Novamente, parabéns; você está entre os visionários que formatarão a maneira pela qual enxergamos o mundo. Aguardamos ansiosamente a possibilidade de trabalhar juntos no próximo ano.

Atenciosamente,

Robert Redford”

…E assim nasceu  o triunfo do cinema nacional de 1998, “Central do Brasil”, a obra prima de Walter Salles, com uma magnífica interpretação de Fernanda Montenegro. Ela é Dora, que entre camelôs e todo o tipo de biscateiros, ganha a vida  escrevendo cartas para analfabetos endereçadas a seus familiares, no circo improvisado que é a gigante estação ferroviária da Central do Brasil.

A atriz brilhantemente modela a complexa personagem, apresentando de forma realista sua malandragem, cinismo e total falta de valores éticos e morais. Uma mulher de sessenta e poucos anos que mostra  na fisionomia como foi maltratada pela vida: cabelos despenteados, roupas desleixadas, mau humor, grosserias. Como se não bastasse, brinca de ser Deus ao decidir se envia ou não as cartas pelas quais é paga para escrever, desprezando os sentimentos das pessoas. A única amiga que tem, a otimista Irene (uma discreta e suave Marília Pêra) tenta  a todo custo despertar-lhe a consciência. Cada rosto que Dora vê à sua frente na estação revela a dura realidade de grande parte do povo brasileiro, que vive migrando em busca de um lugar ao sol. Um desses rostos é o de Ana, que um dia vem acompanhada do filho de nove anos, Josué (maravilhosamente interpretado por um menino que – reza a lenda – Walter Salles encontrou por acaso engraxando sapatos na estação, Vinícius de Oliveira), cujo sonho é conhecer o pai. Num golpe do destino, Ana é atropelada, morrendo tragicamente, e Dora acaba acolhendo o menino a contragosto. Uma pessoa extremamente amarga, ela primeiramente expõe o menino a um grande perigo, mas Irene a censura – “Dora, tudo tem um limite!” e, arrependida, propõe-se a ajudá-lo a encontrar o pai.

A viagem que os dois fazem pelo Brasil agreste é uma mini-odisséia que perfeitamente representa um país em busca de suas raízes. São pelos extraordinários olhos de Fernanda que somos levados ao mundo íntimo dessa mulher e embarcamos juntos nessa viagem no interior de sua alma. Cada vez mais tocada pela convivência com o menino, ela vai se redescobrindo e assim despertam sentimentos adormecidos. Fernanda tem um grande momento quando recebe ajuda e ganha uma carona de um bondoso caminhoneiro (feito lindamente por Othon Bastos). Dirige-se a um espelho para passar batom, algo que provavelmente não fazia há tanto tempo. Uma nova desilusão a seguir a faz chorar. A fascinante jornada ao coração do Brasil faz  por fim uma longa parada em nossos corações quando o antagonismo da dupla  dá lugar a uma sólida relação de amor verdadeiro, simbolizado em vários momentos emocionantes e antológicos. Em um deles, Dora se deita com a cabeça repousando no colo de Josué, que lhe acaricia; em outra sequência, o menino compra um vestido para ela e diz que ela vai ficar mais bonita com ele. Também são inesquecíveis a subida dos dois num rochedo com vista para uma igrejinha da pequena cidade  e a cena em que os dois tiram um “retratinho” para colocar num pequeno binóculo de plástico, lembrancinha típica de santuários. Certamente, Fernanda imprime uma impressionante e extraordinária força em sua interpretação na impactante cena em que sua personagem reencontra a fé na romaria, que Salles dirige com  alucinante virtuosismo visual, culminando num desmaio.

Faz-se necessário ressaltar a excelência da música de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum, maravilhosa e marcante; o esplendor da fotografia de Walter Carvalho, que passa dos tons monocromáticos do início, para uma explosão de cores que ampliam  horizontes na segunda parte. As filmagens levaram nove semanas, com locações no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Ceará. Só a cena da romaria contou com setecentos figurantes. Tudo isso orquestrado com muita sensibilidade pela perfeita direção de Waltinho Salles.

Toda a parte final do filme é primorosa e o poético encontro de Josué com os dois irmãos, Isaías e Moisés (os sensíveis Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira) nos faz ficar com um nó na garganta. Fernanda Montenegro tem uma atuação majestosa que se faz valer da incrível expressividade de seu rosto luminoso, num silêncio total que diz absolutamente tudo. A grande atriz nos faz entender completamente a decisão de sua personagem sem precisar dizer uma palavra. O silêncio se quebra com  sua voz poderosa  sinalizando os minutos finais: Dora, desta vez, escreve uma carta dirigida a alguém querido, assim como ela fazia  para os desiludidos brasileiros no início do filme. Percebemos que ela finalmente conseguiu resgatar vitoriosamente o bonito ser humano que se escondia atrás de sua aparente indiferença. Ainda me lembro saindo do cinema muito emocionado, assim como grande parte do público.  Andando pelas ruas, ainda lembrando as últimas palavras ditas pela grande Fernanda, as lágrimas caíam como caem  agora, enquanto as escrevo, porque elas  refletem  algo que sempre sinto, em todos esses anos desde a estreia de “Central do Brasil”: “… tenho saudade do meu pai… tenho saudade de tudo…”

Bravo, Fernanda!

A consagração de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil 

Elogiadíssima pela crítica norte-americana, Fernanda tornou-se a primeira atriz brasileira a ser indicada ao Oscar (1999), e até hoje permanece a única. Um feito extraordinário. Ela só não ganhou porque o filme era estrangeiro, com legendas em inglês e naquele ano os irmãos Weinstein  (leia-se Miramax) investiram pesado no marketing de “Shakespeare Apaixonado”. A vencedora foi a mais fraca das indicadas, Gwyneth Paltrow, por esse filme. As outras atrizes, Meryl Streep, Cate Blanchett e Emily Watson estavam ótimas, mas Fernanda realmente superava todas. Nós, brasileiros, devemos considerar a indicação uma vitória! Esse grande momento  pode ser conferido no YouTube.

Quando me indago por que “Central do Brasil” perdeu o Oscar de melhor filme estrangeiro para “A Vida é Bela”, também muito bom, penso que o filme italiano tem sua história passada num campo de concentração, durante a segunda guerra mundial, um tema de grande importância para os membros da Academia. Também ajudou muito o filme italiano que, na cena final,  surge um tanque de guerra com a bandeira americana para salvar o garoto. A repercussão das indicações ao Oscar  rendeu à atriz um convite para o programa do David Letterman.  A grande Dama  encantou o apresentador e o público com sua simpatia  e bom humor, e isso pode ser conferido no vídeo do YouTube.

http://www.youtube.com/watch?v=0Kc67K_-e7M&feature=youtu.be

“Filmar esta bela história foi um ato gozoso e doloroso, obstinado, orgânico e absolutamente surpreendente na sua coragem e despudor de falar ao coração e só ao coração.”

Crítica

“Uma autêntica obra-prima! Mais filme, muito mais sério, melhor realizado (que ‘A Vida É Bela’) – Rubens Ewald Filho

“Belissimamente realizado e comovente!”  –  The New York Times (Janet Maslin)

“Arrebatador!” – Folha de São Paulo (Leon Cakoff)

“Um filme irradiante, de partir o coração!” –  Time Out New York

“Fernanda Montenegro está soberba. Um filme comovente e nunca sentimentalista.”  – Variety

“Ouro para o Brasil: o festival premiou a doce poesia de Central do Brasil.” –  Le Figaro

“Interpretação antológica de Fernanda Montenegro” – O Estado de São Paulo

“Central do Brasil é verdadeiramente memorável e emocionante, a arte cinematográfica no que ela tem de melhor!” – Hollywood Reporter

“Este filme merece o Urso de Ouro! Fernanda Montenegro, maravilhosa! Vinícius de Oliveira, que talento!” – Der Tagesspiegel

CENTRAL DO BRASIL
(Idem, Brasil,1998).
Direção: Walter Salles.
Roteiro: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, Walter Salles.
Elenco: Fernanda Montenegro, Marília Pera, Vinícius de Oliveira, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira, Otávio Augusto.
Drama.
113 minutos.

– Indicação ao Oscar: Filme em língua estrangeira, Atriz (Fernanda Montenegro).
– Crítica argentina: Filme estrangeiro.
– Festival de Berlim: Urso de Ouro, Prêmio ecumênico do júri, Atriz (Fernanda Montenegro).
– Globo de Ouro: Filme estrangeiro.
– Indicação ao Globo de Ouro: Atriz em filme dramático (Fernanda Montenegro).
– Festival de Havana: Prêmio Glauber Rocha, Prêmio especial do júri, Atriz (Fernanda Montenegro), Prêmio da Universidade de Havana, Menção Especial para atuação de uma criança (Vinícius de Oliveira).
– Crítica de Los Angeles: Atriz (Fernanda Montenegro).
– Associação Paulista dos Críticos de Arte: Filme, Diretor, Fotografia, Atriz (Fernanda Montenegro).

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Leia mais sobre e comente o filme também na Cinemaki.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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