Papo com o escritor e editor Ari Mascarenhas

Fotos: Acervo pessoal/Ari Mascarenhas

Sarau da Serra (Junho/2011)

Ari Silva Mascarenhas de Campos, ou Ari Mascarenhas, 33 anos, é editor do selo Mirfak, da editora Algol, de São Paulo, professor de Língua Portuguesa, especializado em estudos literários e mestrando na área de estudos comparados das literaturas de LP na  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo (FFLCH-USP). Tem no currículo o livro “Fruto Vermelho” e a participação na antologia “Contempoemidade”, a qual lançou em Santos. Depois, retornou à cidade para prestigiar o CineZen Literário. Além do talento e da experiência que traz, percebe-se a generosidade em sua maneira de atuar e se relacionar com os colegas. Participará, em 26 de novembro, na cidade, do CineZen Mercado Editorial: Necessidades das editoras e autores. O intuito do encontro será elucidar várias questões, como qual o processo que os escritores devem realizar para publicar, lançar e distribuir a obra de maneira satisfatória.

Em entrevista exclusiva ao CineZen, Ari falou sobre a Algol, o Mirfak, mercado editorial, e também narrou seus primeiros passos na literatura e gostos pessoais. É um papo imperdível para quem aprecia literatura e quer conhecer mais sobre esse universo no país. Assim como disse Márcio Callegaro em comentário publicado no site, é a chance de aprender, de graça, por algo que muitos autores precisam pagar, e muito, em universidades: descobrir os meandros do setor.

Quem não é autor, mas aprecia livros e música, eis outro prato cheio. Ari aproveitou para comentar o meio cultural em Santos e elogiou escritores da região, a exemplo de Vieira Vivo, Cláudia Brino e Sidney Sanctus, mais o livreiro José Luiz Tahan. E, surpresa: “Se me permites, André Azenha, pretendo em breve escrever uma análise das obras que li desses autores e publicá-las no mais novo espaço da literatura brasileira o site: CulturalMente Santista. O nível desses autores é muito bom e creio que, por isso, eles merecem uma análise mais detalhada de seus trabalhos”. Fique à vontade Ari, só temos a agradecer.

Abaixo, a conversa completa.

Como surgiu seu interesse pela escrita. Lembra quando publicou seu primeiro texto?
O meu interesse por literatura surgiu quando comecei a me interessar por histórias. Adorava ouvir minha avó e minha mãe contando os mitos que conheciam. Meu pai, Sr. Ary Mascarenhas, era um homem muito vivido e tinha muito que contar. Apesar de ter quatro irmãos sob o mesmo teto em minha infância, as brincadeiras prediletas sempre foram as que inventavam histórias. Então eu escrevia roteiros imaginários para os filmes, igualmente imaginários, que meus brinquedos participavam e me divertia meses seguidos com as séries produzidas. Lembro-me até de ter sonhado com alguns personagens. Personagens que até hoje vivem em minha mente: Capitão Sol, Robot, Tubarões, Dinâmicos, etc…

Gosto de contar essa passagem porque a imaginação da infância não é o princípio de uma esquizofrenia que os adultos insistem em combater, mas sim as verdadeiras manifestações criativas. Veja o Ziraldo, por exemplo, sua obra está toda focada nas releituras de suas fantasias lúdicas.

Quando começou a escrever, procurava se inspirar em alguém? Quais foram seus autores prediletos no começo?
Desde criança já escrevia algumas poesias e letras de música. Aliás, meu primeiro cordel foi aos 12 anos, sempre como exercício. Alguns desses escritos foram publicados em “Fruto Vermelho”, que nada mais é que uma trajetória poética da minha formação e minha percepção como espécie humana que vive em bandos. Em 1999 iniciei um romance, ainda não publicado, cujo nome é “EVOLUÇÃO”. Na ocasião, a prosa era o que mais me inspirava e, portanto, tudo o que desenvolvia no campo da escrita tinha como base minhas leituras de romances e contos. Meus autores prediletos eram os russos do século XIX, principalmente Alexander Pushkin e Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. Sempre li poesia, mas nunca tive coragem de escrever. E aí meu primeiro livro em 2008, “Fruto Vermelho”, é de poemas, uma verdadeira evolução para mim. Meu poeta predileto no colégio era Fernando Pessoa. Fiz oficina literária com o poeta Claudio Willer, importante expoente da cultura Beat no Brasil.

Conte sua trajetória até se envolver profissionalmente com a literatura.
Antes de qualquer coisa, é preciso falar que um dos grandes incentivadores, porque tive a felicidade de ter muitos, foi meu pai. Aos onze anos ele me deu uma caixa com livrinhos de Bang Bang, novelas que eram publicadas em pocket na década de 80. Aqueles livros apareceram para mim como um insulto, já que eu gostaria muito de ter ganhado uma bola de capotão, então decidi ler só pra provar a ele que eu poderia discutir sobre o enredo, único aspecto perceptível para mim na época, a altura com meu pai.

Outro dia das crianças, agora em 1990, meu irmão Sidney, considerado na época o atleta da casa, ganha luvas e tornozeleiras de jogador de futebol, e meu pai me entrega Cr$ 50.000,00, aproximadamente R$25,00 hoje (de acordo com a ultima cotação do Cruzeiro – URV 2750,00 – 1994). O que eu fiz com o dinheiro? Fui até uma livraria e comprei dois livros que marcaram a minha vida – são eles: “História de Pobres Amantes” – Vasco Patrolini  e “Eu, Claudius o Imperador” – Robert Graves. Tenho esses livros até hoje, e para mim são relíquias. Pois bem, ainda nessa época eu escrevia canções, fazia paródias e escrevia cordel, tudo de forma amadora; além disso gostava de escrever cartas de amor enormes, com diversas páginas, para as poucas namoradas que tive na adolescência.

Estudei no colégio modelo de Itapecerica da Serra, EEPSG João Baptista de Oliveira, que coincidentemente tem a mesma idade que eu. Ao sair do colégio não ingressei diretamente na Faculdade, pois como quase todos os adolescentes que encerram o ensino médio, tinha dúvidas do que queria fazer. Só fui me decidir aos 25 anos de idade. A decisão foi bem simples – Eu mais gosto de fazer? Ler. Pois bem, curso de Letras. Decidido.

Ari autografa no Roots Reggae Bar


E a atuação pela Algol, como foi? Como funciona sua atuação na editora?
A Algol editora surgiu por conta da paixão do empresário Heraldo Luiz Marin por música erudita. Meu irmão, Ciro da Silva Mascarenhas de Campos, funcionário do empresário desde 2004, me apresentou ao Heraldo para fazer revisão de texto como freelancer. Nessa época eu trabalhava na empresa Nextel, era monitor de atendimento e marketing, uma função que nada tinha a ver com meus estudos, mas que era necessária para mantê-los. Minha primeira revisão foi um desafio incrível, o livro se chamava “Arte do Piano”, do escritor Sylvio Lago, uma enciclopédia da história do piano, seus principais intérpretes e compositores. O desafio estava no fato de eu não conhecer nada de piano. Mas enfim, deu tudo certo. Depois vieram outros trabalhos até que, em 2008, ele me convidou para fazer parte da equipe, na área de marketing e revisão. Sabe como é, em editora pequena um único profissional desenvolve diversas funções. Fiz algumas seleções de textos, participava do conselho editorial e por fim surgiu o selo Mirfak. A Algol é também um selo de áudio e trabalha também com a produção, multiplicação e distribuição de CDs. Os investimentos não param por aí: a editora Algol é detentora dos direitos do Premio Carlos Gomes, o Oscar da música erudita brasileira, e possuí um conjunto musical próprio o Algol Ensemble. Resumidamente sou um selecionador de textos, revisor, editor do selo, responsável pelo contato com as livrarias e distribuidoras, divulgador e leitor da Algol.

A Algol começou como editora voltada ao mercado de música erudita. Como está esse mercado no Brasil e qual o retorno que a editora tem conseguido nesse tempo?
O mercado de música erudita, como quase todos os mercados, tem os seus prós e contras. O que está a favor desse segmento são os seguintes aspectos: Exclusividade na produção literária no Brasil, escolas de música sedentas por títulos em língua portuguesa, alteração da LDB (Lei de diretrizes e bases do ensino público) com a lei nº 11.769 que oficializa o ensino de música nas escolas, o crescente número de orquestras e artistas do gênero no Brasil e as divisões dentro das livrarias para o gênero musical.

Os contras são: Os excessos temporários de um determinado gênero praticado pela industria fonográfica nas rádios e programas televisivos, a força das grandes editoras (que geralmente trabalham com Best Sellers ou apelos midiáticos) nos espaços locados dentro das livrarias, o condicionamento do público leitor aos textos específicos apenas para fins de formação, e, na minha opinião, o principal é a elitização da música erudita. Você vai aos espetáculos de ópera e são sempre os mesmos. Os ingressos no Theatro São Pedro, normalmente custam R$ 20,00, mas  os espetáculos ocorrem em horários e dias cuja classe trabalhadora não pode comparecer. Ainda que digam que estou errado, penso que o interessa aí está em dificultar o acesso através do horário.

Quanto ao retorno, vou falar de acordo com o que me contam os colegas de todas as editoras que conheço. Nenhuma editora começa a lucrar com menos de cinco anos de existência. Ou seja, são 60 meses de investimento para começar a ver a praia. O que me leva a acreditar que o problema não é o ramo, mas sim o mercado editorial brasileiro. E isso se deve ao fato de investirmos pouco nos nossos artistas locais. Se gasta muito para publicar adaptações de Best Sellers estrangeiro, porque temos uma grande dificuldade de nos emanciparmos do mercado editorial mundial. A Algol nada contra a corrente nesse sentido também. Nossos autores, Lauro Machado Coelho, Sylvio Lago, Marco Aurélio Scarpinella, Niza de Castro Tank e nossos artistas Sônia Rubisnki, Carlos Moreno, Rodrigo Esteves, Fernando Portari, Márcia Guimarães, e outros, são todos brasileiros. Acho isso muito importante. Como podemos aspirar ao título de primeiro mundo se conservamos uma cultura de consumo tão colonial? No Brasil, Madona será sempre mais importante que Clara Nunes. E no campo da música clássica não é diferente. Entre os críticos desse gênero não dá pra se comparar Gilberto Mendes com Von Karajan. Isso mostra o quanto esses críticos são eurocêntricos e atrasados na percepção espacial. Com tudo isso a Algol ainda conseguiu lançar 35 títulos e já está na fase de conclusão do 6º e-book (uma fatia que ainda engatinha no Brasil), dentre os títulos se destacam a série de  biografias assinadas por Lauro Machado Coelho (“O Cigano Visionário: Vida e Obra de Franz Liszt”, “O menestrel de Deus: Vida e obra de Anton Bruckner”, “Sinfonia Fantástica: Vida e obra de Hector Berlioz”, “O cantor da Finlândia: Vida e Obra de Jean Sibelius” e “Nela vive a Alma do seu povo: Vida e obra de Bela Bartók”), Lauro Machado assina também os dois primeiros livros de Poesia que editora lançou – “Poesia Soviética” e “Anna, a voz da Rússia” (vida e Obra de Anna Akhmátova – incluindo um CD com declamações da própria Anna e em português por Beatriz Segall), “A Arte do Piano e Arte da Regência”, de Sylvio Lago, além de outros títulos  de João Luiz Sampaio, João Marcos Coelho, Roberto Duarte, entre outros. Acho que fugi do assunto (risos).

Como surgiu o selo Mirfak?
O Selo Mirfak surgiu da necessidade de entrarmos no mercado popular. O nosso diretor, Dr. Heraldo Luiz Marin, apesar de ser uma pessoa bastante esclarecida em literatura clássica, se mostra um pouco avesso às produções modernas em qualquer tipo de arte. Mas isso aqui é negócio, então nossos valores pessoais ficam de lado. Pois bem, ele autorizou a criação do selo, uma clara ramificação da editora para esse novo projeto mercadológico. Mas a discussão do selo só foi levada às instâncias decisivas quando estávamos discutindo o livro “Contempoemidade”. Esse selo abriu as portas para outras produções. A característica principal dele é o custo baixo. Trata-se de uma produção exclusivamente voltada para a distribuição em bancas, revistarias e livrarias menores; o que não impede de ser distribuído pelas grandes redes, como o que acontece atualmente. Poderia afirmar que Mirfak é nossa linha popular, onde os livros só podem alcançar um teto de preço de R$ 20,00. Mantemos a qualidade da produção Algol editora, mas com uma série de ajustes nos contratos e nos formatos das edições, conseguimos distribuir com custo baixo. Outro aspecto interessante do selo é que, pelo fato de ter um custo de produção bem menor que as produções tradicionais da editora, seu retorno é mais rápido permitindo assim novas impressões.

Muitos escritores que procuram gráficas e editoras, tem seus livros estocados em casa. Fazem mil exemplares e vendem 50, 100. Por que isso ocorre? Há ingenuidade por parte dos autores?
Eu não culpo os autores pelos seus insucessos, falta de reconhecimento e principalmente espaço no mercado. Defendo a ideia de que o mercado é ilusório. Não existe a tal liberdade de distribuição, acesso e divulgação que os neo-liberais insistem na tentativa de convencer as massas. E isso não é apenas no mercado editorial. Pensemos no ramo do atacado. Tente montar um mercado na rua de sua casa. Você estará fadado a ser um mercado pequeno, porque a tal liberdade comercial que o sistema divulga é engolida pelas gigantescas incorporações. Logo seu mercadinho vai fechar porque um grande abrirá uma loja descomunal na sua rua. As grandes redes estão falindo até as pequenas vendas do interior.

No caso do mercado editorial é a mesma coisa. Você nunca vai vender como um Paulo Coelho ou um Milton Hatoun, a não ser que feche um contrato com os grandes conglomerados editoriais. Se eu chamar um autor que fez mil livros e só vendeu 50 de ingênuo, então eu vou afirmar que Mario de Andrade, Plínio Marcos e João Antonio eram extremamente ingênuos. No caso do Plínio, que nos é mais próximo, todos sabem que ele vendia seus livros na praça Roosevelt de mão em mão. Quando ele foi ao programa do Jô, disse abertamente que estava sendo censurado pelo mercado. Plínio Marcos não era recusado pelas editoras porque escrevia polêmicas, Rubens Fonseca faz isso até hoje e sempre encontra editora. O caso de Plínio Marcos é que suas obras não tinham status de bom produto para o mercado.

Dessa forma defendo que o problema é muito maior. Não podemos nos julgar incapazes porque querem que nos julguemos assim. Estamos fazendo o jogo deles. Quando vejo uma Costelas Felinas publicando, fico muito feliz. O Vieira Vivo e a Cláudia Brino são transgressores dessa opressão mercadológica. Nadando contra a corrente, vão buscando seu espaço que só não é maior por uma questão de cultura mercadológica. Quando rompermos com os modelos literários imprimidos pelas grandes incorporações, daremos um grande passo para uma verdadeira realização cultural. Parece meio incoerente um funcionário de uma editora tradicionalista (em seu modelo de negócio) falar dessa maneira, mas aqui quem fala é o Ari, escritor, leitor e principalmente consumidor de livros. Agora, o Ari funcionário da editora, dentro dos princípios que defendo e expus acima, vai jogar conforme o jogo e procurar aos poucos encontrar um espaço no mercado atual. Mas toda vez que tivermos a oportunidade precisamos expressar nossa indignação. Ninguém vai parar de trabalhar por ser crítico ao sistema, vamos continuar na luta, mas que o capitalismo saiba que não estamos dopados. Não sei se respondi.

Qual o critério que uma editora adota para selecionar o que será ou não publicado? Conta mais o potencial comercial, a qualidade?
O potencial comercial sem dúvida. As editoras estão preocupadas com o que vende. Se você escreve um romance policial, elas pegam o seu texto, analisam o quanto há de comercial nele. Se houver um convencimento, ela prepara o produto e a sua divulgação. A qualidade está diretamente ligada às questões comerciais. Vamos pensar… O que é uma boa literatura? Dentro dos critérios acadêmicos,  é aquela cuja expressão estética e construção de imagem sejam ricas e ofereçam algum enigma linguístico para uso posterior. Isso, para o mercado, não serve. O que é uma literatura de qualidade para o mercado? É aquela que vende milhões, mesmo que não tenha nada para oferecer e esteja carregada de obviedades. O livro “Dois Irmãos” do Milton Hatoum, ganhou premio Jabuti, faz parte das listas de obras obrigatórias em muitas universidades, foi traduzido em mais de 10 países e a pergunta é: nos 11 anos, desde seu lançamento, o que vendeu mais: “Dois Irmãos” ou o “Crepúsculo”? Portanto, a qualidade não garante as vendas – o máximo onde você poderá chegar é ser bem quisto pela academia e ter seu livro nas universidades. Vale ressaltar que as principais universidades possuem suas próprias editoras e que os novos cânones, curiosamente, surgem sempre dessas publicações.

Quais os próximos lançamentos da Algol?
No prelo, só pra usar o antigo termo dos livreiros, estão os CDs “Mendelsohn”, da Pianista Sônia Rubinsky, o livro  “Una Voce Poco Fá”, do professor Sergio Casoy ( /incluindo 2 CDs), um livro ainda sem título com a biografia de Cássio M’ Boy, da professora Vera Mascarenhas, e mais alguns em discussão.

Quanto ao selo Mirfak, estamos estudando a publicação de uma coletânea dos poetas de Itapecerica da Serra (“Itapoesia”), de uma antologia de contos ainda em fase de discussão, do livro “Marraio, Feridô Sô Rei”, do autor carioca André Luiz Lacé, que também participou do projeto “Contempoemidade”.

E seus projetos pessoais? Pretende lançar algum livro ainda em 2011 ou para o ano que vem?
Pretendo lançar o meu primeiro romance, aquele que escrevo desde 1999, “Evolução”, pelo Selo Mirfak. No mais, ainda não posso me dedicar mais a essa tarefa porque hoje tenho os seguintes projetos: Oficina Literária no Instituto Arapoty, aos domingos; as atividades do Grupo de Poetas de Itapecerica da Serra (Itapoesia) que me receberam de braços abertos em maio desse ano, algumas aulas particulares que ministro, a editora e minha dissertação de mestrado.

Você esteve no CineZen Literário e lançou a antologia “Contempoemidade” em Santos. Também participará de um bate-papo em 26 de novembro. Como tem enxergado o meio cultural de Santos? Qual o nível das obras e autores que conheceu até agora?
Pra ser bem sincero eu não conhecia nada da cidade de Santos. Um pouco de Martins Fontes, Vicente de Carvalho na literatura e Gilberto Mendes na música. Até que em 2009 conheci o maestro Antonio Eduardo e fiquei encantado com seu trabalho. A partir daí, comecei a olhar para Santos com outros olhos. Ainda no ano de 2009 conheci o autor e dramaturgo Márcio Callegaro, com o qual tive muito orgulho de estudar junto e conhecer um pouco do seu trabalho. A surpresa com sua qualidade literária está descrita no posfácio do livro “Bala com Bala”, portanto, minha admiração por esse ser humano é pública e imensurável. Através dele conheci alguns autores de Santos e pude ter contato com a obra do Vieira Vivo, da Claudia Brito e do Sidney Sanctus, que também me causaram uma ótima impressão. Se me permites, André Azenha, pretendo em breve escrever uma análise das obras que li desses autores e publicá-las no mais novo espaço da literatura brasileira o site: CulturalMente Santista. O nível desses autores é muito bom e creio que, por isso, eles merecem uma análise mais detalhada de seus trabalhos. Devo fazer isso em dezembro. Adianto apenas que nunca fui apreciador da poesia erótica, mas que comecei a mudar meu conceito após ler um livro delicioso de Sidney Sanctus chamado “Musa Atômica”, o qual devo incluir nesses artigos de fim de ano. Contudo o que me deixou mais encantado, além da boa produção da baixada, foi a movimentação cultural promovida pelo CineZen, a clareza de Análise da jornalista Madeleine Alves e a experiência cultural do Sr. José Luiz Tahan. Apesar de muito jovem, o Tahan tem tanta história pra contar que 20 minutos de bate-papo com ele é como se tivéssemos lido uma enciclopédia literária.

Quais seus autores preferidos?
Lá vai a lista:

Prosa Universal: Dostoievski, Garcia Lorca, Philip K. Dick, Mia Couto e Saramago.

Prosa Nacional: João Antonio, Guimarães Rosa.

Poesia Universal: Natália Gorbaniévskaia, Leoníd Martýnovm e Fernando Pessoa.

Poesia Nacional: Cruz e Souza, João Cabral de Melo Neto e Claudio Willer.

Crítica Literária Universal: Walter Benjamin, Raymond Willians e Terry Eagleton.

Crítica Literária Nacional: Antonio Candido e Flora Sussekind.

Quais seus livros de cabeceira? E tem algum que tenha lhe surpreendido recentemente?
Livro de cabeceira – “Os Irmãos Karamazov” ( Dostoievski) e “Moby Dick” (Hermann Melville).

Livro que me surpreendeu recentemente de forma positiva – “Os condenados da Terra”, de Franz Fanon  e “Marraio Feridô Sô Rei”, de André Luiz Lacé Lopes, autor que tive a honra de trabalhar junto na antologia “Contempoemidade”, e “Predadores”, do autor angolano Pepetela.

Livro que me surpreendeu negativamente – “Em busca da Aurora do Mundo”, Érico Veríssimo e o “Planalto e a Estepe”, Pepetella. Aliás, esse é um autor angolano do qual gosto muito, seus livros anteriores são verdadeiras preciosidades, mas esse ultimo não me cativou.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Queria deixar o seguinte recado que foi a base para a criação de “Contempoemidade: Olhares sobre o espaço que nos cerca”, cuja proposta principal é apresentar exemplos de poetização do espaço prosaico, ou seja, que o leitor identifique no seu dia a dia as temáticas que podem se transformar em poesias e melhorar sua visão daquele espaço, sua relação e consequentemente sua experiência. O autor angolano Ondjaki, no lançamento do seu ultimo livro em São Paulo, sugeriu a mesma coisa, que apuremos os nossos olhares e busquemos a poesia, imanente de nossa sensibilidade, refletida em qualquer espaço. A poesia transforma as pessoas. Todo leitor é um autor. Leiam atentamente tudo e descobrirão que o espaço que nos cerca tem muito mais a dizer sobre nós mesmos do que dele próprio. Obrigado pela oportunidade. Gostaria de agradecer também ao Heraldo Luiz Marin, que me deu a oportunidade de publicar a coletânea e permitiu que eu pudesse mostrar minha poesia aos meus leitores. Muitos dos artistas que citei nessa entrevista o tem como um verdadeiro mecenas. E claro, não poderia deixar de agradecer a minha orientadora de mestrado a professora Vima Lia, cuja sensibilidade literária está acima das friezas acadêmicas tão comuns nesses espaços.

Contato do entrevistado: frutovermelho@gmail.com.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

14 thoughts on “Papo com o escritor e editor Ari Mascarenhas

  1. Parabéns pelo trabalho Ari Mascarenhas…Adorei conhecer um pouco da sua história!
    Tentarei ler seus livros assim que os comprar!

    Grande abraço!

  2. Rapaz, veja só, Ari Mascarenhas, temos em comum os dois autores brasileiros prediletos, os dois Joões. Ocorre o seguinte: foi com surpresa e alegria que vi a nota lá no Facebook sobre a entrevista, e vim correndo para cá, aliás, já perdi até o horário de um compromisso com amigos por causa dela. Não tinha jeito, tive de ler e reler com atenção, pois vale a pena. Eu gostaria de agradecer pela sua presença aqui na Baixada Santista, pois está jogando luz, clareando muito esse aspecto editorial para os autores da região. Fico feliz, também, em ver seus comentários sobre a qualidade dos autores da Baixada, qualidade essa que eu já havia lhe comentado que tinha. Recordo-me quando você foi sorteado com o “Musa Atômica”, do Sidney Sanctus, e eu lhe disse “Você vai adorar o livro, é muito bom”, e agora está citando este e outros autores santistas. O engraçado é que lhe passei a mania pelo João Antônio e já vi que você (em vingança) me retribuiu com outro autor maravilhoso, o Ondjaki. Quanto a você quanto autor e ser humano, não vou falar nada, senão parece babação de ovo. Parabéns ao André Azenha por mais uma excelente entrevista, e aguardamos o pessoal interessado no evento editorial no Ao Café, em novembro.

  3. Excelente o trabalho de Ari Mascarenhas. Um poeta-escritor com uma trajetória de aprendizado e sucesso. Sou suspeito para falar, pois ele agora pertence ao nosso grupo, o Itapoesia, citado na reportagem. Mas posso dizer que nós é que temos orgulho de tê-lo como membro do grupo e participante ativo das atividades. É alguém que faz a diferença, e tem conteúdo para distribuir entre os colegas, com a simplicidade que nem sempre marca os estudiosos, que tentam impor uma marca “acadêmica” aos demais. Muito boa a reportagem do CineZen Cultural. Ari Mascarenhas é isso. Nós, do Itapoesia, estamos torcendo pelo seu sucesso sempre crescente. Leitores e ouvintes, com certeza, têm muito a ganhar. Um grande abraço.

  4. Conheci o Ari Mascarenhas através do Marcio Callegaro e tive o prazer de estar no lançamento da antologia Contempoemidade aqui em Santos, na Livraria Realejo, onde ambos participaram. É excelente existir um editor que também é autor, nada melhor que a junção destas duas funções para abrir e alargar os caminhos para os novos escritores. Parabenizo o Ari por este trabalho árduo que é promover e editar a novíssima literatura brasileira, é de espíritos como o seu, empreendedor e visionário que a cultura nacional necessita, ela que está tão massacrada com inúmeras manifestações estrangeiras, alienígenas, uma boa parte de nível sofrível e de péssimo gosto. Fico muito grato pelas palavras elogiosas ao “Musa Atômica”. Tenho certeza que o próximo evento cultural na Ao Café sobre o mercado editorial literário, o qual contará com a sua presença, será de grande importância para a nossa região litorânea. Estarei prestigiando mais este evento criado pelo André Azenha e Cinezen Cultural, atualmente os grandes incentivadores e divulgadores da arte e cultura na Baixada Santista. Grande abraço.

  5. Obrigado pelas palavras Josias, nosso querido presidente. O Itapoesia não seria o que é, um grupo consciso, comprometido com a arte e autônomo se não fosse o empenho desse guerreiro que leva a pátria em seu nome. Um grande Amigo. O Itapoesia é para mim uma nova família.
    Quanto ao Márcio, também sou suspeito de falar. Um grande companheiro, pau pra toda obra, vai onde chamam pra divulgar o trabalho, falar de produção literária, recitar, bater papo, enfim, é um grande apaixonado pelo que faz. Então aproveito pra lhe fazer o convite, sr. Márcio Callegaro, sei das dificuldades de se morar em Santos, mas se puder venha ao nosso 8º Sarau da Serra, e conheça a força que a poesia tem nessa cidade graças a esses guerreiros Itapoetas.
    E, Maria Cristina, fiquei muito contente com seu comentário. Estou sempre à disposição. Vale lembrar que dia 28/11 estaremos em Santos para o Cinezen Literário e dia 19/11 para o lançamento do livro Bala com Bala do genial Márcio Callegaro.
    Ao André Azenha só tenho a dizer muito obrigado pelo espaço e por divulgar o nosso trabalho. Um forte abraço querido e até breve.

  6. Prezado Ari,
    Queremos agradecer suas palavras elogiosas ao nosso trabalho editorial e literário. Pessoas como você que conhecem os dois lados da moeda no mercado de livros nos aprimora, aperfeiçoa e incentiva em nossa árdua e prazeirosa tarefa literária. Parabens pela entrevista, foi um grande prazer conhecer mais sobre você. Admiramos muito seu trabalho. E parabéns ao Azenha por mais esse deleite em forma de entrevista.

  7. Ari,
    Conheço sua história mas quando a li tive a impressão de saber muito pouco sobre você.
    Pra mim você não é um grande artista, nem um grande poeta, nem um grande escritor, e penso que nunca será. Acho você um grande crítico, daqueles que não tem papa na língua, não medem suas palavras e ao mesmo tempo reconhece alguns exageros.
    Gosto do que você escreve, mas gosto muito mais de ouvir sua opiniões.
    Suas declarações norteiam-me naquilo que posso chamar de poesia. Escrevo sobre nós, sobre mim e minha vida. Em breve lançarei um novo livro e conto com você para escrever o prefácio dele.
    Beijos meu querido, dessa que aprendeu a te admirar no decorrer dos anos.
    Violeta Pandolfi

  8. Mascarenhas é meu professor nos encontros literários realizados no Instituto Arapoty. A leitura desta entrevista me possibilitou conhecê-lo mais. É um jovem brilhante, que muito contribuirá, com o seu trabalho, para a manutenção da boa fama das letras brasileiras.

  9. Muito se aprende com alguem como o Ari. Ele, cedo ou tarde conquistaria cada vez mais espaco no meio literario. Consegue argumentar de maneira apaixonante, eu disse apaixonante? Nao, eu quiz na verdade dizer intrigante. Eh, isso. Conclui! Arizinho tem muitos predicados. Eu disse Arizinho? Nao, eu quiz na verdade dizer Ari.

  10. Ari, fico muito feliz em acompanhar sua tragetória intelectual e verificar como seu potencial vai-se revelando como ato concreto, forte, maduro… Admiro sua postura crítica, aliada ao senso de humor, sem o qual a vida se torna muito maçante. Sem dúvida, nesta entrevista você descortina para o leitor, o lado oculto da lua literária, o que torna possível a fruição da literatura – a sua publicação. Livro na gaveta não acrescenta nada ao acervo cultural da humanidade. Livros só valem, quando às mancheias, levam o povo a pensar…como dizia o nosso Castro Alves. Assim, abençoados os que publicam, os que vão na esteira de Gutenberg, buscando a perenidade das ideias, só possível quando passam a viver no seu refúgio de papel. Benditos os que reproduzem histórias que encantam, e fascinando ensinam que a maior beleza do mundo está na diferença de culturas, de credos, de crenças, de raças, de tradições, reveladas pelas páginas de um livro…. Inquietadores de almas são os poetas, produtores de universos feitos de palavras são os contistas e romancistas… Mas, sobretudo, alavancadores do progresso e da cultura são os editores. Parabéns a todos vocês que tornam concreta essa matéria tão volátil e tão tênue: a matéria dos sonhos de ver em letra de forma, para todos lerem, a ínfima ou grandiosa contribuição para o acervo do ser humano: um momento de magia ou de reflexão! Um grito de desabafo! Uma exortação para a luta! Um cântico à vida! Uma prece pela paz! Beijos com carinho..

  11. Quero agradecer as palavras de todos até aqui. Dr. Luis Eduardo é uma imensa honra trabalhar contigo em nossa oficina. Joana, obrigado pelas palavras ( um pouco exageradas é claro)kkk, Violeta, a rainha do exagero e também a minha maior crítica. Andaremos juntos para todo o sempre querida. Claudia Brino e Vieira Vivo vocês são os verdadeiros mecenas da literatura na atualidade santista. E, Vera Mascarenhas ( minha querida Tia), suas palavras enaltecem a arte literária e seus produtores, agradeço do fundo do meu coração por suas palavras e quero dizer, a todos os leitores, que você é um exemplo a seguir. Seus conhecimentos e sua sensibilidade são verdadeiros tesouros para mim, seu sobrinho e seu eterno aprendiz. Muito obrigado. E viva a literatura!

  12. Conheço o Ari há 11 anos, lembro do dia em que ele teve uma epilepsia no meu banheiro, eu e minha esposa Gilberta corremos para o hospital, foi muito emocionante.

  13. Caro Leonardo,
    de verdade, não me lembro desse fato. Acho que você se enganou com a pessoa.

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