A Ilha das Flores de Jorge Furtado

O gaúcho Jorge Furtado atualmente é figurinha carimbada e respeitada do cinema nacional. Dirigiu a escreveu dois dos filmes mais divertidos e inteligentes da nossa produção cinematográfica recente: “O Homem que Copiava” (2003) e “Saneamento Básico, O Filme” (2008), sem contar seus textos para séries de tevê consagradas como “Cidade dos Homens” e “Antônia”. Mas para chegar onde está, precisou ralar. E bastante. No início dos anos 80, foi repórter da TV Educativa, em seu estado natal, fez o programa semanal “Quizumba”, que misturava ficção e documentário, e dirigiu o Museu de Comunicação Social de Porto Alegre. Já havia codirigido um curta, é verdade, “Temporal”, de 1984. Porém, foi a partir de 1986 que botou toda a experiência em prática, ganhou respeito da crítica e projeção internacional.Dois curtas pavimentaram o caminho: “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” (1986) e “Barbosa” (1988). Entre eles, em 1987, Furtado fundou a Casa de Cinema da capital gaúcha, onde atua até hoje. E a consagração veio com o seminal “Ilha das Flores”, filme de 1989 onde a lógica capitalista é criticada e ironizada em 13 minutos. Presenciamos a jornada de um tomate na sociedade, desde a plantação do Sr. Suzuki, passando por uma casa de classe média até chegar ao lixão da tal ilha do título. O documentário, narrado por ninguém menos que Paulo José, intercala imagens reais com ilustrações toscas, em ritmo alucinante, para encerrar deixando o espectador com um nó na garganta. Afinal, o tomate e outras sobras de comida do lixão são consumidos primeiro por porcos, para depois serem aproveitados por seres humanos pobres.

Premiadíssimo no Festival de Gramado do mesmo ano, “Ilha das Flores” levou, em 1990, o Urso de Prata de Melhor Curta no Festival de Berlim. Segundo o cineasta, o trabalho teve inspiração na obra literária de Kurt Vonnegut e na filmografia de Alain Resnais. Mais que isso, consegue ser atemporal e internacional, sem perder a personalidade brasileira – e no Brasil não encontramos pessoas e situações de todas as partes do planeta? Em 1995, foi eleito pela crítica europeia como um dos 100 curtas-metragens mais importantes do século passado. E entrou na lista dos “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, em resenha de Jaime Biaggio, que escreveu: “O tom de bizarria divertida prepara o terreno com perfeição para a puxada de tapete do final, quando o humanismo do filme se revela”. http://www.youtube.com/watch?v=9_AxOTYvaBY&feature=youtu.be

Com o sucesso, a partir de 1990 Furtado virou roteirista da Globo, ligado ao núcleo de Guel Arraes, com quem dividiu direção e roteiro de inúmeras minisséries e especiais. O resto é história… Seu êxito, no entanto, pode ser compreendido como um mix de talento, claro, insistência e gratidão, fator preponderante no meio. O cineasta repetiu ao longo da carreira várias parcerias em diferentes projetos. Paulo José, por exemplo, narrou também “Saneamento Básico”, quase vinte anos depois de “Ilha das Flores”.

Jorge Furtado

ILHA DAS FLORES
(Idem, Brasil, 1989).
Direção e roteiro: Jorge Furtado.
Elenco: Luciane Azevedo, Júlia Barth, Ciça Reckziegel, Takehiro Suzuki, Paulo José (narração).
Documentário de curta-metragem.
13 minutos.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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