Sem Destino: O preço da “liberdade”


Um dos expoentes da contracultura dos anos 60, “Easy Rider” mexeu com os padrões sociais da época, mostrando coisas até então desconhecidas no cinema.

“Easy Rider”, ou simplesmente “Sem Destino”, narra a história de dois motoqueiros rumo ao carnaval de New Orleans, em busca de liberdade plena (se é que ela existe) e que saem à esmo, traficando para bancar/comprar sua “liberdade”.

Os motoqueiros apelidados de Capitão América (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) sintetizam os anseios da juventude da época, que buscava uma alternativa para se viver, um novo mundo, com novos conceitos, novos padrões, diferentes dos determinados pelo sistema capitalista.

“Sem Destino” não é somente uma apologia à contracultura dos anos 60. É um clássico porque questionou princípios da sociedade capitalista que vigora em nossas vidas.

Retrato de sua época, “Sem Destino” foi um dos pioneiros ao utilizar como trilha sonora grandes clássicos do rock como Steppenwolf e Bob Dylan.

Nessa viagem (nos sentidos literal e figurado) os motoqueiros passam por ícones americanos, emergem em comunidades alternativas e também se deparam com cidadãos, que representam tudo aquilo que eles estão fugindo.

Presos, conhecem o advogado George (Jack Nicholson), que os ajuda a sair da prisão. George ingressa na viagem dos motoqueiros. O personagem de Nicholson, advogado de origem rica, representa os valores questionados pela contracultura. O desejo dos jovens de se libertarem dos valores sociais. “Os mais velhos nos traíram, a América nos traiu”.

Fonda e Hopper subvertem a sociedade ao terem o desejo de saírem livres pelo mundo, sem patrão, sem ter que pagar imposto, sem compromisso… apenas curtindo o mundo, livre se sistemas, de dogmas, de verdades criadas pelo homem.

A contradição que realça a tensão liberdade x sistema é representada no fato de que eles, para conquistar a sonhada liberdade, têm de juntar grana traficando drogas. A liberdade, para eles, é algo a ser comprado como um produto do mercado capitalista.

A liberdade, nesse mundo, além de ser relativa é ofensiva. O homem está mais preso do que imagina, mesmo longe dos cárceres. Como disseram os produtores: “A liberdade na América tornou-se uma prostituta e todos estão se aproveitando dela”.

O final de “Sem Destino” reafirma o modo como a sociedade, repleta de “valores”, manifesta-se frente a qualquer tentativa de um modo alternativo de vida.

Curiosidades: “Sem Destino” foi produzido com apenas US$ 24 mil e, somente em sua primeira exibição rendeu US$ 40 milhões. O título “Easy Rider” é uma gíria do sul dos EUA para identificar coronel, o gigolô, o homem que vive com uma prostituta.

SEM DESTINO
(Easy Rider, 1969, EUA).
Direção: Dennis Hopper.
Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern.
Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Antonio Mendoza, Jack Nicholson, Phil Spector.
96 min.

Indicação ao Oscar: Roteiro, Ator coadjuvante (Jack Nicholson).
– Festival de Cannes: Melhor estreia (Dennis Hoper).
– Concorreu à Palma de Ouro em Cannes.
– Crítica de Nova York: Ator coadjuvante (Jack Nicholson).

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Leia mais sobre e comente o filme também na Cinemaki.

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *