Rodrigo Santoro em Bicho de Sete Cabeças: Filme completa 10 anos

Natural de Petrópolis, Rodrigo Junqueira dos Reis nasceu em 22 de agosto de 1975, e cursou a Oficina de Atores da Rede Globo. Estreou nessa emissora com o nome artístico de Rodrigo Santoro na novela “Olho no Olho” (1993) e, depois, disso sua carreira decolou vertiginosamente em âmbito internacional, tornando-se o primeiro brasileiro depois de Sonia Braga a ter sucesso em Hollywood. Com inúmeros trabalhos na telinha, destacou-se nas novelas “Explode Coração” (1995), “O Amor Está no Ar” (1997), “Suave Veneno” (1999), “Estrela Guia” (2001), “Mulheres Apaixonadas” (2003) e brilhou nas minisséries “Hilda Furacão” (1998), formando antológico par romântico com Ana Paula Arósio, ao lado de Matheus Nachtergaele e o grande Paulo Autran; “Hoje É Dia de Maria” (2005); e “Afinal, o que Querem as Mulheres?” (2010), sendo que sua fama tornou-se ainda maior no estrangeiro, com sua participação na cultuada “Lost” (2007) e num glamuroso comercial com Nicole Kidman para o perfume Chanel.

A filmografia  do ator mostra em quantidade e qualidade o potencial de seu talento e popularidade. De 1996 a 2011 são impressionantes 27 filmes no Brasil e nos EUA: “Abril Despedaçado” (2002), de Walter Salles – um belo, difícil e elogiado trabalho de interpretação como o rude Tonho; “Carandiru” (2003), de Hector Babenco, uma corajosa escolha,  no inesperado papel do travesti Lady Di ; “As Panteras Detonando”(2003), de McG;  “Simplesmente Amor” (2003), encantadora comédia romântica  de Richard Curtis; o divertido e muito bem realizado “A Dona da História” (2004), de Daniel Filho; a superprodução  “300”, de Zack Snyder, que lhe valeu uma indicação ao MTV Movie Awards (2007) como o melhor vilão do ano – Xerxes; “Não Por Acaso” (2007), de de Philippe Barcinski;  “Os Desafinados” (2008), de Walter Lima Jr.; o polêmico “O Golpista do Ano”(2009), de Glenn Ficarra,  ao lado de Jim Carrey; e a  adorável  animação “Rio” (2011),  mega sucesso de Carlos Saldanha.

Mas se na TV “Hilda Furacão” lhe ampliou os horizontes, foi sob as talentosas mãos de Laís Bodanzky – nessa sua premiadíssima estreia como diretora – que Rodrigo Santoro tornou-se a estrela de cinema e celebridade internacional que reconhecidamente é hoje. Baseado na autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno (que concedeu emocionante entrevista a Jô Soares no seu talk show), “Bicho de Sete Cabeças” conta a história de um jovem (Neto, magistralmente vivido por Rodrigo), cujo pai (Othon Bastos) o interna num manicômio após achar um cigarro de maconha em suas roupas. Com roteiro preciso e enxuto de Luiz Bolognesi, esposo da cineasta, o filme denuncia os abusos físicos e emocionais dos hospitais psiquiátricos em 80 minutos de emoções avassaladoras, onde o ator encarna com perfeição o personagem que enfrenta tamanhos suplícios. Tamanha foi a repercussão do longa no país, que o Congresso Nacional aprovou uma lei proibindo a construção desse tipo de instituição.

Num mini flashback, a processo de criação do filme por Laís foi a grande força motora que a levou adiante destemidamente em busca de soluções para questões nada fáceis, a começar pelo tema, um verdadeiro tabu, algo que as pessoas se sentem incomodadas só de pensar, falar a respeito, quanto mais ver. A talentosa diretora leu o livro em 1996 e contou com Bolognesi para adaptar a história e trazê-la dos anos 70 para os dias atuais. Ela literalmente se jogou de cabeça no projeto, conforme declarou na estreia do celebrado longa: “Era como se pudesse ouvir um grande grito que o autor dava para  o mundo, um alerta para a triste realidade manicomial brasileira. (…) Achava que, assim como eu, muita gente desconhecia o que acontecia atrás dos muros dessas instituições, mantendo esse desumano tratamento invisível à sociedade. Foi esse fogo aceso que iluminou toda a caminhada de anos para realizar o filme”.

O roteiro imediatamente fisgou Rodrigo, Cássia Kiss e Othon Bastos, que interpretaram magnificamente seus personagens e tiveram seus desempenhos coroados com diversos prêmios, juntamente com Laís. “Bicho de Sete Cabeças foi o representante do Brasil na pré-seleção do Oscar para filme estrangeiro em 2002. Exibido em diversos festivais, foi aclamado em todos, nacionais e internacionais: Festival de Recife, Festival de Brasília, 54º Festival de Locarno (Suíça), Festival da Alemanha, Festival do Canadá e ainda eleito o melhor filme no 10º Festival de Cinema e Cultura Latino Americana de Biarritz e no Festival de Creteil (França). No 1º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, foi premiado como melhor filme, pela melhor direção (Laís), ator (Santoro), ator coadjuvante (Othon).

Rodrigo Santoro teve todas as portas abertas e convites chovem até hoje. Infelizmente, ele foi injustamente criticado no Brasil por suas primeiras participações em filmes estrangeiros, discretas e com poucos diálogos. A lendária e icônica correspondente em Hollywood, a querida e saudosa Dulce Damasceno de Brito, saiu em defesa dos  atores brasileiros com carreira internacional: “Quando vejo ironias rudes sobre as atividades de Sonia Braga e Rodrigo Santoro nas produções americanas, fico injuriada. Afinal, não é fácil fazer carreira em Hollywood, principalmente para os brasileiros. Sonia, desde 1986, construiu lá uma filmografia com cerca de quarenta títulos, entre longas e produções para a TV. Algumas lhe valeram indicações para os prêmios Emmy e Globo de Ouro. Santoro, em pouco tempo, já atuou ao lado de celebridades como Drew Barrymore, Laura Linney e Helen Mirren. O Xerxes de 300 vai longe. A luta deles me lembra (…) da vitoriosa Carmen Miranda”. Na época do lançamento de “Bicho de Sete Cabeças”, ainda  sob uma chuva de elogios e prêmios, o ator disparou com espontaneidade e bom humor no talk show de Marília Gabriela no GNT: “Nunca havia sido premiado em nada antes, nem em bingo!”. Mas parece que muitos  outros prêmios ainda aguardam o incansável, talentoso e versátil Santoro,  pois em  breve o veremos novamente na telona em “Heleno”, de José Henrique Fonseca; “Meus Pais”, de André Ristum; “The Blind Bastard Club”, de Ash Baron-Cohen; “Falling Slowly”, de Chris Sparling e “Hemingway & Gellhorn”, de Philip Kauffman. Nada mal para quem foi reprovado num teste para a minissérie da Rede Globo, “Sex Appeal”,no ano de 1993…

BICHO DE SETE CABEÇAS
(Idem, Brasil, 2011).
Direção: Laís Bodansky.
Roteiro: Luiz Bolognesi, baseado em livro de Austregésilo Carrano.
Elenco: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Caco Ciocler, Jairo Mattos, Altair Lima, Gero Camilo.
Drama.
74 minutos.

– Festival de Brasília: Filme, Diretor, Fotografia, Ator (Rodrigo Santoro), Ator coadjuvante (Gero Camilo).
– Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: Filme, Roteiro, Diretor, Montagem, Ator (Rodrigo Santoro), Trilha sonora, Ator coadjuvante (Othon Bastos).
– Associação Paulista dos Críticos de Arte: Filme, Roteiro, Diretor, Ator (Rodrigo Santoro).

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

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Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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