X-Men: Primeira Classe é forte retrato da busca por aceitação

Banshee, Eric/Magneto, Raven/Mística, Moira, Henry/Fera, Charles Xavier e Destrutor

“X-Men: Primeira Classe” é um filme que entretém, emociona, faz refletir, envolve o espectador como poucos do gênero e até do cinema em âmbito geral produzido atualmente. Se os fãs de quadrinhos – sempre exigentes – estavam receosos, podem dormir sossegados. Apesar das mudanças feitas em relação à origem dos personagens nos gibis, a essência da mitologia está lá: a busca por aceitação, o retrato de como o ser humano lida com algo diferente, geralmente com preconceito, medo.

Os mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, e aperfeiçoados ao longo dos anos por Len Wein, Chris Claremont, entre outros autores importantes das HQs, são os índios na época do descobrimento, os negros durante a escravidão, os judeus perseguidos pelo nazismo, os homossexuais marginalizados em tantas épocas. Formam uma minoria incompreendida por grande parte da humanidade.


Professor Charles Xavier, líder dos X-Men, e Magneto, seu nêmesis, seriam retratos de Martin Luther King, que acreditava na convivência pacífica entre negros e brancos, e Malcolm X, adepto do combate para estabelecer sua raça.

“X-Men: Primeira Classe”, apenas levemente baseado nas primeiras aventuras dos heróis publicadas nos anos 60, e na série de gibis homônima de Jeff Parker e Roger Cruz, lançada em 2006 e 2007, narra o primeiro encontro entre esses dois personagens fascinantes e como os acontecimentos seguintes os levam a tomar caminhos opostos, mostrados na excelente trilogia de 2000, 2003 e 2006. É um filme de começo. Mais ou menos o que “Batman Begins” foi para a franquia do homem morcego. Com a diferença de que os roteiristas precisaram encaixar as peças da história – Christopher Nolan reiniciou do zero a trajetória do Batman na sétima arte. Seria algo como George Lucas realizou na segunda trilogia “Star Wars”. Só que o resultado de “Primeira Classe” é muito, muito superior.

Agora, são James McAvoy e Michael Fassbender quem vivem Professor X e Magneto. Ou melhor, apenas Charles Xavier e Eric Lehnsherr. A trama inicia igual ao primeiro “X-Men”, de 2000. Segunda Guerra, 1944. O jovem Eric vê seus pais serem levados pelos nazistas. A cena repete o que vimos no início do longa de 11 anos atrás. Depois, o rapaz é capturado por Sebastian Shaw (Kevin Bacon), quem mata sua mãe. Enquanto isso, conhecemos Charles Xavier, de infância boa, garoto tranquilo, que bem novo conhece Raven, a futura Mística.

Corta para os anos 60. Período de Guerra Fria. Saem os nazistas e entram os comunistas, novos inimigos da América. Eric (Fassbender) segue sua vendetta contra Shaw. Xavier (McAvoy) é jovem mulherengo, sedutor, esperto, confiante, ainda não utiliza a cadeira de rodas, e realiza importante trabalho de pesquisa genética.

Em outro ponto da história, descobrimos que Shaw é mutante e comanda o Clube do Inferno, acompanhado por Emma Frost (January Jones), a Rainha Branca. Eles pretendem levar os Estados Unidos e a União Soviética à guerra. Ou seja, o conflito nuclear que poderia resultar na extinção da raça humana, deixando o planeta livre para a soberania mutante. A busca de Eric por vingança e a colaboração de Xavier com o governo norte-americano, visando evitar a batalha nuclear, resultam na reunião dos dois. No entanto, quando vêem que Shaw tem outros aliados mutantes, a dupla passa a procurar outros da espécie e formar um time para combater os oponentes em igualdade de condições.

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Apesar de escrito por várias pessoas, o roteiro surpreende. Faz a história progredir de forma inteligente, alternando drama, ação, romance. É coerente com o que foi feito nos três “X-Men” já lançados (fica a dúvida para Emma Frost, pois ela faz uma rápida aparição no filme solo do Wolverine). E constrói personagens complexos. Desde cedo apresentados como figuras extremamente diferentes, e que se completam, Charles e Eric despertam admiração igual no espectador. Torcemos pelos dois e os compreendemos da mesma forma. A maneira como são retratados e os fatos que se sucedem nos fazem compreender todas as atitudes tomadas pelas duas figuras na trilogia anterior, quando os personagens, mais velhos, foram vividos magistralmente por Patrick Stewart e Ian McKellen.

Se os três filmes anteriores (vamos ignorar “X-Men Origens: Wolverine”, o único equívoco da saga mutante nas telonas) já demonstravam o caráter adulto e profundo da mitologia dos X-Men, equilibrando bem drama e ação, “X-Men: Primeira Classe” vai além. É mais maduro e mais divertido. Fato curioso para um filme que mostra a juventude dos personagens. Aí entra um pouco da influência dos “Batman” de Christopher Nolan: não ter medo de tentar criar uma obra cinematográfica sobre super-herói coerente, profunda, que possibilita várias leituras, mas nem por isso abre mão da diversão.

Para o êxito conta a excelente escolha do elenco, desde os protagonistas até os coadjuvantes. Todos têm seus momentos, exceto January Jones, que mantém sua cara de nada conhecida da série “Mad Men”. A única contribuição da “atriz” se dá para os tarados de plantão, que terão inspiração em sua lingerie branca.

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Destacam-se McAvoy  e Fassbender, que repetem a intensidade de suas atuações em trabalhos como “Desejo e Reparação”, do primeiro, e “Bastardos Inglórios”, do segundo. Jennifer Lawrence, que alçou o estrelato após a indicação merecida no Oscar por “Inverno da Alma”, é mulherão e sensibiliza a plateia ao encarnar alguém que precisa aprender a aceitar sua própria aparência. Ela é talentosa e vai longe. Kevin Bacon se diverte no papel de bandido, perfeito. E Nicholas Hoult, aquele que contracenou com Hugh Grant em “Um Grande Garoto”, também dá dramaticidade a Hank McCoy, o Fera.

Os efeitos visuais são maravilhosos, as cenas de ação espetaculares, assim como direção e arte e figurino – este remete diretamente aos uniformes dos heróis na década de 60 e consegue transpor para a telona as cores sem deixar os personagens ridículos. A trilha sonora composta por Henry Jackman, que trabalhou em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, colabora para o clima de tensão iminente. Jamais deixa o espectador sequer piscar os olhos. E Matthew Vaughn, de “Stardust” (2007) e o sensacional “Kick-Ass”, dirige firme toda a equipe. Fez o melhor filme de sua carreira até então.

O longa não é 100% perfeito. Fora a face blasé de January Jones, a maquiagem concebida para o Fera está aquém daquela de “X-Men – O Confronto Final”, e uma cena de intimidade envolvendo Mística e Magneto soa um tanto forçada.

Porém, o conjunto da obra deve ser celebrado. É raro exemplo de pré-sequencia que funciona e não é óbvia tal qual, por exemplo, o próprio “X-Men Origens: Wolverine”.

Nos anos 80, histórias em quadrinhos como O Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um e Watchmen levaram os gibis a um novo patamar: de arte que também poderia e deveria ser encarada com seriedade. No cinema, as produções baseadas nos quadrinhos sempre foram olhadas com desconfiança por parte de críticos, premiações, e tidas pelo público como mero entretenimento. A trilogia “X-Men” abriu o caminho, os “Batman” de Nolan sedimentaram o terreno e “X-Men: Primeira Classe” surge para comprovar que filmes de super-heróis podem ser tão profundos e complexos quanto os demais. E têm uma vantagem. Diferente de obras alternativas, restritas a determinado tipo de expectador, chegam embalados de blockbuster, levando ao grande público reflexão, discussão e chamando a atenção para temas importantes. Oficialmente os heróis saltaram das páginas e estão atuando na sociedade.

PS: Há duas pontas que divertirão os fãs. Uma, fácil de ser reconhecida, é de Wolverine (Hugh Jackman), que manda Xavier e Eric para aquele lugar. A outra, que só os mais atentos perceberão, envolve Rebecca Romijn-Stamos, a Mística da trilogia anterior.

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE
(X-Men: First Class, EUA, 2011).
Direção: Matthew Vaughn.
Roteiro: Bryan Singer, Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn.
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Rose Byrne, Jennifer Lawrence, Beth Goddard, Morgan Lily, Oliver Platt, Álex González, Jason Flemyng, Zoë Kravitz, January Jones, Nicholas Hoult, Caleb Landry Jones, Edi Gathegi, Corey Johnson, Lucas Till, Laurence Belcher, Bill Milner, Hugh Jackman, Rebecca Romijn-Stamos.
Ação / Drama / Fantasia.
132 minutos.

Estreia no Brasil: 03/06/2011.

Lançamento em DVD e Blu-ray: Setembro/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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