Atrás dos Prédios: Retrato sensível e pungente de uma realidade que precisa ser mostrada

Que o nível dos curtas da mostra Olhar Caiçara evoluiu em relação aos anos anteriores é inegável. Da atual leva, chama a atenção “Ilusionismo”, de Madeleine Alves, produção que eu conhecia e admiro. Nesta quinta-feira (15), tive o prazer de descobrir “Atrás dos Prédios”, retrato pungente dos moradores do antigo Caldeirão do Diabo, atual Vila Santa Casa, bairro inserido na Encruzilhada, cujos barracos sofrem com a chuva, a falta de estrutura. Sem contar o preconceito sofrido pelas pessoas do local.

O documentário, rodado em digital, impressiona por vários motivos. Não é apenas uma visão da miséria, tema que eventualmente gera críticas negativas de gente obtusa, alienada: aquele ser que reclama pelo cinema nacional“só mostrar pobreza e violência”. Quer morar na Suécia? Vai embora, cara pálida. Se quiser ficar aqui, levante a bunda da poltrona e faça alguma coisa. O diretor Djalmir dos Santos e equipe fizeram e conceberam uma obra redonda, acertaram em todas as escolhas, prestaram lindo serviço.

De maneira inteligente, utilizam cartazes de dois políticos da cidade para criticar o interesse demonstrado pelos engravatados apenas no período de eleição. Ao mostrarem o nome dos entrevistados, também nos fazem perceber a história de cada um deles, tão importante quanto a minha, a sua. Acertaram nos personagens e na montagem. Um dos homens mostrados no curta surge em cena de maneira engraçada, com uns trejeitos esquisitos, causando risadinhas do público. Logo em seguida, dá um depoimento de partir o coração. O corte e a mudança de tom é a forma de dizer: “não é para rir, idiota!”. E não é mesmo.

“Atrás dos Prédios” é aquele tipo de filme necessário, que precisa ser visto e divulgado. Emociona, indigna, solidariza e leva à tela uma situação recorrente ao nosso país: o contraste entre a evolução tecnológica e a falta de estrutura de determinadas localidades, entre o crescimento econômico tão alardeado e a pobreza que os governantes e detentores do poder ignoram. Tal qual o Brasil, Santos é um lugar lindo, de gente do bem, cresce a passos largos. Porém, o crescimento beneficia apenas pequena parte da sociedade.

Precisamos de menos pretensão artística e mais sensibilidade no cinema, ou melhor, na cultura brasileira. Fica a torcida para que o curta vá longe e que seus responsáveis mantenham a pegada, a vontade. Talento, já possuem.

Confira o curta, dividido em duas partes no YouTube:

Parte 1

Parte 2

Para votar no curta, clique aqui.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

2 thoughts on “Atrás dos Prédios: Retrato sensível e pungente de uma realidade que precisa ser mostrada

  1. É um ótimo trabalho, o filme constata uma situação que precisa ser resolvida e é ao mesmo tempo uma cobrança ao poder público. Mostra a propaganda política afixada nas paredes pobres, decorando – e só – a vida dos moradores que, pelo visto, têm mais respeito uns pelos outros que essa gente metida a classe média que mora em bairros “nobres”. Se houve alguma influência de Eduardo Coutinho, foi muito boa e o diretor imprimiu seu estilo abordando o problema com categoria.

  2. Excelente trabalho realista, de cunho social, mostrando a vida de alguns moradores de uma comunidade pobre, uma favela encravada num trecho urbano da Cidade de Santos. O filme nos traz a crueza da vida e as ilusões que carregam os seres humanos, esperando pelo reconhecimento dos políticos, para as suas necessidades mais básicas. Neste trabalho, a equipe consegue mostrar a força da união e os seus resultados positivos, mesmo quando se está em situação de penúria e abandono social.
    Uma lição de vida para não ser esquecida, para ser imitada e multiplicada.

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