Thor: Marvel acerta novo passo rumo aos Vingadores

“Thor” chegou aos cinemas em 2011. Mas o filme começou na verdade ano passado, quando o martelo Mjölnir apareceu após os créditos finais de “Homem de Ferro 2”. É a estratégia da Marvel, hoje pertencente à Disney, em repetir nas telonas o que faz nos quadrinhos: ligar as trajetórias de diferentes personagens numa história maior. No caso dos filmes, com o objetivo de reuni-los em 2012, quando será lançado “Os Vingadores”.

Anthony Hopkins, à direita, é Odin

O maior desafio da nova produção era fazer a passagem natural das tramas focadas em ciência e tecnologia, de “Homem de Ferro” e “Hulk”, para o universo mágico de Asgard, reino habitado por imortais. O encarregado da missão foi Kenneth Branagh, cineasta acostumado a adaptar a obra de Shakespeare para o cinema e que encontrou na fábula do Deus do Trovão temas que o agradam nos livros do famoso escritor: drama, tragédia, irmãos rivais, traições, amores impossíveis.

Interpretado pelo australiano bombado Chris Hemsworth, o orgulhoso Thor desperta uma antiga guerra em Asgard. Seu pai, Odin (Anthony Hopkins), o envia a Terra como castigo por acabar com a paz local. Aqui, onde precisará aprender a ser humilde, conhece a enfermeira Jane Foster (Natalie Portman), que o encontra e por quem passa a nutrir forte ligação. Além de precisar descobrir como retornar ao seu reino, o herói deverá salvar nosso planeta quando este for invadido por uma criatura asgardiana.

Com o roteiro que passou pelas mãos de vários profissionais, o diretor passa no teste. A comparação com Shakespeare fica no resumo da história. Não há, de longe, a profundidade e a seriedade do Batman de Christopher Nolan, da rival DC Comics. Talvez uma leitura, que apenas os espíritas conseguirão enxergar no longa, é a Terra como local de recuperação espiritual. Ao ser enviado pra cá, o personagem perde os poderes, e só terá a chance de recuperá-los se melhorar como indivíduo. Na doutrina espírita, o planeta é considerado um mundo de provas e expiações, onde os espíritos devem quitar dívidas de outras encarnações e evoluir.

A quem deseja apenas diversão, ou se deparar com uma transposição correta dos quadrinhos, o filme entrega aquilo que o Marvel Studios tem realizado de forma competente: trama divertida, elenco coeso, muitos efeitos visuais e citações a outros heróis da editora: Jeremy Renner tem rápida aparição como Gavião Arqueiro, Bruce Banner, o Hulk, e Tony Stark, o Homem de Ferro, são citados e, depois dos créditos finais, surge uma figura conhecida dos demais longas do estúdio. O contraste entre Asgard e a Terra não ofende a inteligência do público. Na verdade, a explicação é bem simples: lá, ciência e magia são a mesma coisa.

Já o elenco faz o arroz com feijão. Chris Hemsworth, que nos trailers aparentava ser uma escolha equivocada para o papel, corresponde principalmente na fase arrogante de Thor; Anthony Hopkins é a persona ideal para encarnar Odin, lembrando um pouco sua participação em “A Lenda de Beowulf” (2007), no qual viveu um rei viking; e Natalie Portman surge mais contida. Ela tem aparecido em tantos trabalhos que a plateia pode estar cansada de vê-la. Se for bem agenciada, dará uma pausa para não ser mais superexposta do que já está. Os outros atores estão bem, em especial Tom Hiddleston, como Loki, o irmão que vira rival do protagonista e provavelmente o personagem mais complexo do enredo.

Por vezes engraçado, e com uma Asgard que não chega a surpreender visualmente (esperava-se mais com os US$ 150 milhões estimados do orçamento, segundo o IMDB), “Thor” entra para a categoria dos bons filmes baseados em super-heróis. Está aquém de muitos outros do gênero, mas cumpre à risca o plano da Marvel: com ele, ficamos ainda mais ansiosos para ver “Os Vingadores”. E para um fã compulsivo dos quadrinhos, isso vale bastante. Que venha o “Capitão América” em julho.

THOR
(Idem, EUA, 2011).
Direção: Kenneth Branagh.
Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Don Payne, J. Michael Straczynski, Mark Protosevich, baseados nos quadrinhos de Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby.
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Kat Dennings, Idris Elba, Clark Gregg, Rene Russo, Stellan Skarsgard, Jeremy Renner, Samuel L. Jackson.
Ação / Aventura / Fantasia.
114 minutos.

Estreia no Brasil: 29/04/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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