O homem do Futuro: não se muda o que já foi


Se você assistir o filme, vai me entender. Acabei de chegar do cinema e a primeira coisa que eu fiz foi escutar Legião Urbana. Estou ouvindo “Tempo Perdido” enquanto escrevo esse parágrafo. Bom, chega de nariz de cera. Provavelmente, você já deve ter pensando em voltar ao tempo e consertar algumas coisinhas. Eu mesma adoraria retornar e dar algumas dicas para meu eu do passado. “Já pensou quanto sofrimento nos pouparíamos?”, diria o Santo Cristo quando ele se perdeu. O opala metálico azul do Johnny não teria se estropeado num dos pegas na Asa Sul e, com certeza, Eduardo iria naquela festa estranha com gente esquisita. Para mim, seria uma maravilha se o meu eu do futuro chegasse com duas etiquetas com os seguintes dizeres: “gente boa” e “fdp” para colar nas fotos de conhecidos. Ou “vai dar certo” e “pula fora” todas as vezes que surgisse uma dúvida. Mas a realidade não é bem assim e temos, no final, que celebrar a estupidez humana e a nossa vaidade.

Nos primeiros minutos, achei que “O Homem do Futuro” seria uma versão à brasileira e engraçadinha do “Efeito Borboleta”. Até mesmo mais uma versão das “trocentas” existentes de “Carrie, a Estranha”. Um ser não-popular tem seus minutos de fama numa festa e depois é humilhado em público. Seu grande algoz é o alvo de sua paixão, que é o ser mais popular do colégio/faculdade. Não há nenhuma novidade nesse roteiro. Até mesmo na época que isso ainda não tinha nome e nem era objeto de estudo, esse tal famigerado bullying. Mas a grande sacada do filme é a moral da história e que me fez achar que valeu o tempo perdido assistindo-o.

A trilha sonora do filme é uma delícia. Cresci escutando Legião Urbana entre outras bandas de rock dos anos 80. Quando era criança decorava a letra sem entender o seu real significado. Mas foi preciso um grande amor platônico para entender na alma o refrão “quem inventou o amor me explica, por favor” e saber  valorizar um grande amor muito bem correspondido. Foi necessário enterrar alguém importante em minha vida para compreender que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Realizar um sonho para entender que “quem acredita sempre alcança”. O fato é que o misto de nossos valores, crenças e, principalmente, de experiências (boas e ruins) que forma quem somos hoje.

A primeira vez é sempre a última chance – Uma amiga escreveu no Facebook que estava admirada ao ver quanta coisa mudou na sua vida desde que foi demitida. A situação que parecia ser péssima trouxe a chance de realizar um sonho. Sofrer todo mundo sofre. Problemas a gente sempre terá. O que fazer com eles é o pulo do gato da vida. Quantas vezes escutamos de alguém mais velho: “Aí se eu tivesse meus 18 anos com a experiência de tenho hoje”. “Ora, seria um chato!”, diria a minha mãe. Concordo com ela. Tudo tem a sua idade e temos de aproveitar a vida de acordo com o nosso tempo.  Ainda gosto de andar de patins, mas dar volta em círculos na garagem de um prédio (como eu fazia quando era criança) seria, no mínimo, ridículo e até mesmo chato. “O mundo não vai parar só porque você está sofrendo”, nem sei se a minha mãe lembra que um dia me disse isso. Ela estava certa. Como também quando disse que “nem todo mundo que rir para mim, gosta de mim”.  Só que foi preciso encontrar um monte de gente com cara de anjo, mas falsa, para compreender essa frase. Nada como a experiência.

Minha mãe também dizia que iria sempre falar para a gente (meu irmão e eu) olhar os dois lados antes de atravessar. Porém, se a gente não seguisse esse conselho e fossemos atropelados. Ela iria ficar preocupada, mas, quem de fato, sentiria a dor dos ossos quebrados seríamos nós! Adoro essa analogia. Afinal, o que não aprendemos pelo amor (tese), aprendemos pela dor (experiência). Ainda sou da escola idealista de que todos são bons até que se prove o contrário. Mas algumas experiências de vida me fizeram repensar se não seria melhor ser uma realista e crer que o mundo é mau. Bom, discussões filosóficas à parte, já estamos acostumados que sonhos vem e vão, o resto é imperfeito.

http://www.youtube.com/watch?v=jmkCk5EmSG0&feature=youtu.be

Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo – O próprio tempo também se encarrega de nos ajudar a entender determinadas situações que, quando estávamos vivendo, não tínhamos o devido distanciamento para compreendê-las. Talvez esse seja o significado de amadurecer. Há um tempinho, o pai de uma amiga de infância me disse que uma coisa ruim nunca é necessariamente ruim. Na realidade, ela está nos protegendo de algo pior ou, ao menos, nos deixa mais fortalecidos e preparados para realizar um sonho.

Por via das dúvidas, se voltar ao tempo, lembre-se de avisar ao seu eu que 11 de setembro de 2001 não é uma boa data para visitar Nova York e, quem sabe, dê tempo para avisá-lo de comprar algumas ações do Google (e que não é uma marca de chiclete) enquanto forem baratas. Afinal, mesmo que você não tenha medo do escuro, deixe as luzes acesas! Lembre-se a vida continua e se entregar é uma bobagem (e voltar ao tempo também). Carpe diem.

P.S.: Espero que Renato Russo não tenha se revirado no caixão com esse texto.

P.S.2: Caro leitor, perdoe-me esse recurso literário infantil de usar trechos de músicas que ouvia enquanto escrevia esse artigo. Só para constar, terminei-o  escutando  “O Mundo Anda Tão Complicado (assista abaixo). Não se esqueça, viver é bom, mesmo sem máquina do tempo.

http://www.youtube.com/watch?v=ns7N7TooP0M&feature=youtu.be

O HOMEM DO FUTURO
(Idem, Brasil, 2011).
Direção e roteiro: Cláudio Torres.
Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luisa Mendonça, Gabriel Braga Nunes, Fernando Ceylão.
Comédia / Ficção científica / Romance.
103 minutos.

Estreia no Brasil: 02/09/2011.

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Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

3 thoughts on “O homem do Futuro: não se muda o que já foi

  1. Fiquei até com vontade de ver o filme! Lembrando que ele faz parte do “Brazilian Film Festival of London”, que começa amanhã! É o cinema Brasileiro fazendo sucesso!

  2. Tatiane,
    Parabéns, por seu brilhante comentário, nos despertando para esta nova realidade do “filme nacional”. Fiquei sua fã, acompanharei suas Críticas e assistirei ao filme.

  3. Gostei da sua resenha!
    Com tempo, consegui notar que este filme, assim como “Feitiço do Tempo” é muito mias profundo do que pretendia ser. Tem conceitos que fogem ao lugar comum.

    Do ponto de vista da realidade, quantas foram retratadas no filme? Duas, três, ou quatro? O que foi a causa ou o efeito? Ou eles são mesmo “entrelaçàdos”? Foram sempre assim?

    E a lição (ou uma delas) que aprendemos no filme? Que culpa o passado pelo resto da sua vida é “tempo perdido”. Que o maior crescimento pessoal que temos é quando aprendemos a valorizar o que realmente tem valor e quando aprendemos a conquistas nosso pontos fracos.

    O filme é genial, em muitos aspectos!

    🙂

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