A Informante relata escândalo que envolveu a ONU na Bósnia


Um grande filme, este “A Informante”. É, como ele mesmo se define de cara, inspirado em fatos reais – e aborda fatos reais chocantes, apavorantes que, até onde eu saiba, nunca haviam sido mostrados antes pelo cinema: o tráfico e a escravização de jovens mulheres na Bósnia, nos anos 1990, patrocinado e acobertado por membros das forças de paz da ONU.

O filme demora um pouquinho a chegar ao cerne da história pavorosa. Começa – sem crédito inicial algum – mostrando duas garotas jovens numa festa. Um letreiro nos avisa que estamos em Kiev, Ucrânia, em 1999. Uma das moças tenta convencer a amiga a topar uma aventura – o espectador não fica sabendo exatamente qual é, mas ela passa por um hotel, onde um homem as espera, e pode-se deduzir que a aventura será emigrar, sair do país em difícil reconstrução após o desmoronamento do império soviético. Pode-se até deduzir isso, porque sabemos que muitas belas jovens dos países europeus pós-comunismo tentaram esse caminho, mas nada é dito explicitamente.

O que a diretora Larysa Kondracki e seu co-roteirista Eilis Kirwan mostram é que a outra garota está um tanto temerosa. Chama-se Raya (é interpretada por Roxana Condurache, uma jovem de grande beleza, no que parece ter sido sua estreia no cinema). A mãe de Raya é uma mulher abnegada, temerosa pelos perigos que cercam os jovens adolescentes; quando a moça chega em casa já de madrugada, a mãe a confronta – e, ao discutir com ela, consegue o que muitos pais fazem: na ânsia de proteger os filhos adolescentes, acabam dando a eles o pretexto para escapar de sua vigilância. A rápida discussão com a mãe faz com que Raya se decida a procurar a amiga e aceitar a aventura.

De Kiev para o interiorzão do Nebraska

Essas sequências em Kiev são bem rápidas. Corta, e um letreiro anuncia que estamos em Lincoln, interiorzão do Nebraska, por sua vez interiorzão dos Estados Unidos, a tal América profunda. Ficaremos conhecendo Kathy Bolkovac (o papel da inglesa Rachel Weisz, linda e competente como sempre), uma jovem, mas já vivida e experiente policial.

O casamento de Kathy (bem mais tarde ficaremos sabendo que é seu segundo) acabou, e acabou mal. O ex-marido, já casado de novo, ficou com a guarda da filha, garotinha aí de uns 10, 12 anos. Kathy está tentando a transferência para a polícia da Geórgia, para onde o ex-marido está se mudando com a filha do casal, mas seu pedido é negado.

Um colega de Kathy, seu superior, sabe de seus problemas e quer ajudá-la. Sugere a ela uma experiência de seis meses no exterior, por um salário muitíssimo melhor que o dela; depois desse período, já bem folgada materialmente, ela poderia então se mudar para a cidade da filha e tentar recuperar sua guarda. Kathy se assusta com a quantidade de dólares que receberia, e pergunta ao chefe se é uma atividade legal.

Sim, é uma atividade legal: é inscrever-se para participar das tropas da ONU estacionadas na Bósnia-Herzegovina, tentando manter a paz e a ordem depois da sangrenta, atroz, louca guerra racial que varreu os Bálcãs após o fim da Iugoslávia.

Esse segundo segmento passado na pequena cidade do Nebraska também é bastante curto. Os roteiristas apresentam os fatos de maneira bem rápida, sucinta, deixando mais implícita do que propriamente explícita a situação pessoal e profissional de Kate, assim como havia mostrado a da jovem ucraniana Raya e de sua amiga.

Estamos aí com não mais do 15 minutos de filme quando um terceiro letreiro anuncia que agora a ação se passa em Sarajevo, na Bósnia.

Uma policial séria, honesta, dedicada ao trabalho, diante de crimes pavorosos

Kathy Bolkovac é uma pessoa séria, profundamente honesta e profundamente dedicada ao trabalho. Uma vez em Sarajevo, não vai demorar muito para se deparar com um panorama absolutamente cruel, desumano. Jovens vindas de diversos locais, mediante promessas mirabolantes, são escravizadas, obrigadas a se prostituir, submetidas a todos os tipos de violência. Os donos dos prostíbulos – em geral escondidos sob a fachada de bares – pagam propinas à polícia e aos soldados da força de paz da ONU para que seus negócios não sejam ameaçados. E policiais locais e os soldados vindos do estrangeiro fazem uso das garotas, numa ampla rede de corrupção, acobertamento e violência.

A própria Kathryn Bolkovac, cuja história é contada, foi consultora dos realizadores do filme. É a visão e a versão dela que o filme retrata.

Nisso, este belo, importante filme, se aproxima de outros feitos recentemente contando histórias de personagens reais tendo como pano de fundo fatos importantes da Grande História, como, por exemplo, “Jogo de Poder”, baseados nos livros autobiográficos do casal Valerie Plame e Joe Wilson, que deixam claro como a administração George W. Bush mentiu descaradamente para justificar a invasão do Iraque.

A aterrorizante experiência de Kathy Bolkovac, no entanto, é bem menos conhecida do que a mentira de Bush e sua quadrilha a respeito das armas de destruição de massa do ditador Saddam Hussein.

E é exatamente o fato de esses horrores na Bósnia pós fim da guerra serem pouco conhecidos que torna este filme imprescindível. É um belo filme, muitíssimo bem realizado; mas o tema que ele mostra ao mundo o torna, além de belo, fundamental, imprescindível.

A ONU terceirizou o trabalho para empresas privadas de segurança

Considero-me uma pessoa razoavelmente bem informada, mas não sabia (ou, se já soube, não me lembrava mais) que a ONU terceirizou para empresas privadas de segurança a manutenção das tropas de paz na Bósnia, no final dos anos 1990. A denúncia maior é contra uma dessas empresas – e, ao final da narrativa, antes dos créditos finais, uma legenda informa:

“O contratador privado que demitiu Kathryn Bolkovac continua a negociar com o governo dos Estados Unidos, incluindo contratos no valor de bilhões de dólares no Iraque e no Afeganistão.”

Assim, embora a denúncia principal seja contra uma empresa privada de segurança, uma gigantesca corporação, sobra muita lama para a própria ONU, assim como para o governo dos Estados Unidos.

É o tal negócio. Os crimes mostrados pelo filme – e há sequências horrorosas, apavorantes, de uma violência inimaginável – são daquele tipo de prova de que a humanidade é uma invenção que definitivamente não deu certo. No entanto, a existência de pessoas como Kathryn Bolkovac, e de filmes como este, indicam o contrário – que, afinal, pode ser que não seja uma invenção errada.

Um filme que tem que ser visto

Esse filme ousado, vigoroso, foi produzido com capital alemão e canadense. O site Box Office Mojo diz que não está disponível o custo do filme, mas não foi, certamente, uma produção barata.

Além de Rachel Weisz, uma estrela respeitável, que trafega com desenvoltura tanto por produções do cinemão comercial, como “Vigaristas”, quanto por filmes sérios, densos, como “O Jardineiro Fiel”, de Fernando Meirelles (pelo qual ela recebeu o Oscar de atriz coadjuvante), o elenco tem ainda Vanessa Redgrave, Monica Bellucci e David Strathairn.

A deusa Vanessa e Strathairn, grande ator de importantes filmes independentes, os dois sempre engajados em causas políticas, seguramente participaram do projeto mais por idealismo que por dinheiro. E não deve ter sido outro o motivo pelo qual Monica Bellucci aceitou o papel antipático, desagradável, de uma alta funcionária que é ou cega ou corrupta – ou os dois.

O Box Office Mojo diz que o filme, uma produção de 2010, estreou nos Estados Unidos em 5 de agosto de 2011, o que é fantástico, porque o DVD e o Blu-ray já estavam na locadora que frequento no dia 13 de agosto, uma semana exata depois da estréia americana.

É um filme que tem que ser visto.

A INFORMANTE
(The Whistleblower, Alemanha  / Canadá, 2010).
Direção: Larysa Kondracki.
Roteiro: arysa Kondracki e Eilis Kirwan.
Elenco: Rachel Weisz (Kathryn Bolkovac), Nikolaj Lie Kaas (Jan Van Der Velde), Roxana Condurache (Raya), Paula Schramm (Luba), David Strathairn (Peter Ward), Vanessa Redgrave (Madeleine Rees), Monica Bellucci (Laura Leviani).
Drama / Thriller.
112 minutos.

– Festival de Seattle: Melhor diretor.

Lançamento direto em DVD e Blu-ray: Agosto/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Leia mais sobre e comente o filme também na Cinemaki.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

7 thoughts on “A Informante relata escândalo que envolveu a ONU na Bósnia

  1. Esse sim, é um filme obrigatório. É preciso desmascarar essa pseudo-democracia americana de uma vez. A crítica está ótima, citando outras atrocidades americanas, como no Iraque etc.

  2. Oi Miro, concordo com você e o Sérgio. Esse é daqueles filmes que merecem e precisam ser vistos, como O Jardineiro Fiel, sobre testes de remédios não aprovados em seres humanos na África, O Senhor das Armas, sobre a indústria bélica, Syriana, sobre a indústria do petróleo, Nação Fast Food, sobre a podridão com que são feitos os sanduíches das principais redes fast food, Obrigado por Fumar, que aborda o lobby do tabaco, e assim por diante. Todos relatam atrocidades que envolvem diferentes segmentos e sempre mostram que há alguém levando a melhor em cima da sociedade. Queria ter escrito uma crítica de “A Informante”, mas não deu tempo. Falei do filme na minha coluna no Jornal da Orla. Abração

  3. O filme realmente é ótimo, também não me lembrava dessa história. A crueldade humana ultrapassa qualquer barreira.

  4. Prezados(as),

    Incrível este filme… mais uma denuncia da realidade nua e crua… do quanto ainda somos BÁRBAROS… quando já deveríamos ter progredido… e leva um pouco mais das nossas já minguadas ESPERANÇAS… quando retrata o acobertamento explícito de uma instituição UN que deveria estar ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA… chocante o argumento do alto comissário no final (e tudo indica que deve ser real mesmo)… Uma terrível constatação do que ocorre nos pequenos ‘olimpos’ desse mundo… onde mandatários quase sempre trocam o conteúdo (a missão e visão) pela forma (interesses corporativos patéticos… ).

    PARABÉNS aos produtores, ao diretor e aos atores… especialmente Rachel Weisz

  5. A informante. Tipo filme-documentário. Os vilões agem com se fossem normal praticar tais atos contra as jovens. O foco do filme é de tráfico de adolescentes para exploração sexual, na Bósnia; muitas vêm de países pobres, de famílias desestruturadas; iludidas em melhorar de vida… A ONU não agiu com rigor porque a denunciante foi a Londres, na sede da BBC, como personagem. Talvez por isso, a entidade não ofereceu importância ao fato… Falha da finalização do filme… Praticamente, ninguém foi punido. A agente perdeu o emprego… Há informações que a empresa Democra, na qual a personagem Kathryn trabalhava continua em ação em outros países. Quem sabe não esteja mais envolvida no crime de tráfico. A imprensa não diz… Interessante, que não houve manifestações dos Direitos Humanos da ONU, na Europa, e nos EUA a favor das meninas presas. Não houve a repercussão esperada… Vale assistir quem gosta de se informar sobre o que acontece no submundo do crime.

  6. O filme retrata amplamente a realidade da propaganda nazista que o governo americano aprendeu com os filmes daquele período horrendo da história humana. Tão realista quanto a quadrilha de Hitler, é o que ele aplica nos países considerados “perigosos” para sua política suja,não importando quantos inocentes eles irão matar. Por conta disso, o Iraque foi invadido, sua população submetida a torturas e o grande patrimônio de sua história milenar quase foi destruído. O filme em questão retrata também o descaso com as mulheres, especialmente aquelas que não são etnicamente interessantes para eles.

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