True Blood, a primeira temporada


A série “True Blood” parte de uma ideia absolutamente inteligente. A realização, no entanto, não saiu à altura da base da trama, na minha opinião. A primeira temporada, composta por 12 episódios, é irregular. Tem momentos muito bons, entremeados por outros bem fraquinhos.

A bela ideia a partir da qual se constrói a série é assim: um laboratório japonês criou sangue artificial. A intenção era a melhor possível – abastecer os bancos de sangue do mundo, para não haver falta nas necessidades hospitalares. Mas o produto ficou tão bom que os vampiros espalhados pelo mundo inteiro passaram a se alimentar dele. E, assim como os gays saíram do armário, vampiros de todas as partes do planeta resolveram sair do caixão.

O jogo de palavras, o sair do caixão, não é meu, é da própria série.

A partir da fórmula do laboratório japonês, as indústrias de bebida passaram a produzir sangue especialmente voltado para o emergente mercado vampiresco. Nos Estados Unidos, a marca Tru: Blood faz imenso sucesso. A comunidade vampira tem uma porta-voz, uma lobista, uma loura atraente e extremamente articulada, inteligente, que defende a causa com argumentos lúcidos. Basicamente, o que ela diz é que, agora que já podem se alimentar de sangue artificial comprado em qualquer bar ou supermercado, os vampiros não mais farão mal aos seres humanos; são trabalhadores, honestos, pagam seus impostos e querem ter seus direitos reconhecidos.

Assim como os gays, e tantas outras minorias, os vampiros querem o fim das discriminações. Querem ter os mesmos direitos que os brancos anglo-saxões protestantes, ou os afro-americanos, ou os nativo-americanos, ou os asiático-americanos.

A ideia de uma escritora do Mississippi, Charlaine Harris

Não dá para não admitir: é uma ideia brilhante. Ao longo dos episódios da primeira temporada de “True Blood” aparecem várias vezes referências a essa coisa de minoria exigindo seus direitos – e, naturalmente, a comparação com as lutas pelos direitos de outras minorias, em especial os gays, é óbvia.

E é uma deliciosa cutucada nos conservadores, uma bem humorada gozação dos racistas, homofóbicos, hemofóbicos…

A autora dessa ideia, dessa bela sacada, é uma senhora que tem a cara de uma típica dona de casa americana, chamada Charlaine Harris. Charlaine nasceu em Tunica, Mississippi, em 1951, e é uma escritora extremamente prolífica: já publicou cerca de 30 livros. Uma dezena deles é conhecida pelo título geral de “Sookie Stackhouse (Southern Vampire) Series”. É a base da série “True Blood”.

Foi uma belíssima sacada fazer uma série de TV a partir dessa ideia. Porque, afinal, há um encantamento universal pela mitologia em torno do vampirismo. O cinema e a literatura não param de produzir histórias a partir dessa mitologia – basta lembrar como milhões de adolescentes ao redor do mundo estão se encantando agora com essa saga “Crepúsculo”. Não li nenhum dos livros, nem vi os filmes, nem pretendo ver, mas a saga é mais uma prova do tremendo apelo do vampirismo.

E mesmo quem não gosta especialmente de filmes de terror, quem não é encantado pelo mitologia dos vampiros, tem motivos para se divertir com “True Blood”.

A protagonista, interpretada por Anna Paquin, tem o dom (ou a maldição) da telepatia

Bem. A partir dessa ideia maravilhosa de um mundo em que os vampiros convivem abertamente com os humanos, criou-se uma trama passada numa pequenina cidade da Louisiana, Sul Profundo dos Estados Unidos, chamada Bon Temps. Como é Louisiana, que teve colonização francesa, há muitos nomes de famílias franceses, De Beaufort, Bellefleur – e diversas referências à Guerra da Secessão, a guerra entre a União, os Estados do Norte, contra os Estados do Sul, os confederados. Aparentemente, para as pessoas do Sul Profundo a Guerra da Secessão foi ontem.

A personagem central é um belo achado: Sookie Stackhouse é uma garota aí de uns 20 e tantos anos que tem o dom da telepatia: ouve o que as pessoas ao redor dela pensam. Trabalha como garçonete em um bar, e tem que fazer um esforço danado para conseguir não ouvir o que todos os seus colegas e fregueses estão pensando.

http://www.youtube.com/watch?v=hE8wwYzKJOs&feature=youtu.be Trailer 

A escolha da atriz que faz Sookie foi outro achado. Anna Paquin, a garotinha de “O Piano”, de Jane Campion, de 1993, e de “Voando Para Casa”, de 1996, cresceu e apareceu. Tinha 26 anos e a longa experiência de uma veteraníssima em 2008, o ano em que a primeira temporada foi feita e estreou na TV americana. É uma jovem gostosa, bastante gostosa; tem um rosto extremamente expressivo, que, como o de muitos bons atores, é camaleônico, muda muito de uma sequência para outra. Há momentos em que é bela; em outros, é mais atraente, fascinante, de um charme muito particular, do que propriamente bonita.

Em quase todas as cenas em que aparece, Sookie-Anna Paquin está de sainha muito curta ou de short, com uma camiseta bem apertada para realçar os seios belos, fartos, ou então com decotes generosos.

“True Blood”, como quase tudo inspirado em vampiros, é uma mistura de sangue e sexo. Muito sangue, muito sexo.

A série exagera no sexo, e o trata com uma excitação ginasiana, à base de gritinhos

O criador da série de TV é Alan Ball, produtor, diretor e roteirista. Foi ele que criou a série “A Sete Palmos”. É também o autor do roteiro do premiado “Beleza Americana”, de Sam Mendes, de 1999 (cinco Oscars). Em 2007, foi o roteirista e diretor de um filme polêmico, “Tabu”. Escreveu o roteiro de alguns dos episódios desta primeira temporada e foi também o diretor de dois deles.

Quem viu “Beleza Americana” e “Tabu” saberá que Alan Ball é um sujeito chegado a uma provocação, uma polêmica. E gosta de cenas de sexo.

Sexo é um tema permanentemente presente em “True Blood”. É quase uma ideia fixa, uma obsessão. Não quero parecer moralista, e é óbvio que sexo é uma das melhores coisas da vida, mas acho que a série exagera. Beira o pornô. Trata o sexo com uma excitação ginasiana, cheia de gritinhos, que acaba ficando cansativa.

É bastante cansativo o personagem de Jason Stackhouse (Ryan Kwanten), o irmão mais jovem de Sookie. O rapaz tem a energia sexual de uns 200 Casanovas batidos no liquidificador. É inocente e bocó como uma porta. Nos dois primeiros episódios, está comendo uma moça chamada Maudette (Danielle Sapia), tarada como ele, e que já andou dando para um vampiro – no seu pescoço, há aquela tradicional marquinha das duas presas. Maudette tem o costume de gravar suas trepadas; gravará uma com Jason – e, pouco depois, aparecerá morta, estrangulada. O xerife e o detetive de Bon Temps vão prendê-lo como principal suspeito. Não será a única vez em que irá preso. Mais tarde, ele comerá outra moça, uma colega de sua irmã, garçonete no mesmo bar, que também aparecerá morta, estrangulada.

Boa parte da ação da primeira temporada (e imagino que também nas posteriores) se passa no bar em que Sookie trabalha. O bar pertence a Sam Merlotte (Sam Trammell), um sujeito que parece gente muito boa – mais tarde, ele vai parecer um tanto esquisito, suspeito, mas, nos primeiros episódios, parece um cara bem legal. É absolutamente apaixonado por Sookie, tadinho; Sookie gosta dele, mas está longe de sentir algo mais pelo patrão boa praça.

Na cozinha, trabalha um negro gay, gay nos dois sentidos, de homo e de alegre, cheio de vitalidade e versatilidade, Lafayette (Nelsan Ellis, um dos atores que conseguem se manter bem ao longo de toda a temporada). Acaba indo trabalhar lá, como garçonete, uma prima de Lafayette, Tara (Rutina Wesley), uma grande figura – rebelde, indomável, desajustada, amiga de infância de Sookie.

http://www.youtube.com/watch?v=UsyemJj7LzI&feature=youtu.be Trecho do primeiro episódio, “Strange Love” 

Na cidade de Bon Temps, não há ninguém que chegue perto de alguma normalidade

Lá pelas tantas, vai adentrar o bar de Sam Merlotte um vampiro que acaba de se estabelecer em Bon Temps, Bill Compton (Stephen Moyer). Sookie fica doidinha por ele no ato.

A sensação que se tem é de que não há ninguém que chegue perto de ser normal em Bon Temps – e o nome da cidade é de uma ironia discreta como um elefante. Só dá louco, esquisito, ninfomaníaca, obsessivo por sexo, assassino, idiota, vampiro, racista ou intolerante.

Uma das únicas pessoas mais, digamos assim, entre aspas, “normal”, é nossa heroína, Sookie, a que ouve o que as pessoas pensam e se apaixona pelo vampiro Bill. Sookie perdeu os pais bem jovem, e foi criada pela avó, Adele (Lois Smith), uma boa figura. Mas é uma pessoa centrada, na medida do possível, generosa, bom caráter.

Uma crítica social com muito humor

Há um gostoso tom de bom humor que perpassa todos os episódios desta primeira temporada. O clima não é de drama feio – muito ao contrário. Há algum suspense, há um clima de mistério, mas há, sobretudo, um bom humor, como se fosse uma brincadeira com crítica social, com a eterna divisão da sociedade americana (como de resto acontece na maioria dos países) entre os progressistas, os mais afeitos a admitir o que é diferente, e os conservadores, os que jamais aceitam o que não for exatamente igual a eles.

E há belas sequências. As sequências em que Sookie e o espectador ouvem o que as pessoas estão pensando são excelentes. As tomadas rápidas, aceleradas, como que acompanhando os passos largos dos vampiros, são muito bem feitas.

No entanto, com diversos diretores assinando os episódios, há uma evidente irregularidade. Há muita porcaria, ao longo dos 12 episódios. Não sou um defensor do politicamente correto – muito antes ao contrário –, mas me pareceu que muitas das sequências em que aparecem a deliciosa negra rebelde Tara e sua mãe, uma crente bêbada e perdida, ridicularizam aquelas pessoas.

A própria Anna Paquin, boa atriz, às vezes dá mostras de estar um tanto perdida – parece exagerada, quase caricatural. O personagem do irmão de Sookie, o tal Jason, esse é absolutamente caricatural.

E há ainda uma desvantagem em relação a outras boas séries de TV. Os episódios não contam uma história que se completa – ao contrário de, só para dar o exemplo de duas séries excelentes, “The Good Wife” e “Dexter”. É um novelão. O final de cada episódio é um chamariz para que se assista ao episódio seguinte.

Pior ainda: o 12º e último episódio da primeira temporada encerra parte de uma história – mas termina com grandes interrogações, como que obrigando o espectador a ver logo a segunda temporada para saber o que, afinal, estava acontecendo.

Ao contrário do que ocorreu com “The Good Wife” e “Dexter”, Mary e eu terminamos a primeira temporada sem qualquer vontade de ver logo em seguida a segunda. Talvez não vejamos nunca.

Nada importante, fundamental, marcante – mas uma boa diversão

Mas parece que é um grande sucesso de público. Esta primeira temporada, como já foi dito, é de 2008; a quarta temporada estava prevista para ir ao ar nos Estados Unidos a partir de junho de 2011.

Vi na internet que a série foi capa da Rolling Stone. A Rolling Stone, evidentemente, é muito mais importante que uma Entertainment Weekly ou uma People qualquer.

No quesito premiação, a série não teve sucesso acachapante: 12 prêmios e 40 outras indicações. Foram poucos os prêmios mais importantes, o Emmy e o Globo de Ouro. Anna Paquin ganhou como melhor atriz em série de TV, drama, em 2009, entre as quatro indicações para o Globo de Ouro em dois anos consecutivos. Para o Emmy, o Oscar da TV, a série teve diversas indicações em 2009 e 2010, mas não levou nada.

Em suma: “True Blood”, ou pelo menos a primeira temporada, é uma boa diversão. Nada importante, nada fundamental, nada marcante. Mas uma boa diversão – e que bela a ideia original, a de brincar com os valores da sociedade, cutucar os conservadores, rir de sua imbecilidade.

TRUE BLOOD – 1ª TEMPORADA
(True Blood, EUA, 2008).
Produção executiva: Alan Ball.
Direção: Alan Ball, Michael Lehmann, Scott Winant e outros.
Roteiro: Alan Ball, Charlaine Harris, Alexander Woo, Brian Buckner e outros, baseados nos livros de Charlaine Harris.
Elenco: Anna Paquin (Sookie Stackhouse), Stephen Moyer (Bill Compton), Sam Trammell (Sam Merlotte), Ryan Kwanten (Jason Stackhouse), Rutina Wesley (Tara Thornton), Chris Bauer (Andy Bellefleur), Nelsan Ellis (Lafayette Reynolds), Jim Parrack (Hoyt Fortenberry), Carrie Preston (Arlene Fowler), Lizzy Caplan (Amy Burley), William Sanderson (xerife Bud Dearborne), Alexander Skarsgård (Eric Northman), Kristin Bauer (Pam De Beaufort), Danielle Sapia (Maudette Pickens), Lois Smith (Adele Stackhouse).
Drama / Fantasia / Suspense.
641 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Globo de Ouro: Atriz em série dramática (Anna Paquin).
– Indicação ao Globo de Ouro: Série dramática.
– Emmy: Melhor elenco em série dramática.

Disponível em DVD e Blu-ray.

A primeira temporada da série integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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