Onde está a felicidade?

É desejo de todo homem… viver feliz,
mas quando se trata de ver claramente o
que torna a vida feliz,
eles tateiam em busca da luz;
de fato, uma medida da dificuldade de
atingir a vida feliz
é que, quanto maior a energia que um homem gasta empenhando-se por ela, mais dela se afasta
caso tenha errado em algum ponto do caminho…

Sêneca, “Sobre a vida feliz”


Se o objetivo dos realizadores do filme “Onde Está a Felicidade?” era que as pessoas saíssem mais alegres do cinema, conseguiram. Casal em crise e um monte de discussões sobre relacionamentos é um assunto bem recorrente em comédias românticas. Do mesmo modo essa busca pela “iluminação” virou uma obsessão da sociedade atual. O final do filme é previsível, mas as paisagens do caminho de Santiago de Compostela e, até mesmo, de São Paulo, valem a pena. Sem contar que é possível dar umas boas risadas. Confesso que fiquei tentada em colocar a mochila nas costas e sair caminhando. Afinal, é caminhando que se faz o caminho, não é mesmo? Mas será que caminhar sem rumo ou seguir o caminho que outra pessoa fez, o levará à felicidade? É inevitável não pensar na propaganda de um supermercado: o que faz você feliz? Aliás, será que eu consigo “adquirir” a felicidade? As revistas, comerciais e até alguns livros nos mostram o que temos de “adquirir” para sermos felizes. O estranho é que, após que a sensação de conquista, há outra coisa que temos de buscar para ser feliz. Até a espiritualidade virou uma mercadoria para adquirirmos essa tal felicidade.

Lembro-me que, quando fui à Machu Picchu, não senti nada demais. Sim, a cidade perdida dos incas é maravilhosa. Mas, numa Semana Santa, havia tantos turistas que parecia um passeio no Epcot Center, na Disneyworld.  Quando eu era criança, felicidade plena era sinônimo de festas de aniversário. Elas começaram a ser preparadas um mês antes quando eu escolhia o tema. Era maravilhoso ver meu pai transformando isopor, tinta e papéis em Smurfs, Mickey, Pato Donald e Ursinhos Carinhosos, como também, a minha mãe fazendo empadas, coxinhas e brigadeiros. Sentia-me importante preenchendo os convites com a minha caligrafia infantil, ajudando passar os bolinhos de queijo no ovo e na farinha de rosca. Imaginar a roupa que queria usar, explicá-la para a minha avó através de um desenho tosco para que ela pudesse costurá-la também fazia parte dessa “felicidade”. A festa já estava acontecendo dentro de mim quando eu ajudava os meus pais a embalarem as balas de coco para que se transformassem num gramado colorido na mesa de jantar. No dia, gostava de perder o fôlego enchendo as bexigas e, enfim, ver a mesa pronta. As primeiras fotos eram tiradas. No durante, ficava atenta aos papéis de presente que, depois de rasgados, deveriam ir para debaixo da cama para “chamar mais presentes”, como dizia o meu avô. Dias depois, eu esperava o filme ser revelado para relembrar os melhores momentos através das fotos. As festas eram perfeitas? Não. Às vezes, tinha uma criança chata que estragava alguma brincadeira. Ou até mesmo já presenciei uma discussão dos meus pais após os convidados terem ido embora. Mas nada disso importa na hora que o presente vira passado e só existe na memória e em fotos. Como o ciclo da vida não para. Aquela caixa de bolo cor-de-rosa que destacava uma feliz Moranguinho, dois meses depois se transformava em um retângulo cinza para dar lugar a um taciturno Batman que seria, naquele ano, o protagonista da festa de mais um ano de vida do meu irmão. Se eu tivesse tudo isso de novo, sentiria a felicidade plena? Não. A minha felicidade está em outras coisas. Acredito que a felicidade não é um lugar nem um objetivo, mas um estado de espírito. Eu sou feliz, mas não estou feliz o tempo todo. Para mim, a felicidade é um paradoxo.

http://www.youtube.com/watch?v=HdDT78S2zm4&feature=youtu.be

Você já se perguntou: “o que há de errado com a felicidade?”. Provavelmente, não. Parece até coisa de louco, afinal, há algo de errado na paz ou no amor? Já parou para pensar que o conceito de felicidade foi padronizado e somos obrigados a sermos felizes a todo preço para não ser um “loser”.  Essa obrigação leva à infelicidade porque não somos felizes como determina a “fórmula” padronizada. Nessa busca, há quem toma remédios, lê livros de auto-ajuda, faz terapia ou vai à academia, vai à igreja ou até mesmo vai meditar na Índia, fazer o caminho inca ou de Santiago de Compostela. Tudo isso é válido se for feito porque é algo que acreditamos, mas não porque alguém “padronizou” que ser feliz é isso. De uma maneira engraçada, esse filme água-com-açúcar me levou a esse questionamento: onde está a felicidade? Se você souber a resposta, não me conte. Prefiro descobrir por mim mesma.

Momento nerd:

Um trechinho de “A Arte da Vida”, de Zygmunt Bauman:

(…) Um dos efeitos mais seminais de se igualar a felicidade à compra de mercadorias que se espera que gerem felicidade é afastar a probabilidade de a busca da felicidade algum dia chegar ao fim. Essa busca nunca vai terminar ­- seu fim equivaleria ao fim da felicidade como tal. Não sendo possível atingir um estado seguro de felicidade, só a busca desse alvo teimosamente esquivo é que pode manter felizes (ainda que moderadamente) os corredores. Na pista que leva à felicidade, não existe linha de chegada. Os pretensos meios se transformam em fins: o único consolo disponível em relação ao caráter esquivo do sonhado e ambicionado “estado de felicidade” é permanecer no curso; enquanto se está na corrida, sem cair exausto nem receber um cartão vermelho, a esperança de uma vitória futura se mantém viva.


Alterando sutilmente o sonho da felicidade – da visão de uma vida plena e satisfatória para a busca dos meios considerados necessários para que uma vida assim seja alcançada -, os mercados fazem com que essa busca nunca possa terminar. Seus alvos substituem uns aos outros a uma velocidade estonteante. Os que nela estão empenhados (e, evidentemente, seus zelosos treinadores e guias) entendem plenamente que, se a busca alcançar seu propósito declarado, os alvos perseguidos têm que cair em desuso rapidamente, perder o brilho, a atração e o poder de sedução, ser abandonados e substituídos (muitas vezes seguidas) por outros alvos, “novos e aperfeiçoados”, destinados a sofrer destino semelhante. Imperceptivelmente, a visão da felicidade muda da antecipação da alegria pós-aquisição para o ato de compra que a precede – um ato transbordante de expectativa jubilosa; jubilosa de uma esperança ainda imaculada e intacta. (…)  (p. 19)
.

ONDE ESTÁ A FELICIDADE?
(Idem, Brasil / Espanha, 2011).
Direção: Carlos Alberto Riccelli.
Roteiro: Bruna Lombardi.
Elenco: Bruna Lombardi, Bruno Garcia, Marcello Airoldi, Marta Larralde.
Comédia romântica.
110 minutos.

Estreia no Brasil: 19/08/2011.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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