Andrea Pasquini fala sobre workshop em Santos, cinema e projetos

Foto: Acervo pessoal/Andrea Pasquini

O cinema documental no Brasil cresce a passos largos. Exemplo comprovado na produção cada vez mais consistente de obras relevantes, que alcançam prêmios em festivais  internacionais. Um dos nomes que se destaca entre os realizadores do gênero é Andrea Pasquini, 40, responsável por “Fiel”, sobre a queda do Corinthians para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e o processo que levou o time de volta à Série A. Em sua filmografia, também constam “A História Real”, “Sempre no Meu Coração” e “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, premiado no É Tudo Verdade 2003 e exibido na sede da ONU dois anos depois.

Quem deseja saber sobre documentários, como são criados e preparados, uma grande chance acontece a partir desta terça-feira, 23, até domingo, dia 28, sempre das 18h30 às 21h, no SESC Santos (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida). Durante esse período, a cineasta ministra a oficina Documentário. A inscrição é gratuita e pode ser feita pelo email workshop@institutoquero.org.br.

O CineZen aproveitou para bater um papo exclusivo com a diretora, que adiantou um pouco do que será apresentado ao longo do encontro, elogiou o audiovisual santista, falou sobre o cinema enquanto aprendizado, e adiantou seus próximos projetos, inclusive o primeiro longa de ficção. Confira:

O que os alunos terão a chance de aprender no workshop, em Santos?
No workshop, vamos discutir o gênero documentário e seus diversos modos de realização, abordando assuntos como o limite entre realidade e ficção e ética. Os alunos terão a oportunidade de assistir alguns filmes faróis dentro do gênero. Além disso, vamos conversar bastante sobre o processo de criação do documentário, desde o momento da ideia original até a preparação do projeto. E também vou apresentar alguns mecanismos existentes no Brasil para produção, como editais e concursos.

Hoje a cidade possui um grupo de audiovisual que se reúne para discutir melhorias para o setor na região. Qual dica você daria para quem pretende realizar filmes?
É bonito de ver como Santos tem se destacado na produção audiovisual. Eu sempre vi a cidade como um celeiro de grandes profissionais, já que trabalho com muitos santistas que vieram para São Paulo há bastante tempo. Hoje noto que Santos tem acolhido boa parte de seus profissionais e isso é ótimo!

Sobre a realização de filmes, penso que o principal, aquilo que realmente faz a diferença, é a necessidade absoluta de se contar uma história. Isso é o que nos move e o que dá fôlego para o que vier pela frente. Se essa história vai ser contada utilizando recursos de produção muito simples e baratos, ou se ela exige uma produção cuidadosa, isso também deve estar a serviço daquilo que se quer contar.

Você acredita que esse tipo de iniciativa (workshops, oficinas) é a melhor forma de levar o audiovisual a quem deseja aprender sobre? Ou o país possui um sistema de ensino no setor suficiente (universidades, no caso)?
Acho que as universidades brasileiras não dão conta da imensa demanda por formação na área do audiovisual. As particulares são muito caras, as públicas, em sua maioria, têm uma grade de horário que dificilmente permite que o aluno concilie um trabalho com os estudos e, além disso, as escolas estão quase sempre nas capitais. As oficinas e workshops são uma possibilidade real de formação na área audiovisual; embora, é claro, não tenham profundidade acadêmica e quase sempre estejam mais voltadas para a prática. Elas são uma ferramenta importante na formação do olhar e no fazer audiovisual.

Já ouvi que o Brasil é o país que faz os melhores documentários atualmente. Você concorda?
O documentário brasileiro ocupa um lugar de destaque na filmografia mundial. O Brasil tem grande tradição no gênero, já que desde o início da produção cinematográfica o documentário sempre esteve representado por grandes filmes. Não por acaso, os maiores prêmios obtidos pelo cinema nacional atualmente vêm dos filmes documentários premiados em importantes festivais internacionais.

Acredita que o gênero atualmente atinge de forma satisfatória a população? Haverá o dia em que o documentário será tão visto quanto os filmes de ficção?
A produção documental no Brasil é muito diversificada. Entre os realizadores encontramos jornalistas, cineastas, sociólogos e artistas plásticos, por exemplo. Essa natureza tão diversa já garante uma riqueza de olhares que resulta em filmes muito diferentes entre si, desde a linguagem até a forma de abordagem do tema. Um aspecto interessante é que mesmo os filmes com um viés mais jornalístico, tem investido muitas vezes em soluções de linguagem que não modificam o tom investigativo, mas acrescentam elementos visuais ou sensoriais que trabalham a favor do entendimento dos fatos mostrados no filme. Vivemos um ótimo momento criativo no documentário brasileiro. E o cinema documentário tem um público fiel e interessado, que frequenta as salas de cinema e festivais em busca de novos filmes. Se formos considerar o número de público por cópia, os documentários estão na frente de muitos filmes de ficção. O festival É Tudo Verdade é o maior formador desse público no Brasil e tem um expressivo crescimento de audiência a cada nova edição.

Além dos workshops, quais seus atuais projetos? Planeja filmes para o restante do ano ou 2012?
Estou trabalhando em alguns projetos simultaneamente: uma websérie, dois documentários e uma ficção. Para este ano deve sair a websérie “Espia Aí!”, que traz duas adolescentes curiosas sobre os mistérios do cotidiano, projeto premiado no edital de webséries da Prefeitura de São Paulo e o longa documentário “Criação”, sobre o processo criativo de importantes artistas. Em 2012 devo estrear o longa documentário “Notas sobre o Tempouma reflexão sobre a passagem do tempo a partir das histórias dos integrantes do Angra, a banda de heavy metal mais importante do Brasil. E rodar “O Novelo”, meu primeiro longa de ficção.

Fique à vontade para deixar um recado para os leitores do site.
Apesar da popularização do documentário, ainda é comum ouvir por aí: “ah, você faz documentário… e filme, você tem algum?” (risos). Então eu convido, especialmente aqueles que ainda têm medo de assistir a esses “filmes chatos”, para um mergulho nesse fascinante universo. Aposto que muitos voltarão sem fôlego! Um grande abraço e espero vê-los na Oficina.

Contato da cineasta: www.cinesolar.com.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

2 thoughts on “Andrea Pasquini fala sobre workshop em Santos, cinema e projetos

  1. Interessante essa matéria, o documentário muitas vezes chega a ser mais importante que o cinema ficcional. Esse pessoal preconceituoso existirá sempre, são os mesmos que chegavam à sessão da meia noite, inventada por Maurice Legeard no cine Roxy em 1967 e perguntavam se o filme era preto e branco e outras bobagens. O documentário sempre foi uma forma de registrar, denunciar, como fez Alberto Cavalcanti em tantos filmes, Peter Davis com “Corações e Mentes”, Eduardo Coutinho, Silvio Tendler com seu “Jango”, “Glauber, o filme – Labirinto do Brasil” (30 anos hoje daquele fatídico 22 de agosto de 1981) e outros. Que a Andrea siga “alvejando” quem merece. E que não dê bola pra torcida. Parabéns!

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