DVD e Blu-ray

Reencontrando a Felicidade mostra casal que tenta superar a perda do filho

Drama rendeu indicação ao Oscar para Nicole Kidman
Por Mayara Maluceli (17/08/2011) // Comente


O amor incondicional que o pai sente por seu filho só pode ser explicado e sentido por aqueles que criaram uma vida. Quando esse amor é traído pelo infortúnio destino, acaso ou fatalidade – ou seja lá o que isso for –, esse sentimento tão puro se torna algo sombrio e atormentador como é o luto, a saudade, o imperdoável. Um sentimento toma conta de outro: é isso que acontece quando se perde alguém.

“Reencontrando a Felicidade” é um bom filme a se tratar pela narrativa, mas não por aquilo que se tenta passar como foi pretendido neste prefácio. Sobre o título original do longa, vale explicar que “Rabbit Hole” é o termo utilizado para o túnel que levava Alice (No País das Maravilhas) para um universo paralelo. A metáfora usada por John Cameron Mitchell no filme, adaptado da peça teatral de David Lindsay-Abaire, é a da dimensão da dor.

O filme conta a história de um casal, Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart), que há oito meses perdeu o filho de apenas quatro anos. A depressão contida e a não superação do fato são o argumento da trama.

O tema delicado escolhido conduz o filme a optar entre dois universos cinematográficos: o caminho melodramático, como foi o caso de “Nas Profundezas do Mar Sem Fim” (1999), ou de um roteiro sutil e psicológico. Infelizmente, por ter escolhido a segunda opção, Mitchell leva o filme a um paradoxal contragosto.

A grande falha do longa é criar uma expectativa alta durante os créditos iniciais, muito bem elaborados repletos de simbologia, que não é atendida em sua segunda parte, tornando o filme apático. Apesar das gritarias entre o casal órfão do filho, o drama entra no ouvido como um ruído estridente em que nada é passado, potencializado pelas péssimas locações sonoras que são os cinemas nacionais.

Falhas técnicas das salas à parte, a obra também não consegue se estabelecer como um ótimo filme dramático em que explora a depressão e o luto. Até o figurino de Ann Roth incomoda, sempre relembrando “As Horas” (2002), em que se passava no começo do século XX. Nicole Kidman veste trapos.

No entanto, em uma única cena, “Reencontrando” se consagra à crítica de um “bom filme” ao atingir seu objetivo de sofrimento. No supermercado, Becca, aborrecida com o choro de uma criança, se aproxima de sua mãe e tenta convencê-la a realizar o desejo de seu filho: comprar um doce. A mãe, chateada com a atitude de Becca, responde em forma de desprezo: “você é mãe? Como eu imaginei, você não tem filho, mesmo”. Nesse momento, Becca não enxerga nada mais a não ser sua vontade de explodir. A atuação de Nicole Kidman nesta cena afirma por que tantos acreditam que a atriz é a força do filme.

De fato, Nicole Kidman estabelece sua volta ao cinema internacional com “Reencontrandoa Felicidade”. Nos últimos seis anos, a estrela australiana tem escolhido por filmes de bilheterias fracassadas e roteiros fracos, como “Austrália” (2008) e “Bewitched” (2005). No atual, representa a ausência em todos os sentidos, onde o incômodo pulsa na veia de sua testa.

Recusando enfrentar a dor, Becca é sugada pelo pessimismo e tenta transformá-lo frustradamente em conforto, almejando a felicidade do próximo, como a descoberta da gravidez de sua irmã.

Imagem de Amostra do You Tube

Outro ponto positivo é o roteiro de Lindsay-Abaire, que constrói uma narrativa reveladora. Aos poucos, o espectador descobre o que acontece entre o casal, como se procedeu a perda, como cada um enfrenta o luto, seus conflitos. Assim, a história se procede de uma maneira em que as cenas serão explicadas futuramente, e não previamente como ocorre em muitos casos.

Apesar da boa atuação de Kidman e da construção narrativa de Lindsay-Abaire, “Reencontrando a Felicidade” parece ter medo de arriscar e investir no sofrimento de uma perda cruel, diminuindo o impacto de seus conflitos que poderiam ser explorados sem cometer o erro do melodrama.

Mayara assina o blog http://maluceli.wordpress.com/.

REENCONTRANDO A FELICIDADE
(Rabbit Hole, EUA, 2010).
Direção: John Cameron Mitchell.
Roteiro: David Lindsay-Abaire.
Elenco: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Miles Teller, Dianne Wiest, Sandra Oh, Tammy Blanchard.
Drama.
91 minutos.

Principais prêmios e indicações:

- Indicação ao Oscar: Melhor atriz (Nicole Kidman).
- Indicação ao Globo de Ouro: Melhor atriz (Nicole Kidman).
- Indicação ao Independent Spirit Awards: Diretor, Ator (Aaron Eckhart), Atriz (Nicole Kidman), Roteiro.
- Indicação ao prêmio do Sindicato dos Atores (SAG): Melhor atriz (Nicole Kidman).

Estreia no Brasil: 06/05/2011.

Lançamento em DVD e Blu-ray: 17/08/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.  

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

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Mayara Maluceli é aspirante a ser uma “contadora de histórias”, desde um perfil sobre uma realizadora social no sertão brasileiro até as resenhas sobre a sétima arte hollywoodiana. Quando pequena, acompanhava os filmes da cabeça aos pés, e admirava os contos narrados por pessoas da vida comum no engenho de seu avô, no interior de Pernambuco. Acredita que o jornalismo se encontra nessas pequenas ruelas recheadas de roteiros cinematográficos da vida real. Contato: maluceli@gmail.com


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