Caminho da Liberdade: Belo épico pela sobrevivência


Há histórias que precisam ser filmadas. Ainda mais se envolvem luta pela sobrevivência em meio a guerra, a neve e o deserto. Não apenas pelo visual arrebatador que pode gerar na tela grande, mas por sua essência. Caso da jornada verídica do grupo que, em 1941, Segunda Guerra Mundial, escapou de uma prisão comunista na Sibéria, andou mais de quatro mil milhas, passou pelo Tibet e chegou à Índia. “Caminho da Liberdade” retrata essa jornada e marca o retorno à direção do australiano Peter Weir, que não filmava desde “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo” (2003).

O início pode enganar. Não é uma trama de prisão. O mote é a batalha para continuar vivo, quando o ser humano é levado ao limite, precisa enfrentar semelhantes, a natureza, tempestade de areia, animais ferozes, frio e calor intensos, a falta de água, comida e sentimentos.

Somos apresentados ao polonês Jusz (Jim Sturgess, de “Across The Universe”), preso quando a esposa, sob tortura, o entregou. É dele a ideia para a fuga. Com ele, partem um americano (Ed Harris), um bandido russo (Colin Farrell), um piadista, um chefe de doces que desenha e outro  polonês que não enxerga durante a noite. No meio do caminho, aparece uma garota também fugitiva (Saoirse Ronan), que se junta a eles.

Lindamente fotografado em locações na Índia, Bulgária e Marrocos, o longa transmite a sensação de isolamento que permeia o grupo. Tanto no frio da neve, como no calor do deserto, ambos avassaladores. A maquiagem, indicada ao Oscar, colabora para que a plateia acompanhe o sofrimento e o desgaste dos corpos ao longo da trajetória, tomados por feridas, cicatrizes, a pele desgastada.

Estranhamente, plateia e crítica dos EUA não embarcaram no projeto. Talvez por ser bastante longo. Ou por não utilizar recursos fáceis para atrair o espectador. Há quem espere que a jovem crie algum tipo de disputa entre os homens. Há quem argumentará que, numa situação limite como a deles, o ser humano se tornaria muito mais selvagem. Ou quem poderá ficar chocado com algumas cenas com animais.

O roteiro, adaptado do livro best-seller com as memórias de Slavomir Rawicz (houve contestação sobre de quem seriam as lembranças presentes na obra) tem alguns problemas. É difícil engolir a mudança de comportamento no personagem de Farrell, capaz de matar por causa de um olhar atravessado, e que depois vira alguém leal a Jusz. Se formos chatos, daria ainda para implicar com a presença da garota. Caso não estivesse na história, não faria diferença.

Mas aí entra a escolha do elenco. Todos os atores são talentosos. Ed Harris vive um sujeito cínico, que no fundo esconde uma grande angústia. E o olhar de Saoirse Ronan é hipnotizante. A atriz, alçada ao estrelato no maravilhoso “Desejo e Reparação”, não possui o padrão de beleza hollywoodiano, porém, sempre que surge em cena atrai nossa atenção com tamanha força, nos sensibilizando como poucos intérpretes conseguem.

E tem Peter Weir, cineasta que conduz o filme com mão de ferro. Sabe onde quer chegar e como fazer para emocionar o público. De ambição épica, “Caminho da Liberdade” evoca estilos e temas de outros trabalhos do diretor – “Sociedade dos Poetas Mortos”, “O Show de Truman”, o próprio “Mestre dos Mares”. Principalmente a capacidade humana em superar adversidades, de união nos momentos mais dolorosos. Independente de sua fidelidade aos fatos reais abordados, eis um filme que apresenta as diferentes facetas da humanidade aliando força e sensibilidade. Exemplo: a capacidade de perdoar. Assista até o final e confira.

CAMINHO DA LIBERDADE
(The Way Back, EUA, 2010).
Direção: Peter Weir.
Roteiro: Peter Weir e Keith R. Clarke, baseados no livro The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom, de Slavomir Rawicz.
Elenco: Jim Sturgess, Ed Harris, Colin Farrell, Dragos Bucur, Saoirse Ronan, Alexandru Potocean, Mark Strong.
Drama / Aventura.
133 minutos.

– Indicação ao Oscar: Maquiagem.
– Indicação ao prêmio da crítica de Londres: Melhor jovem intérprete britânica do ano (Saoirse Ronan).

Estreia no Brasil: 13/05/2011.

Lançamento em DVD e Blu-ray: 09 e 10/08/2011.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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