Tarde Demais: Olivia de Havilland tem uma das maiores atuações do cinema


Olivia de Havilland nos dá uma das mais brilhantes interpretações do cinema.

A atuação extraordinária da atriz foi o que mais me impressionou ao ver “Tarde Demais”, feito por William Wylerem 1949, com roteiro de Augustus Goetz e Ruth Goetz, adaptação da peça teatral da dupla, grande sucesso na Broadway, por sua vez baseada na novela Washington Square, de Henry James (1843-1916).

O filme é um baita melodromão, naquele estilo definido como clássico, ou então acadêmico, academicista.

Um baita melodramão, ambientado na classe alta da Nova York de meados do século XIX, ou seja, em torno de 1850. A protagonista, a herdeira do título original, Catherine – o papel de Olivia de Havilland –, é mostrada ao espectador como uma moça tímida, recatada, ingênua, pouco afeita à vida social, às conversas frívolas daquela Corte sem rei. Uma moça não propriamente bela, e que não sabe dançar as danças de salão – dois pecados mortais, ali.

O pai de Catherine, Austin Sloper (interpretado pelo inglês Ralph Richardson), é um médico muito rico, importante, rígido, cônscio até demais de sua riqueza e de sua importância na sociedade. Mora num palacete na Washington Square – daí o título do romance que deu origem à peça teatral e depois o filme –, bem no início da Quinta Avenida, símbolo óbvio de status social na cidade que se firmava como a grande metrópole americana.

O dr. Sloper é viúvo, e o espectador verá, bem rapidamente, que ele tem um orgulho imenso de sua falecida esposa, uma mulher que, tudo indica, era exatamente o oposto de Catherine, sua filha única. Uma linda, prendada dama da alta sociedade.

Aos olhos do dr. Sloper, Catherine é uma jovem sem graça, sem traquejo social, sem esperteza, sem inteligência, mesmo, sem qualquer talento para os salamaleques necessários à vida naquela Corte sem rei. Em conversa com a irmã viúva que está passando uns tempos no palacete da Washington Square, Lavinia Penniman (Miriam Hopkins), bem no início da narrativa, ele define sua filha com uma frase absurdamente cruel:

– “Uma criatura inteiramente medíocre e indefesa, sem nenhum porte.”

A frase define perfeitamente o próprio caráter, a escala de valores do pai: um homem dedicado às aparências.

Surge um rapaz bonito, elegante – mas sem fortuna

Como nos romances ingleses que descrevem os costumes dos ricos no Império Britânico nos séculos XVII e XIX, a alta sociedade de Nova York mostrada por William Wyler em Tarde Demais gira em torno das aparências, dos sinais exteriores de riqueza. O sentido da vida é o bom casamento, o encontrar um bom partido e selar um proveitoso contrato de união de bens.

E, como nos romances ingleses, o ritual mais importante daquela gente são os bailes.

Haverá um baile bem no início da narrativa de “Tarde Demais”. Catherine não é uma jovem disputada pelos rapazes solteiros. Quando um deles a toma para dançar, logo arranja um pretexto para se sentarem; o rapaz diz que vai pegar uma bebida para ela, e desaparece.

E é então que surge Morris Townsend (o papel de Montgomery Clift, então um jovem ator em ascensão fulminante). Morris é bonito, elegante, e demonstra grande atração por Catherine. Passará a visitá-la com freqüência; corteja-a abertamente. Lavinia, a tia da moça, fica exultante, assim como a própria Catherine.

Mas o dr. Sloper não tem dúvida: aquele homem é um caçador de fortuna. Não está interessado em Catherine por seus dotes pessoais – os quais o pai acredita que a moça simplesmente não possua –, e sim pela sua riqueza. Catherine é a única herdeira de sua mãe, que tinha ela própria considerável fortuna, e do pai, possuidor de outra fortuna.

Morris não esconde de ninguém, nem de Catherine, nem do pai dela: não tem dinheiro mesmo, nem profissão, nem aptidão para algum negócio. Recebeu uma pequena herança, e gastou-a praticamente toda em uma longa viagem à Europa.

Aos olhos de Catherine, a franqueza com que Morris diz isso abertamente é um indicativo de honestidade. Aos olhos do dr. Sloper, é a confissão clara de que o sujeito é um aventureiro, um caçador de fortuna.

Na vida real, duas irmãs rivais – e que interpretaram papéis semelhantes

Oito anos antes de “Tarde Demais”, em 1941, Joan Fontaine havia interpretado o papel de uma mulher muito rica que se apaixona por um sujeito charmoso mas obviamente mau caráter e irresponsável, o papel de Cary Grant. O nome do filme de Alfred Hitchcock – “Suspeita” – indicava o óbvio: a mulher, assim como o espectador, suspeitará que o marido tenha se casado com ela apenas por dinheiro, e que pretenda matá-la. Por essa interpretação, Joan Fontaine ganhou o Oscar.

Joan Fontaine é irmã de Olivia de Havilland, e é uma fascinante coincidência que esta última tenha interpretado em Tarde Demais uma mulher em situação semelhante à da personagem que deu à primeira seu Oscar de melhor atriz. Eram irmãs, mas não propriamente amigas – segundo se conta, havia grande rivalidade entre elas.

A coincidência fica ainda mais fascinante porque Olivia de Havilland ganhou o Oscar por sua extraordinária interpretação desta pobre rica Catherine.

“Suspeita” é um filme de suspense, com um clima noir; “Tarde Demais” é um dramalhão, um estudo de personalidade, uma crítica social. No entanto, a dúvida sobre as intenções de Morris Townsend, a suspeita de que ele possa ser apenas um caçador de fortuna perpassam boa parte da narrativa do filme de Wyler.

Há indícios de que Morris possa ser, sim, um aventureiro. Mas também há indícios do contrário, de que ele possa estar de fato apaixonado por Catherine – até porque, na sua falta de talento para as banalidades sociais, a moça desperta uma imensa simpatia do espectador. O pai pode estar errado em seu julgamento – o pai, ao contrário da filha, é um sujeito antipático, desprezível em sua obstinação pelas aparências, sua preocupação com o dinheiro. As atuações tanto de Montgomery Clift e Olivia de Havilland quanto de Ralph Richardson ajudam a tornar o quadro difícil de ser definido.

A interpretação de Olivia de Havilland é maravilhosa. Ela demonstra timidez, receio de estar sendo reprovada pelo pai – e uma imensa bondade, ingenuidade, frescor. Quando ela sorri, a tela se ilumina.

William Wyler abusa de tomadas em que aparecem dois, três personagens ao mesmo tempo – e isso é absolutamente fascinante, quando temos na tela grandes atores. Há uma seqüência, em especial, que me deixou extasiado. É bem perto do final, e vemos, em plano de conjunto, Catherine e sua tia Lavinia numa das salas do palacete. À notícia que Lavinia traz, e ao toque na porta da frente que se ouve, Catherine demonstra ao mesmo tempo revolta, dor, determinação férrea – e algo parecido com alegria. Ela esboça um suave sorriso, quase imperceptível, para em seguida franzir de novo o cenho. O que indica aquele sorriso? Um restinho de esperança – embora Catherine esteja dizendo exatamente o contrário?

A verdade – cruel – só ficará absolutamente clara na última tomada, outra tomada majestosa, em que Catherine sobe as amplas escadas do palacete da Washington Square carregando uma lamparina.

(Mais uma coincidência: bem no final do filme de Hitchcock com a irmã-rival de Olivia de Havilland, numa das seqüências mais antológicas do cinema, Cary Grant também sobe uma grande escada.)

Uma atriz que ousou brigar na Justiça contra um grande estúdio

Não dá para não falar um pouco sobre Olivia de Havilland. Nasceu em 1916, em Tóquio, onde estavam morando seus pais, ele um advogado inglês. Sua irmã Joan nasceu no ano seguinte. Os pais se divorciaram quando Olivia tinha três anos de idade; a mãe e as duas filhas foram viver em Saratoga, na Califórnia.

Adolescente, foi vista pelo diretor Max Reinhardt numa montagem escolar da peça “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare, e aos 19 anos participou de uma versão cinematográfica da mesma peça, e assinou contrato de sete anos com a Warner Bros. Virou estrela antes dos 20 anos, ao filmar “Capitão Blood” ao lado de Errol Flynn, com quem faria em seguida sete outros filmes, inclusive “As Aventuras de Robin Hood”, um clássico reverenciado até hoje.

Aos 23 anos, ganhou o segundo papel feminino de “… E O Vento Levou”, o da doce Melanie, e com ele a primeira indicação ao Oscar, ainda como coadjuvante. Teria depois quatro indicações na categoria principal, e levaria duas estatuetas douradas, a primeira por “Só Resta uma Lágrima”, de Mitchell Leisen, em 1946, e a segunda três anos depois, por “Tarde Demais”.

Em 1941, concorreu ao Oscar por “A Porta de Ouro”, também dirigido por Mitchell Leisen – e perdeu para a irmã, que levou o prêmio por “Suspeita”. Deve de fato ter sido um duelo de egos titãs.

Ainda no início dos anos 40, teve a coragem, a ousadia de entrar na Justiça contra a Warner Bros. Não vi referência expressa a isso, mas tudo indica que foi a primeira atriz a entrar com ação contra um dos grandes estúdios de Hollywood. Andava insatisfeita com os papéis que lhe ofereciam, e recusou alguns; o estúdio então a suspendeu por seis meses, exigindo que ela trabalhasse, ao fim dos sete anos estipulados no contrato, outros seis meses, para pagar pela suspensão.

Venceu em primeira instância, o caso foi para a Suprema Corte da Califórnia e lá ela ganhou de novo, no que ficou conhecido como a “de Havilland Decision”; de acordo com essa decisão, nenhum estúdio poderia, a partir daí, assinar contrato de duração superior a sete anos.

Em meados dos anos 50, casou-se com um jornalista, um editor da revista Paris Match, mudou-se para a França e dedicou-se à vida de dona de casa e mãe. De tempos em tempos, ainda faria uma ou outra peça na Broadway, algumas aparições na TV, alguns filmes – dois dos quais, pelo menos, ótimos, os dois de 1964, “A Dama Enjaulada”, um thriller impressionante, e “Com a Maldade na Alma”, um aterrorizante suspense de Robert Aldrich em que ela atua ao lado de Bette Davis.

Vive em Paris, aos 94 anos.

E agora, considerações bem pessoais

Bem. “Tarde Demais” é um grande filme, sem dúvida alguma, uma beleza de clássico.

No entanto, devo dizer que não babei por ele. É impossível não reconhecer a grandeza do filme, mas ele não me deixou extasiado. Pode ter sido o momento. O momento em que a gente vê um filme é importante – às vezes pode perfeitamente acontecer de a gente não estar bem para ver aquele filme específico.

Pode ter sido o momento.

Depois que vi o filme (e foi a primeira vez; por algum motivo, nunca tinha visto este clássico antes), fui ler o texto que Luiz Carlos Merten escreveu, poucos dias antes, no Estadão – o filme foi lançado faz pouco tempo em DVD, e Merten escreveu sobre ele. E aí fiquei pensando: o Merten já disse tudo sobre o filme, não tenho o que dizer; deveria publicar aqui o texto do Merten, e pronto.

Mas este é um site que traz a minha opinião pessoal sobre os filmes.

Então registro o que senti: acho que tenho um problema com esse tipo de história em que os americanos tentam ser ingleses.

A literatura inglesa nos conta trocentas histórias interessantes sobre os muitíssimos ricos, os muito ricos, os ricos que não são mais tão ricos, aquela gente que não faz absolutamente nada na vida a não ser esperar por um casamento, os bailes, as visitas, a conversa vazia, a vida vazia. Jane Austen fez isso genialmente, entre outros.

O cinema nos contou trocentas mil vezes essas histórias. Um diretor nascido nos Estados Unidos, mas com alma inglesa, James Ivory, fez filmes extraordinários sobre essas histórias: “Retorno a Howards End”, “Uma Janela para o Amor”, “Vestígios do Dia”.

De alguma maneira, tentar transpor para a ex-colônia inglesa do outro lado do Atlântico as histórias dos muito ricos sempre me pareceu uma coisa meio estranha, meio fora de tom. Aquelas roupas, aqueles trejeitos, aquelas mesuras, aquele clima de corte fora da Corte que, nas histórias inglesas, têm sentido, me parecem deslocadas, esquisitas, fora de foco, quando passadas nos Estados Unidos.

Martin Scorsese, cineasta genial, profundo conhecedor e mostrador da dura realidade da violência urbana da Nova York de hoje, fez uma adaptação de uma história sobre os muito ricos da Nova York dos anos 1800 que é um filme estupendamente belo, “A Época da Inocência”, uma maravilhosa homenagem ao Luchino Visconti de “O Leopardo”. “A Época da Inocência” se baseia num romance de Edith Wharton, contemporânea de Harry James, com estilo semelhante ao de Harry James, abordando o mesmo tipo de sociedade que o abordado por Harry James – a classe alta nova-iorquina dos anos 1800.

Scorsese fez em “A Época da Inocência” um filme que mostra que os preconceitos, as regras rígidas daquele tipo de sociedade podem ser tão cruéis, opressivos, nefastos, violentos, quanto o submundo nova-iorquino de hoje.

Ver Daniel Day-Lewis naquelas roupas de 1850, americanos tentando parecer ingleses, faz todo o sentido, no filme genial de Scorsese.

Ver Montgomery Clift naquelas roupitchas à la inglesas em 1850 me deu uma sensação de estranhamento.

Devo ter visto o filme no momento errado.

TARDE DEMAIS
(The Heiress, EUA, 1949).
Direção: William Wyler.
Roteiro:  Augustus Goetz e Ruth Goetz, baseado em romance de Henry James.
Elenco: Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins, Vanessa Brown, Betty Linley.
Drama / Romance.
115 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Atriz (Olivia de Havilland), Figurino, Direção de arte, Trilha sonora.
– Indicação ao Oscar: Filme, Diretor, Ator (Ralph Richardson), Fotografia.
– Globo de Ouro: Atriz (Olivia de Havilland).
– Indicação ao Globo de Ouro: Diretor, Atriz coadjuvante (Miriam Hopkins).
– Crítica de Nova York: Atriz (Olivia de Havilland).

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.  

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Sérgio Vaz
Sérgio Vaz

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.