Habana Blues: Retrato sensível do cidadão cubano


O sucesso de “Buena Vista Social Club” (1999), de Wim Wenders, gerou outros documentários sobre a música cubana. “Habana Blues”, primeiro filme ficcional sobre o tema, pegou carona na onda. Não é um trabalho perfeito. Mas retrata uma Cuba diferente a qual estamos acostumados a ver, ainda mais pela ótica norte-americana. Mergulha o espectador no cotidiano de jovens músicos, sem fazer crítica ou propaganda do governo local. A política é abordada levemente. Porém, o que importa são os seres humanos, seus sonhos, desejos, frustrações, vitórias.

Ruy e Tito são respectivamente guitarrista e saxofonista da mesma banda. Alimentam sonhos iguais aos de tantas pessoas: buscam melhores oportunidades, possivelmente fora do país, reconhecimento, sucesso, estabilidade. Os dois têm aquele tipo de amizade: unha e carne. E possuem obstáculos em âmbito pessoal para deixar o país.

Ruy tem dois filhos e está se separando da mulher. Como não têm dinheiro, ainda dividem a casa. Sua ex-companheira não aguenta a falta de oportunidades e resolve fugir para os Estados Unidos. Ela pretende chegar a Miami, acompanhada dos filhos, usando um barco clandestino. Ao mesmo tempo, o jovem encontra a grande chance: é convidado por uma gravadora espanhola para ir à Europa com sua banda e gravar um disco. Além disso, passa a manter um caso com a produtora responsável pelo contrato.

Já Tito mora com a avó, de quem precisa cuidar. É a pessoa mais próxima a ela.

O espanhol Benito Zambrano, do premiadíssimo “Solas” (1999), vê com simpatia a luta diária do cidadão cubano. A forma como vivem lembra um pouco o brasileiro: mesmo perante as dificuldades, se mantém felizes, perseverantes, não se entregam. Se compararmos as aspirações da dupla central e a de muitos brasileiros, a proximidade é imensa. Enquanto eles querem fazer carreira musical na Espanha, quantos meninos do nosso país não almejam jogar futebol na nação europeia? É a procura pelo sucesso. Não o sucesso pelo sucesso. E sim viver dignamente, mesmo longe da terra-natal, quando não encontramos oportunidades. Oportunidades essas que, ao aparecerem, podem nos colocar diante de dilemas complexos. Qual escolha a fazer? Vale deixar tudo para trás?

Outra semelhança com o futebol é a ganância dos produtores, que pretendem tirar proveito do “momento” da música cubana, novidade aos olhos do mundo. Igualzinho aos empresários do esporte. Atletas e artistas viram escravos de contratos injustos.

Para gerar essa identificação no espectador, também contam o bom elenco e o excelente repertório musical. O roteiro só derrapa quando cai no velho chavão hollywoodiano: a tal “latinidade”. A impressão, na história, é que todo cidadão de Havana sabe cantar, tem ginga, “ritmo”, e sabe tocar algum instrumento. Deslize perdoado pelo conjunto da obra.

*DVD cedido pela Vídeo Paradiso

HABANA BLUES
(Idem, Cuba / Espanha / França, 2005).
Direção: Benito Zambrano.
Roteiro: Benito Zambrano, Ernesto Chao.
Elenco: Alberto Yoel, Roberto San Martin, Yailene Sierra, Mayra Rodríguez, Ernesto Escalona, Marta Calvó, Roger Pera.
Drama / Musical.
110 minutos.

Principais prêmios:

– Círculo de Roteiristas de Cinema da Espanha: Trilha sonora.
– Goya: Montagem, Trilha sonora.
– Festival de Havana: Prêmio CARACOL.
– Festival Latino Internacional de Los Angeles: Roteiro.
– Spanish Music Awards: Melhor álbum de trilha sonora de filme.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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