Fahrenheit 451: um mundo sem livros?


Você conseguiria imaginar a vida sem a existência de livros? Pois esse é o tema provocador e intrigante do filme “Fahrenheit 451″, de François Truffaut.

Num futuro imaginário, as pessoas vivem sob um sistema totalitário, em que os livros são proibidos. De acordo com o Estado, livros transmitem e criam diferenças, geram desejos e frustrações nos seres humanos.

Um diálogo entre os personagens Guy Montag (Oskar Werner), um membro do Departamento Fahrenheit 451, responsável em encontrar e queimar os livros, e Clarisse (Julie Christie), professora afastada pelo sistema e apaixonada por leitura, elucida bem a concepção dos livros de acordo com a visão do sistema vigente:

Clarisse: Diga-me, esse número que vocês usam, o que significa? Por que 451, e não 813 ou 121?

Montag: Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel dos livros incendeia e começa a queimar.

Clarisse: Eu gostaria de lhe perguntar outra coisa, mas não ouso.

Montag: Vá em frente!

Clarisse: É verdade que há muito tempo os bombeiros apagavam incêndios em vez de queimarem livros?

(…)

Clarisse: Por que queimar livros?

Montag: É um trabalho como qualquer outro. Bom trabalho, com muita variedade. Segunda queimamos Henry Miller; terça, Tolstoi; quarta, Walt Whitman; sexta, Faulkner; e sábado e domingo, Schopenhauer e Sartre. Queimamo-los até ficar cinza e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial. Os livros são apenas lixo. Não tem interesse nenhum.

Clarisse: Então, por que ainda há pessoas que os lêem e são tão perigosas?

Montag: Precisamente, porque é proibido. Porque faz as pessoas ficarem infelizes.

Clarisse: Acredita nisso mesmo?

Montag: Sim. Livros perturbam as pessoas, as tornam anti-sociais.

(…)

O que se busca na sociedade de Fahrenheit 451 é o homem técnico, sem dúvidas existenciais, sem reflexões, apenas agindo bovinamente para o bom funcionamento do sistema.

Porém, o ser humano não é uma máquina, está repleto de contradições e questionamentos sobre as coisas e os seres. E é exatamente isso que gera a tensão em Fahrenheit 451.

No filme, o disciplinado membro da Fahrenheit 451, Montag, começa a entrar em crise existencial. Não vê mais sentido no seu trabalho, em que é responsável por queimar livros. Montag passa a ter curiosidade para saber o que os livros contêm de tão proibidos e perigosos como são descritos pelo Sistema.

A curiosidade (natural do ser humano) faz com que Montag leve um livro para casa. Ao lê-lo descobre um mundo mágico, distante da vida insossa, tecnicista e pragmática imposta pelo Sistema.

A partir daí, Montag já não se enquadra mais no mundo determinado pelo Estado. Entra em colapso, passa a questionar o mundo, a descobrir novos outros mundos por meio dos livros. Num espiral existencial, Montag passa para o lado da resistência, até se juntar com os homens-livros.

Diante da opressão do sistema em proibir os livros, os homens-livros se agrupam na clandestinidade para compartilhar conhecimentos. Nessa sociedade, cada membro é responsável em decorar uma obra e, desta forma, preservar o conhecimento, repassando-os de geração em geração.

Imagem genial criada pelo diretor Truffaut da ligação do homem com a literatura e o conhecimento em geral. E, sem dúvida, uma das passagens mais marcantes do cinema.

Assim como nos temas projetados nos filmes “1984” (Michael Radford) e “Alphaville” (Godard), para o Sistema, pensar é um crime. Pensar, questionar, sentir, remete o ser humano a refletir sobre as coisas e os seres.

Para o Sistema, o ideal é que todos sigam a mesma linha, tenha os mesmos ângulos de visão e, desta forma, não comecem a questionar o seu modo de vida e não queiram mudar a configuração da vida que, geralmente, beneficia poucos enquanto mantém uma massa de manobra para fazer funcionar a máquina do Estado.

O que pode parecer uma fábula, nos é real. Vários são os casos de regimes totalitários em que determinadas obras e autores foram proibidos e até mesmos queimados. Relembremos, dentre outros, do Nazismo, na Alemanha.

Curiosidades: Os créditos iniciais do filme não são escritos, mas narrados, para antecipar o clima de leitura proibida. Nesse momento, são mostradas várias antenas de TV nas casas.

FAHRENHEIT 451
(Idem, Reino Unido, 1966)
Direção  François Truffaut.
Roteiro: Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury.
Música: Bernard Herrman.
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie).
Drama / Ficção científica.
112 minutos.

– Indicação ao Bafta: Melhor atriz (Julie Christie).
–  Festival de Veneza: Concorreu ao Leão de Ouro.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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