O Homem dos Olhos Esbugalhados: Quando arrependimento pode matar

Peter Lorre e Margaret Tallichet

Personagens arrependidos por prejudicar alguém e que tentam desfazer o mal empreendido são clássicos no cinema. Exemplo recente é Briony Tallis, interpretada por Saoirse Ronan no maravilhoso “Desejo e Reparação” (2007). No filme de Joe Wright, a jovem acusa Robbie, filho de uma das empregadas da casa, de tentar assediá-la. Tudo por que o rapaz, por quem é apaixonada, ama a irmã mais velha dela. O rapaz é obrigado a servir na Segunda Guerra. E jamais volta.

Em “O Homem dos Olhos Esbugalhados”, distribuído no Brasil pelo selo CultClassic, da Versátil, o repórter Mike Ward (John McGuire) é peça chave de uma investigação, única pessoa a presenciar o acusado, Joe, no local onde o dono de um restaurante foi encontrado morto. Não há mais provas. Simplesmente seu depoimento. Joe é condenado à morte. Mike, instigado pela noiva, Jane (Margaret Tallichet), passa a refletir sobre o assunto. Certo dia depara-se com um sujeito estranho em seu prédio, e depois encontra o vizinho morto. Seria a mesma pessoa responsável pelos dois assassinatos? Mike sonha, delira. quase enlouquece. Não consegue viver com o peso na consciência. E vira suspeito nos dois casos, pois é a única testemunha de ambos. Vai preso. Cabe a Jane tentar descobrir o paradeiro do misterioso homem e inocentar o amado.

Produzido pela RKO, é o típico filme que virou cult ao passar dos anos. Quando lançado, recebeu críticas negativas do New York Times, da Variety. A principal alegação é que se tratava de uma fita B derivada de longas russos e franceses. Anos depois, no entanto, foi considerado o primeiro exemplar do cinema noir, gênero em voga nos anos 40 e 50. Todas as características estão lá: o protagonista ambíguo, a narração em off, o ambiente noturno, soturno, de mistério e tensão, o repórter, o bode expiatório, o homem que precisa provar sua inocência, a linda mulher.

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Hoje, soa datado em alguns momentos. Mas vale pela forma como critica a polícia e o judiciário daqueles anos. Juiz, promotor, polícia e jurados são retratados como preguiçosos, acomodados, desinteressados, incompetentes. E atualmente não seriam assim?

Principalmente, é thriller psicológico enxuto que funciona pela presença de Peter Lorre (1904-64) na pele da figura misteriosa. É por causa do ator que a produção levou o título “O Homem dos Olhos Esbugalhados” no Brasil. Era como ficou lembrado. Traduzido do inglês, seria “O Estranho do Terceiro Andar”. Lorre, que atuara no clássico “M – O Vampiro de Dusseldorf” (1931), de Fritz Lang, confere dramaticidade a um personagem que tinha tudo para cair na caricatura.

*DVD cedido pela Vídeo Paradiso

O HOMEM DOS OLHOS ESBUGALHADOS
(Stranger on the Third Floor, EUA, 1940).
Direção: Boris Ingster.
Roteiro: Frank Partos, Nathanael West (não creditado).
Elenco: John McGuire, Margaret Tallichet, Peter Lorre, Charles Halton.
Thriller.
64 minutos.

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.