A Harpa da Birmânia: Amizade acima da guerra


Filmes sobre conflitos armados costumam separar os personagens entre heróis e vilões. Quando abordam a Segunda Guerra, obviamente o mal recaí sobre figuras do eixo: nazistas, fascistas e os japoneses. Poucos têm coragem de mostrar que, inclusive nesses grupos, existiam pessoas de bem, que acabaram ali por obrigação, defesa, sobrevivência. Recentemente, Clint Eastwood concebeu uma pérola sob esse ponto de vista: “Cartas de Iwo Jima”, sobre os nipônicos responsáveis pela defesa da ilha formada por rocha vulcânica. Filmado quase em preto e branco, o longa indicado ao Oscar retratou com profundidade o drama do general Kuribayashi e seus subordinados.

Décadas antes, “A Harpa da Birmânia”, rodado em PB, mostrava a lealdade inquebrável existente entre companheiros de guerra, mesmo perante a derrota iminente. Não há culpados. Nem vilões. Somente seres humanos tentando sobreviver ao caos e voltar pra casa. O filme há havia sido lançado no Brasil sob título “Jamais Deixarei os Mortos” e ganhou nova edição pelo selo CultClassic, da Versátil.

Somos apresentado à tropa do capitão Inouye (Rentarô Mikuni). Apaixonado por música, ele ensinou os comandados a cantar. As músicas geralmente são acompanhadas pela harpa de Mizushima (Shôji Yasui). A Guerra acabou. O Japão foi derrotado. E o grupo entrega as armas aos ingleses já quase na fronteira com a Tailândia. Mas Mizushima recebe uma tarefa ingrata: subir até a montanha onde estão outros soldados japoneses e convencer os conterrâneos a se entregar. Chegando lá, é incompreendido, acusado de traição e frente à continuação dos ataques, são todos massacrados pelos canhões britânicos. O harpista escapa, rouba as roupas de um monge e passa a vagar. Inouye e a tropa se recusam a aceitar a morte do amigo e decidem procurá-lo.

http://www.youtube.com/watch?v=cuTHBtNJX60 Cena do filme, legendada em inglês

Dirigido com maestria pelo premiado Kon Ichikawa (1915-2008), o longa foi um dos responsáveis por propagar o cinema oriental no Ocidente em meados do século passado. Tem imagens deslumbrantes, cenas memoráveis, grandes atuações e sensibiliza o espectador. É trabalho humanista, pacifista, que nos faz enxergar poesia em meio à escuridão. Os soldados são pessoas comuns, brincam, se ajudam, recordam a família, desejam sair do conflito o mais rápido possível. As canções emocionam, bem como um texto lido no final do filme. Merecidamente indicado ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira, quando a categoria foi criada pela Academia, e premiado duas vezes em Veneza, “A Harpa da Birmânia” traz o melhor do cinema japonês.

*DVD cedido pela Vídeo Paradiso

A HARPA DA BIRMÂNIA

(Biruma no tategoto, Japão, 1956).
Direção: Kon Ichikawa.
Roteiro: Natto Wada, baseado na novela de Michio Takeyama.
Elenco: Rentarô Mikuni, Shôji Yasui, Tatsuya Mihashi.
Drama / Guerra.
116 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Indicação ao Oscar: Filme em língua estrangeira.
– Festival de Veneza: Prêmio OCIC/Menção honorária, Prêmio San Giorgio.
– Concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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