O homem que, em três curtas, ajudou a conceber a genialidade característica da Pixar


Ultimamente é batata. Sai a lista de indicados ao Oscar e, entre os selecionados para Melhor animação, há um filme da Pixar, que geralmente leva a estatueta. Apesar de pertencer à Disney, o estúdio possui independência criativa e tem produzido filmes melhores que a empresa de Mickey Mouse e Pato Donald. Mais: alçou o gênero animação a um patamar inimaginável até pouco tempo atrás. Capaz de competir, de igual para igual, em complexidade e até “interpretação”, com as melhores produções live-action.

Dois longas, pelo menos, transcenderam bem esse limite: “Wall-E” (2008) e “Toy Story 3” (2010). Ambos premiados pela Academia. Trata-se de caso raro: uma companhia cuja filmografia é impecável. Agrada crianças, jovens e adultos. Homens e mulheres. Entretém e faz refletir.  A lista ainda inclui pérolas como os dois primeiros “Toy Story” (1995 e 1999), “Monstros S.A.” (2001), “Procurando Nemo” (2003), “Os Incríveis” (2004), “Carros” (2006), “Up, Altas Aventuras” (2009), entre outras. Muito disso tudo se deve a um sujeito: John Lasseter, atual diretor-executivo da marca. Foi ele que, nos anos 80, plantou a semente da genialidade que se tornaria característica da Pixar, com três curtas-metragens.

Talento desde pequeno, influências certas

Produtor, diretor, roteirista, responsável por efeitos visuais e dublador são algumas das funções que o hoje executivo desempenhou ao longo dos anos. Recebeu vários prêmios, comprovando a credibilidade que detém no meio cinematográfico. Mas falta algo mais. O tratamento de gênio. Um gênio que, a exemplo de outros, talvez, receba o devido crédito no futuro. Mas vale contar um pouco da história que teve início em 12 de janeiro de 1957, Los Angeles. Filho de uma professora de arte e um gerente de concessionária da Chevrolet, logo demonstrou interesse pela área da mãe. Na infância, desenhava em trabalhos para a igreja que frequentava. Aos cinco anos, ganhou o primeiro prêmio, US$ 15 por um desenho em pastel do Cavaleiro Sem Cabeça. Mais tarde, estudou no Instituto de Artes da Califórnia. Nesse período, realizou seus dois primeiros curtas, “Lady and The Lamp” (1979) e “Natimare” (1980), ganhadores do prêmio da Academia de Estudantes de Animação.

Quem vê, atualmente, os filmes que Lasseter dirige, escreve ou produz, percebe que ele mesclou tudo o que aprendeu com alguns dois maiores, ou os maiores, nomes do cinema de fantasia. Walt Disney,obviamente, é o primeiro da lista. Qualquer um que deseje trabalhar em filmes do gênero precisa tê-lo como referência básica. Lasseter também sempre se declarou fã do mestre japonês Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”), para quem seria produtor e distribuidor no futuro. E fez um rápido “estágio” para ninguém menos que George Lucas (“Star Wars”), integrando a divisão de informática da LucasFilm, a Lucasfilm Computer Graphics que, em 1986, seria comprada por Steve Jobs e, vejam só, transformada na Pixar.

“Luxo Jr.”, o primeiro passo para a glória

Com a criação do novo estúdio, Lasseter dirigiu e escreveu três magníficos curtas-metragens que, além das influências já citadas, demonstraram sensibilidade e humanismo dignos de Frank Capra. “Luxo Jr.”, primeiro filme da Pixar, realizado no mesmo ano em que a empresa foi criada, é ambientado em cima de uma de uma mesa de trabalho, onde um papai-luminária e o simpático filho brincam com uma pequena bola. O protagonista fura o objeto acidentalmente e se entristece. Momentaneamente sai de cena, e logo retorna com uma bola maior que ele. A diversão continua.

Em dois minutos de duração, a obra antecipa tudo o que encontraríamos nas histórias da Pixar: a dificuldade que sempre pode ser superada, a perspectiva de que as coisas vão melhorar. A mistura de humor, um pouquinho de drama, inteligência e sensibilidade resultaram na indicação ao Oscar de Melhor curta-metragem animado e a premiação de Melhor curta no Festival de Berlim. Enfim, a computação gráfica se estabelecia e, a partir dali, a animação seria encarada de uma nova maneira pela indústria cinematográfica. Abaixo, o curta:

http://www.youtube.com/watch?v=8t25RR_8ciw

“Red’s Dream”, o único filme sem happy end

No ano seguinte, respaldado pelo prestígio alcançado por “Luxo Jr.”, Lasseter concebeu um novo curta, “Red’s Dream” (“O Sonho de Red”). A trama traz um monociclo vermelho, que vive solitário no canto da de uma loja de bicicletas e nunca é comprado por ninguém. Numa noite chuvosa, sonha ser estrela de circo. Imagina-se como o monociclo de um palhaço. Quando entra no picadeiro, a dupla não é bem recebida. O palhaço tenta o malabarismo, sem agradar a plateia. Então Red sai de baixo do palhaço, que leva um tombo, e faz um show muito melhor que o parceiro. É consagrado. Porém, na melhor parte do sonho, o vermelhinho acorda e percebe que ainda está na loja. Desanimado, volta a dormir em seu canto.

“Red’s Dream” é o único filme da Pixar sem um final feliz. Apesar dos momentos divertidos, do personagem simpático, a melancolia permeia os quatro minutos da trama. Há clara referência ao cinema noir, com a trilha sonora jazzística, a chuva ininterrupta e a calçada alagada. A partir deste trabalho, outra marca registrada do estúdio surgiria: as citações a outras produções do estúdio. No caso, o desenho do picadeiro é o mesmo desenho da bola de “Luxo Jr.”, assim como há um abajur igual ao do curta anterior. Outra citação é ao curta “The Adventures of André & Wally”, de 1984, da LucasFilm. O personagem André aparece no relógio pendurado na parede. Confira:

http://www.youtube.com/watch?v=W6hImtdhjnw

A consagração com “Tin Toy”

Dois curtas maravilhosos no currículo, respeito da crítica… faltava a consagração de John Lasseter e da Pixar. E ela veio em 1988 com “Tin Toy”, a semente de uma das melhores trilogias da história do cinema. Claro, “Toy Story”.

Somos apresentados a Tinny, soldadinho musical que acaba de ser comprado para ser o novo brinquedo de Billy, bebê da casa. Quando a criança chega engatinhando na sala, o soldadinho tem uma boa primeira impressão dele. Depois, fica assustado com o novo dono e começa a fugir. Escapa ao se esconder embaixo do sofá. A surpresa: abaixo do móvel encontram-se dezenas de outros brinquedinhos apavorados com o bebê. Naquele momento, Billy cai de cabeça no chão e chora. Tinny, sentindo-se culpado, reflete e reconhece sua verdadeira missão: fazer as crianças sorrirem. Aproxima-se do dono e passa a dançar para alegrá-lo. Veja:

http://www.youtube.com/watch?v=r_n6KT9nukU&feature=related

“Tin Toy” também tem referências a “Luxo Jr.” e apareceria, anos mais tarde, de relance em “Toy Story 2”. Escancaradamente é o ponto de partida para a franquia que ganharia o mundo. Foi o primeiro curta de animação feito por computação gráfica a vencer o Oscar. Principalmente, abriu caminho ao estúdio que virou sinônimo de qualidade. A Pixar jamais fez um filme ruim. Entre curtas e longas, é impossível não se identificar e se emocionar com os personagens e as situações.

Os três curtas aqui abordados fazem parte da coleção “Pixar – Short Films Collection”, disponível em DVD e Blu-ray no Brasil e encontrados facilmente na internet. O estúdio compreende tanto a importância dos curtas que jamais parou de produzi-los. Pelo contrário. Os longas lançados são antecedidos por uma curta no cinema. John Lasseter seguiu em ascensão e atualmente, ao lado de Andrew Stanton (diretor de “Wall-E”), é o grande nome da animação na sétima arte.

"Toy Story"

Jamais esqueceu as origens. Virou produtor e distribuidor no Ocidente do ídolo Hayao Miyazaki. Foi e é produtor-executivo de outras animações da Disney. E possui uma compreensão profunda sobre o que é realizar uma obra que consiga pegar o espectador pela mão e levá-lo para dentro da história. As tramas elaboradas pela Pixar são complexas. Disfarçadas de blockbusters, têm a essência daquilo que o cinéfilo mais exigente busca num filme: a arte. Sincera e envolvente como deve ser.

Abaixo, estão listadas a filmografia e os prêmios e indicações conseguidos por Lasseter. Provas de que o executivo, diretor, produtor, roteirista, “faz tudo”, está acima da média. No entanto, vale acompanhar sua motivação na hora de criar, sem abrir mão da reverência ao ícone Walt Disney:

“Quando eu estava no colegial, eu li este livro chamado ‘A Arte da Animação’, de Bob Thomas. É tudo sobre o estúdio Walt Disney e a elaboração de ‘A Bela Adormecida’. Eu li e me dei conta: ‘espere um minuto, as pessoas fazem da animação sua história de vida?’ Nós fazemos o tipo de filmes que queremos ver, nós gostamos de rir, mas também acredito no que Walt Disney disse certa vez: ‘Para cada riso deve haver uma lágrima’. Eu adoro filmes que me fazem chorar, porque eles estão gerando uma emoção real em mim, e eu sempre penso depois: como eles fizeram isso? ‘ Desde o início eu digo que não é a tecnologia que vai entreter o público, é a história. Quando você vai ver um ótimo filme live-action, você não sai e diz que a nova câmera Panavision é impressionante. Diz: ele fez o filme tão bom ‘. O computador é uma ferramenta, e está a serviço da história.” – John Lasseter

Sigamos o exemplo.

Filmografia selecionada:

“Pixar – Short Films Collection”

Como diretor:

– “Luxo Jr.” (curta, 1986)
– “Red’s Dream” (curta, 1987)
– “Tin Toy” (curta, 1988)
– “Toy Story” (1995)
– “Vida de Inseto” (1998)
– “Toy Story 2” (1999)
– “Carros” (2006)
– “Carros 2” (2011)

Como roteirista:

– “Luxo Jr.” (curta, 1986)
– “Red’s Dream” (curta, 1987)
– “Tin Toy” (curta, 1988)
– “Toy Story” (1995)
– “Vida de Inseto” (1998)
– “Toy Story 2” (1999)
– “Carros” (2006)
– “Toy Story 3” (2010)
– “Carros 2” (2011)

Como produtor:

– “Luxo Jr.” (curta, 1986)
– “A Bela e a Fera” (versão 3D, 1991)
– “A Viagem de Chihiro” (produção executiva nos EUA, 2001)
– “Monstros S.A.” (produção executiva, 2001)
– “Procurando Nemo” (produção executiva, 2003)
– “O Castelo Animado” (produção executiva, 2004)
– “Os Incríveis” (produção executiva, 2004)
– “A Família do Futuro” (produção executiva, 2007)
– “Ratatouille” (produção executiva, 2007)
– “Wall-E” (produção executiva, 2008)
– “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar” (produção executiva na versão em inglês, 2008)
– “Bolt – Supercão” (produção executiva, 2008)
– “Up, Altas Aventuras” (produção executiva, 2009)
– “A Princesa e o Sapo” (produção executiva, 2009)
– “Toy Story 3” (produção executiva, 2010)
– “Enrolados” (produção executiva, 2010)
– “Monstros S.A. 2” (pré-produção, 2013)

Principais prêmios e indicações:

– Oscar de Melhor curta animado, por “Tin Toy”
– Oscar especial, por “Toy Story”
– Indicação ao Oscar de Melhor roteiro, por “Toy Story”
– Indicação ao Oscar de Melhor curta animado, por “Luxo Jr.”
– Indicação ao Oscar de Melhor roteiro, por “Toy Story 3”
– Indicação ao Oscar de Melhor longa animado, por “Monstros S.A.”
– Indicação ao Oscar de Melhor longa animado, por “Carros”
– Prêmio do Sindicato dos Diretores (DGA): Contribuição em imagens para o cinema
– Urso de Prata de Melhor curta no Festival de Berlim, por “Luxo Jr.”
– Emmy de Melhor programa de animação, por “Prep & Landing”
– Melhor animação no Festival de Cinema de Hollywood, por “Carros”
– Prêmio de vanguarda, pelo Sindicato dos Produtores (PGA)
– Prêmio Lifetime Achievement em Cinema, pelo Sindicato dos Produtores

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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