DVD e Blu-ray

O Discurso do Rei: a essência do bom cinema

Filme foi o contraponto cinematográfico à A Rede Social e consolidou Colin Firth como grande ator contemporâneo
Por André Azenha, editor (22/06/2011) // Comente

Colin Firth e Geoffrey Rush: Reunião de dois dos melhores atores dos últimos tempos (Divulgação)

Na política, não basta traçar planos, estratégias, definir os passos de uma nação. É preciso o dom da oratória para cativar as massas. E a mídia desempenha papel fundamental no processo. Ao longo da história, não são poucos os exemplos positivos e negativos de pessoas que levaram milhões de pessoas a reboque graças ao poder discursivo. Um dos episódios mais tristes da influência política sobre as massas foi Adolf Hitler. Alguém com ideias e ideais radicais e preconceituosos. Mas que obteve sucesso graças ao seu talento como orador e ao uso da força midiática. Caso contrário, milhares de soldados alemães não teriam lutado sob sua tutela.

Em determinado momento de “O Discurso do Rei”, George VI (Colin Firth), ou Berty, pai da atual rainha Elizabeth II, precisa declarar guerra à Alemanha nazista de Hitler. Mas sua gagueira o impede de discursar. Berty é bom sujeito, correto, marido amoroso e se vê alçado a rei da Inglaterra quando seu irmão, Edward (Guy Pearce), abdica do trono em 1936. Ele quer o melhor para a nação. Mas para cativar a confiança dos ingleses, o novo rei precisa aprender a falar em público. Assim, pede auxílio a um especialista em discursos, Lionel Logue (Geoffrey Rush). Logue é conhecido por seus métodos nada convencionais. E é da relação entre os dois que nasce a magia do filme.

“O Discurso do Rei” remete ao cinema clássico. Um exemplo recente desse tipo de cinema é o bonito “O Despertar de Uma Paixão”, que acabou não obtendo o merecido sucesso. Afinal, vivemos uma época em que a tecnologia avança abruptamente, atores e atrizes aparecem com os corpos e rostos cada vez mais perfeitos. Então quem estaria interessado em filmes simples sobre épocas passadas, que ignoram a presença de musas e galãs e seus corpos expostos, efeitos visuais, catarses, momentos eloquentes, exageros para impressionar o público? Produções que se garantem simplesmente pelo seu conteúdo e a forma como ele é exteriorizado na tela. “O Discurso do Rei” se destaca por ter alcançado esse feito. Não tem cenas de sexo nem rostos perfeitos, é um drama de época, porém conseguiu ótima bilheteria, e foi celebrado pela crítica, levando o Oscar de melhor filme em 2011. É o filme certo na hora certa, que devolveu ao cinemão aquilo que nunca poderia ou poderá ser esquecido: sua essência.

Imagem de Amostra do You Tube

À primeira vista, ou para quem ler somente a sinopse, pode parecer mais uma trama baseada em fatos reais sobre alguém que supera um problema pessoal para depois ter sucesso. A mesma primeira impressão passada, para os menos atentos, pelo ótimo “O Vencedor”, em cartaz no Brasil durante o mesmo período. Mas quem assistir ao longa de Tom Hooper, oriundo da tevê, encontrará uma obra bem escrita, com ambientação de época e figurinos corretos, direção precisa, montagem eficiente e, claro, um elenco em estado de graça, reconhecido pelo Sindicato dos Atores como o melhor time de intérpretes do ano. Começando pela dupla protagonista. Cada cena estrelada por Colin Firth e Geoffrey Rush é memorável. O primeiro nos transmite toda a dificuldade encontrada pelo personagem em se superar. O segundo nos cativa com sua forma inusitada em tratar o “paciente”.

E ainda há Helena Bonham Carter, mais contida que o habitual, como a esposa que apoia incondicionalmente o marido. E até Guy Pierce, alguém que dá sorte ao filmes em que atua. Esteve em “Guerra ao Terror”, ganhador do Oscar, e aqui novamente surge em poucas cenas, num outro trabalho que levou o prêmio máximo da Academia. Bicampeão na principal festa do cinema.

O sucesso de “O Discurso do Rei” pode ser visto como contraponto ao êxito de “A Rede Social” e à moda do 3D. Público e mídia internacional, após tantos lançamentos descolados e antenados com a tecnologia, encontraram na obra de Tom Hooper a deixa para expressar sua saudade ao cinema clássico. É aquela velha história: “O Discurso do Rei” vale pelo conjunto da obra. E àqueles que conseguirem ver além, ainda descobrirão no longa uma bela metáfora atemporal à maneira como nossos líderes políticos necessitam da mídia para convencer a sociedade.

O DISCURSO DO REI
(The King’s Speech, Reino Unido / Austrália / EUA, 2010).
Direção: Tom Hooper.
Roteiro: David Seidler.
Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Derek Jacobi, Guy Pierce, Timothy Spall, Jennifer Ehle, Michael Gambon.
Drama / História.
118 minutos.

Principais prêmios e indicações:

- Oscar: Filme, Diretor, Roteiro original, Ator (Colin Firth).
- Indicação ao Oscar: Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter), Fotografia, Trilha sonora original, Mixagem de som, Figurino, Montagem, Direção de arte.
- Bafta: Filme, Filme britânico, Roteiro original, Ator (Colin Firth), Ator coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz coadjuvante (Helena Bonham Carter), Música original.
- Indicação ao Bafta: Fotografia, Figurino, Montagem, Maquiagem, Direção de arte, Som, Diretor.
- British Independent Awards: Melhor filme independente britânico, Roteiro, Ator (Colin Firth), Ator coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz coadjuvante (Helena Bonham Carter).
- Crítica de Chicago: Ator (Colin Firth).
- Globo de Ouro: Ator em filme de drama (Colin Firth).
- Indicação ao Globo de Ouro: Filme de drama, Diretor, Trilha sonora original, Roteiro, Ator coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz coadjuvante (Helena Bonham Carter).
- Crítica de Los Angeles: Melhor ator (Colin Firth).
- Sindicato dos Atores da América (SAG): Melhor elenco, Melhor ator protagonista (Colin Firth).
- Crítica de Washington: Ator (Colin Firth).

Estreia no Brasil: 11/02/2011.

Lançamento em DVD e Blu-ray: 22/06/2011.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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