Cinema árabe em pauta no Brasil

Soraya Smaili, na abertura da mostra, em SP, e Nagila Guimarães (Fotos: Divulgação)

Desde o dia 16, até 29 de junho, o ICArabe (Instituto da Cultura Árabe), em parceria com o SESC SP, Prefeitura Municipal de São Paulo, Cinemateca Brasileira e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), realiza na capital paulista, a 6ª Mostra Internacional Mundo Árabe de Cinema, que depois segue para Brasília.

A programação paulistana conta com 15 produções de países como Tunísia, Egito, Síria, Emirados Árabes, Iraque, Argélia, Marrocos, Palestina, entre outros. Trata-se de uma grande oportunidade para conhecer filmes que poderiam passar em branco no circuito comercial brasileiro e também quebrar a barreira do preconceito com a cultura árabe. “…acredito que isso esteja mudando. No início desta primeira década os árabes e descendentes aqui no Brasil estavam tímidos e acanhados, se sentiam reprimidos e alguns foram hostilizados socialmente – temos vários relatos. Por isso, um grupo de intelectuais decidiu iniciar o Instituto da Cultura Árabe em 2004, para termos uma voz, para falarmos da cultura milenar que tem uma tradição humanista e universal e que não tem nada a ver com o fundamentalismo, que aliás existe em todas as religiões”, argumenta Soraya Smaili, diretora cultural e científica do Instituto da Cultura Árabe, curadora da mostra entre 2008 e 2010, e que este ano assumiu a direção cultural do projeto, em parceria com a curadora Nagila Guimarães.

Filme "Cidade da Vida", uma das atrações do evento

O CineZen aproveitou a realização do evento e bateu um papo exclusivo com Soraya e que teve a participação de Nagila. Em pauta, o envolvimento com a mostra, o critério para a seleção dos filmes, a recepção do público brasileiro, o preconceito em relação à cultura árabe, os próximos projetos do Instituto e longas palestinos.

“Paradise Now” (2005), coproduzido entre Palestina, Israel e outras nações, provocou polêmica ao ser indicado ao Oscar. Judeus ortodoxos criticaram a indicação do longa à categoria melhor filme em língua estrangeira. “Em nosso material sempre apresentamos como Palestina e isso é feito pelos produtores e distribuidores também na hora de apresentar a ficha técnica. De fato a Palestina é composta de territórios ocupados, mesmo quando tratamos da resolução de 67. A Palestina deve ser considerada como nação e deve ser criada – já existem mais de 100 países que reconheceram isso e a ONU também destaca o direito ao Estado Palestino”, diz Soraya.

Está mais do que na hora do mundo encarar a Palestina como país. Os culpados, em conflitos armados, são os inocentes, de ambos os lados.

Abaixo, a entrevista completa:

Como aconteceu o envolvimento de vocês com a mostra de cinema árabe? Como ela surgiu?
Soraya Smaili | O Instituto da Cultura Árabe vem realizando mostras de cinema desde 2005, que começaram pequenas e foram crescendo. A partir de 2008 ganharam maior projeção e passaram a fazer parte do calendário cultural de São Paulo com as parcerias do CineSESC e Secretaria da Cultura da Cidade de São Paulo. Outras parcerias foram se somaram, como a prestigiosa Cinemateca e, agora, a jovem e inovadora Matilha Cultural. Outras Instituições também têm contribuído e colaborado como a Câmara do Comércio Árabe Brasileira. Em 2011, o Instituto foi contatado pela curadora Nagila Guimarães e decidimos incorporar totalmente a proposta dela e da curadora tunisiana Dora Bouchoucha. Elas trouxeram um aporte de ideias e uma lista de filmes muito instigante e interessante. Quando propusemos fazer em São Paulo, elas aceitaram imediatamente e nasceu uma parceria das boas. Por isso, decidimos antecipar a mostra que ocorreria em setembro, para junho. Além disso, com os acontecimentos do mundo árabe hoje, a mostra veio em excelente momento. Assim estamos realizando a 6ª Mostra Mundo Árabe de Cinema de São Paulo. A Nagila Guimarães, com apoio do ICArabe, levará a Mostra para o Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e também para a cidade de Belo Horizonte. Assim, a mostra ganhou outras capitais brasileiras este ano.

"Microphone", de Ahmad Abdallah, também integra a programação


Qual foi o critério para essa seleção? “Paradise Now”, por exemplo, de anos atrás, ganhou fama mundial, mas também provocou polêmica, já que foi coproduzido por Israel e Palestina, entre outras nações.
Nagila Guimarães |
O processo foi bem abrangente, não focamos necessariamente em cineastas jovens, mas sim em filmes mais recentes, qualidade e diversidade das histórias, e queríamos também ter o maior número possível de países. Talvez porque hoje exista um grande número de jovens fazendo cinema, a mostra tenha uma maior presença deles.

S.S. | Os filmes foram selecionados a partir de produções de diretores novos e também já bem aceitos pelas críticas de diversos países. Os filmes são criativos e inovadores e, em boa parte, refletem os acontecimentos que antecederam a Primavera Árabe.

Uma dessas polêmicas do filme foi a inclusão, na produção, da Palestina. Judeus ortodoxos criticaram a Academia de Hollywood por selecioná-lo para a categoria de filme em língua estrangeira e citar a Palestina como nação. No iMDB, a Palestina é citada como território. Para vocês já está na hora de ser considerada uma nação oficial?
N.G. |
Sim, deve ser tratada como uma nação oficial. 

S.S. | Em nosso material sempre apresentamos como Palestina e isso é feito pelos produtores e distribuidores também na hora de apresentar a ficha técnica. De fato a Palestina é composta de territórios ocupados, mesmo quando tratamos da resolução de 67. A Palestina deve ser considerada como nação e deve ser criada – já existem mais de 100 países que reconheceram isso e a ONU também destaca o direito ao Estado Palestino.

Quanto a contarmos com produções israelo-palestinas, não vemos problema algum, pois existem organismos israelenses que financiam filmes palestinos. É importante que a sociedade israelense tenha esse ponto de vista. É importante que existam filmes como “Paradise Now” ou como o “Conhecimento é o Começo” (2005), ou mesmo “Lemon Tree” (2008), que tratam das questões concretas que eles vivem, que aborda de maneira crítica a necessidade de se solucionar essa questão para que todos vivam com dignidade.

| Mostra de cinema árabe traz filmes inéditos ao país

Como tem sido a recepção do público brasileiro nessa mostra? Há mais  interesse do público de descendência árabe? Ou não?
S.S. | O interesse tem crescido a cada ano, mas esse ano, particularmente, tivemos e temos as movimentações do Mundo Árabe, a Primavera Árabe, que inclusive está contagiando países da Europa. É algo forte, que dá aos jovens coragem, pois eles lutam por seus direitos mais elementares, como o trabalho, a família e a liberdade de expressão. Isso dá coragem e ajuda a transformar sociedades que estavam ou ainda estão sob um regime repressor, apesar de ainda termos um longo caminho pela frente – há muito violência sendo gerada e muitas vidas perdidas.

Vocês consideram que existe preconceito por parte do público ocidental em relação à cultura árabe? Se a resposta for sim, quais os motivos?
S.S. | Sim, existem grupos que têm uma visão distorcida do árabe, que muitas vezes é visto como um ser exótico, estranho. Outras vezes é visto como ignorante ou fanático religioso. Essa é uma construção que foi cuidadosamente feita e acumulada ao longo de décadas no século XX e que teve seu ápice no século XXI, com os acontecimentos do 11 de setembro de 2001. O árabe passou a ser visto como indesejável.

Mas acredito que isso esteja mudando. No início desta primeira década, os árabes e descendentes aqui no Brasil estavam tímidos e acanhados, se sentiam reprimidos e alguns foram hostilizados socialmente – temos vários relatos. Por isso, um grupo de intelectuais decidiu iniciar o Instituto da Cultura Árabe em 2004, para termos uma voz, para falarmos da cultura milenar que tem uma tradição humanista e universal e que não tem nada a ver com o fundamentalismo, que aliás existe em todas as religiões. Passamos a falar, debater, dar cursos e fazer mostras culturais e de cinema. E hoje vemos que o publico conhece um pouquinho mais, cada vez mais. É um processo que temos que nos empenhar e fazer.

http://www.youtube.com/watch?v=ShKGkDGu9O0&feature=player_embedded Trailer de “Microphone”

Quais os próximos projetos do Instituto?
S.S. | A Mostra Mundo Árabe poderá ter uma itinerância, pois há várias solicitações para outros estados (nota do editor: a mostra acontecerá em Brasília, de 28 de junho a 10 de julho). Em agosto, vamos fazer um ciclo de palestras com o nosso Presidente de Honra o Professor Aziz Ab`Saber. Depois, em setembro e outubro, teremos um seminário e outro ciclo de filmes sobre o árabe no debate intercultural, onde falaremos sobre os filósofos árabes e como eles estão atuais. Essa é uma parceria com a Casa Árabe de Espanha e o Instituto Cervantes em São Paulo. Em outubro, faremos outro curso sobre o Mundo Árabe e conjuntura, para analisar os acontecimentos até então (sempre temos muitos jornalistas e estudantes). No ano que vem estamos planejando uma sequencia de exposições.

Quais as expectativas para a mostra desse ano? Previsão de público?
S.S. | O ano passado tivemos cerca de 3,5 mil pessoas. Este ano, acreditamos que devemos superar esta marca. A imprensa está repercutindo bastante e, além disso, temos um encerramento muito interessante com a presença da diretora Raja Amari e da produtora Lina Menzil, que são tunisianas e que falarão do cinema árabe e da Tunísia hoje. Isso ocorrerá no dia 29 de junho, na Cinemateca.

Serviço:
6ª Mostra Mundo Árabe de Cinema
Quando: 16 e 29 de junho
Onde: CineSesc (16 a 22/6), Centro Cultural São Paulo (17 a 25/6), Cinemateca (21 a 29/6)
Cinesesc – R. Augusta, 2075 – Cerqueira César, tel.: 11 3087-0500
Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, tel.: 11 3397-4002
Cinemateca – Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino, 11 3512-6111
Informações: www.mundoarabe2011.icarabe.orgwww.icarabe.org/mostras/mundoarabe2011.

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.