Desconhecido ratifica Liam Neeson como astro de ação

Liam Neeson e Diane Kruger

Tem filmes que usam e abusam de clichês para tentar cativar o público. E nem sempre conseguem. Caso do recente “O Besouro Verde”. Há filmes que pegam qualidades de outras obras cinematográficas – não necessariamente clichês – e conseguem agradar, principalmente se estão em cena atores competentes e carismáticos. Já vimos aquelas situações em alguma sessão, mas não há tédio em revê-las sob outro formato. Caso de “Desconhecido”.

Vejamos a trama. Casal chega à Alemanha para uma conferência. De repente ele, Dr. Martin Harris (Liam Neeson), percebe que esqueceu uma das bagagens, pega um táxi para recuperá-la e o automóvel sofre acidente, despencando no mar. A motorista foge. Ele entra em coma. Quando acorda, no hospital, e decide reencontrar a esposa (January Jones), descobre que ninguém, inclusive a amada, se lembra dele. Pior ainda. Há um sujeito vivendo em seu lugar. E mais: surgem uns caras que tentam matá-lo. A história segue com o protagonista tentando decifrar o que aconteceu.

Só de ler a sinopse é possível, para quem frequentemente vê filmes, lembrar de inúmeras produções. Estão lá a perda de memória de “Amnésia”, as perseguições de “Busca Frenética”, de Polanski, o mistério e a caçada por ruas européias de “Ronin”, e a perda de memória – novamente – com o herói ajudado por uma desconhecida, como em “A Identidade Bourne”. No entanto, “Desconhecido” não soa como rescaldo de obras passadas. Tem certo frescor, vitalidade. Diverte. Muito em virtude do bom elenco reunido, em que a única destoante é January Jones (série “Mad Men”), insossa numa personagem inicialmente relevante para a trama, mas depois prejudicada pelo roteiro. Ficamos sempre esperando alguma informação a mais dela, que não vem.

Há a presença da linda Diane Kruger (“Troia” e “Bastardos Inglórios”), que faz a taxista, Aidan Quiin na pele do “outro” Dr. Martin Harris, o veterano e sempre marcante Frank Langella, cujo personagem é melhor deixar em segredo para não estragar a surpresa. Os cinéfilos ainda notarão a presença de três dos melhores atores europeus contemporâneos: o suíço Bruno Ganz, o Hitler de “A Queda!”, vive o detetive.  Em menores participações estão Sebastian Koch, como Professor Bressler, o grande atrativo da tal conferência, e o austríaco Karl Markovics, o médico que atende Harris depois do acidente. Kock e Markovics, por sinal, protagonizaram respectivamente os fabulosos “Os Falsários” e “A Vida dos Outros”, ambos premiados com o Oscar de Filme em Língua Estrangeira.

Neeson, Kruger e Bruno Ganz

E tem Liam Neeson. Pouco tempo atrás o ator estrelou outro longa de ação, “Busca Implacável”, que foi muito bem nas bilheterias norte-americanas. O sucesso de público se repetiu no fim de semana de estreia de “Desconhecido” nos Estados Unidos. Neeson, que se tornará sexagenário em 2012, passou a trabalhar constantemente após a morte da esposa, a atriz Natasha Richardson, em 2009. Sempre foi considerado um grande profissional, mas até então era coadjuvante em blockbusters, como “Star Wars Episódios I: A Ameaça Fantasma” e “Batman Begins”. E o fato de ter virado astro de ação quase aos 60 anos tem chamado a atenção da mídia. O fato é que, assim como Hugh Grant nas comédias românticas e Denzel Washington em filmes policiais, Neeson adquiriu certa autoridade no gênero ação que atrai o espectador, não importa se o papel seja parecido com um anterior. A plateia gosta dele e pronto. Só que esse êxito não é surpresa para quem acompanha sua carreira. Em 1990, o ator deu um vislumbre do que aconteceria atualmente quando estrelou “Darkman – Vingança Sem Rosto”, que também traz o protagonista prejudicado por terceiros e precisando recuperar a vida quase perdida.

Se há mesmo algo de surpreendente em “Desconhecido” é a boa direção do catalão Jaume Collet-Serra, que antes fez o ridículo “A Órfã”. Aqui, o diretor conduz bem as cenas de perseguição, luta, e cria o clima necessário para deixar o espectador esperando pelo que vem a seguir.

DESCONHECIDO
(Unknown, Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Japão, EUA, 2011).
Direção: Jaume Collet-Serra.
Roteiro: Oliver Butcher, Stephen Cornwell, baseados no livro Out of My Head, de Didier Van Cauwelaert.
Elenco: Liam Neeson, Diane Kruger, Bruno Ganz, January Jones, Aidan Quiin, Frank Langella, Sebastian Koch, Karl Markovics.
Ação / Suspense.
113 minutos.

Estreia no Brasil: 25/02/2011.

Lançamento em Blu-ray no Brasil: Junho/2011.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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