Iluminados Pelo Fogo retrata importante capítulo da história argentina


Todas às vezes que assisto um filme baseado em um livro que eu já li, eu me decepciono. Mas eu gostei de “Orgulho e Preconceito”. Humm… confesso que eu curti o água com açúcar do “Comer, Amar e Rezar”, apesar de  ter criticado algumas mudanças no roteiro. Ah, mas naquele dia eu não estava a fim de pensar mesmo. Ok. Talvez nem todos filmes baseados em livros são decepcionantes. Quero dizer, às vezes.  Ufa, ainda bem que o Dom Casmurro não abriu o exame de DNA (o Machado de Assis iria se revirar no caixão). Ops, foco! Estou começando a viajar. Não vou mais mudar de assunto, afinal vou falar de um tema sério.

Há um bom tempo li Malvinas: diario de regreso, do jornalista  Edgardo Esteban, que conta o seu retorno  às Malvinas em 1999 para fazer a cobertura do primeiro voo de argentinos que visitaram as ilhas  depois da guerra.  Esteban foi um de “los chicos de la guerra“, pois  foi às Malvinas como soldado em 1982. O roteirista de “Iluminados Pelo Fogo” se inspirou nesse livro, por isso eu dou o desconto do filme não ter muito a ver com o livro, apesar de encontrarmos algumas cenas descritas por Esteban.

Para quem conhece ou estuda o tema, o filme não tem muito a acrescentar, mas mesmo assim vale à pena vê-lo. Para quem não sabe quase nada sobre o que passou nessa guerra, deve assisti-lo. Numa das vezes em que estava em Buenos Aires, fui a uma exposição sobre o tema. Um dos organizadores era filho de um soldado que morreu nas Malvinas/Falklands. Fiquei impressionada ao saber dos maus tratos que eles sofreram pelas mãos dos próprios comandantes argentinos. Fuçando nas livrarias da Avenida Corrientes, achei uns livros bem interessantes sobre o tema.

Do mesmo modo que é inútil discutir com um argentino que o Pelé foi melhor jogador que o Maradona, é perda de tempo querer questionar se as Malvinas são de fato argentinas. Isso faz parte praticamente do mito de criação daquele povo, tanto como o tango.

http://www.youtube.com/watch?v=itjlTKmwdYI

Para mim, na minha vã ignorância, Malvinas/Falklands é um imbróglio histórico que remete o Tratado das Tordesilhas. Naquela época e uns séculos depois a Inglaterra reconheceu as ilhas como sendo espanholas. Mas até os franceses já colocaram seus pés lá. Tanto que foram eles que batizaram as ilhas: Malovines. O comodoro inglês Byron, em 1765, colocou uma bandeira inglesa nas ilhas em nome do rei da Grã-Bretanha. Porém,  cinco anos depois os espanhóis expulsaram os ingleses. As Malvinas foram espanholas até a independência argentina. Por sua vez, elas foram argentinas até os ingleses, em 1833, tomarem as ilhas para eles pela força. Hoje quem mora nas ilhas são os kelpers, considerados cidadãos ingleses e que  não querem de jeito nenhum que a ilha seja argentina. Quem está com a razão? Bom, depende de quem conta a história e os relatos divergem drasticamente.

O x da questão é que, em 1982, a argentina estava em plena ditadura militar. O governo do presidente Galtieri estava “mal das pernas” e  ele decidiu “salvar a honra nacional”.  Já para a dama de ferro inglesa, ter de fazer uma guerrinha para proteger algumas ilhas e conseguir aumentar uns pontos na opinião pública no seu país também não foi tão difícil. Ora, ora, nada como uma guerra para “unir” o país e tirar o foco naquilo que poderia ser jogado para debaixo do tapete. E quem foram os maiores prejudicados  dessa guerra que durou poucos meses? Aquele jovem, com cara de criança, que era guitarrista de uma banda de rock e que teve de cavar, enquanto chorava, para enterrar os seus companheiros. Aquele outro que queria ser jogador de futebol e perdeu o pé por causa do frio,  ou aquele que trabalhava desde cedo para ajudar a mãe viúva e nunca mais voltou para casa. Todos eles passaram fome e frio juntamente com maus tratos de seus comandantes. “Iluminados Pelo Fogo” mostra muito bem esse capítulo da história de nossos hermanos.  Para quem curte relatos de guerras, vale a pena ler: Los chicos de la guerra – hablan los soldados que estuvieron en Malvinas, de Daniel Kon. Hoje esses “chicos” são cinquentões.

Para você não precisar dar um google: O nome “Falklands” foi dado por John Strong em 1690, em homenagem ao Visconde de Falkand, que era uma cidade na Escócia, enquanto o nome “Malvinas” deriva do nome francês Îles Malouines, dado em 1764 por Louis Antoine de Bougainville, em referência à cidade francesa de Saint-Malo.

ILUMINADOS PELO FOGO
(Iluminados por el fuego, Argentina / Espanha, 2005).
Direção: Tristán Bauer.
Roteiro: Tristán Bauer, Miguel Bonasso, Edgardo Esteban, Gustavo Romero Borri.
Elenco: Gastón Pauls, Jon Lucas, Mario Chaparro, Tony Lestingi, Virginia Innocenti.
Drama / Guerra.
100 minutos.

Principais prêmios:

– Associação argentina dos críticos de filmes: Roteiro adaptado, Direção de arte, Montagem, Atriz coadjuvante (Virginia Innocenti).
– Cine Ceará: Melhor som.
– Goya: Melhor filme estrangeiro em língua espanhola.
– Festival de Havana: Prêmio Vígía, Primeiro Prêmio Grande Coral, Fotografia, Som.

Disponível em DVD.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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