Almas Desesperadas revelou capacidade dramática de Marilyn Monroe

Um filme muito bom, e, se não chega a ser uma raridade, é no mínimo pouco badalado – eu nunca tinha visto, e não me lembrava de ter ouvido falar nele. É possivelmente o filme da Marilyn menos falado.

É contado em tempo real – cada minuto na ação é um minuto no relógio; são 76 minutos de ação, 76 minutos de filme, uma coisa rara. Deve haver outros, mas só me lembro de dois filmes assim, além deste aqui: “Matar ou Morrer”/”High Noon”, de Fred Zinnemann, e Festim “Diabólico”/”Rope”, de Alfred Hitchcock.

Não há sequer uma tomada externa: toda a ação se passa em ambientes fechados, em um grande hotel – no bar, onde a personagem de Anne Bancroft canta, e dentro de um quarto, onde a personagem de Marilyn Monroe é encarregada de cuidar do filho de um casal de hóspedes enquanto eles vão sair.

Foi o primeiro filme em que Marilyn teve um papel de fato importante; ela já havia aparecido em vários filmes, mas em papéis muito secundários, praticamente pontas, como “O Segredo das Jóias”, de John Huston, e “A Malvada”, de Joseph L. Mankiewicz, os dois de 1950. No mesmo ano deste filme aqui, 1952, ela ainda faria um papel secundário em “O Inventor da Mocidade”, a comédia escrachada, screwball depois do tempo, de Howard Hawks.

E Marilyn está linda, maravilhosamente, estonteantemente linda – embora na maior parte do filme esteja maquilada para parecer que não está maquilada, em roupa simples, pobre, sem glamour algum, algo como a Sharon Stone conseguiu naquele interessante e subestimado “A Última Chance”, de Bruce Beresford.

Ela interpreta – e bem – uma mulher em crise nervosa, profundamente perturbada. E é impressionante como, ao simplesmente pôr nas orelhas os brincos da madame para quem está sendo babá no quarto de hotel, ela consegue um shazam, uma transformação, um absoluto upgrade.

O filme é uma prova cabal da força, do carisma de Marilyn. De que ela de fato é muito, mas muito mais que uma fabricação da indústria do cinema e do marketing.

http://www.youtube.com/watch?v=ABe58vEcQfY

Eu também nunca tinha visto a Anne Bancroft tão jovem – a primeira vez que a vi foi em “O Milagre de Annie Sullivan”, de Arthur Penn, de 1962 – uma década depois deste filme aqui – e ela estava totalmente desglamourizada e enfeiada para fazer a poderosa mulher que transforma a garota cega-surda-muda animal em um ser humano. E depois vieram os filmes dela madura, a partir de “A Primeira Noite de um Homem”, de 1967. Como era linda a jovem Anne Bancroft. Este é o seu filme de estréia.

O filme tem uma forte atmosfera noir, pesada, dura, cruel.

Ao procurar na internet uma foto do filme para colocar agora no site 50 Anos de Filmes, em 2008, encontrei o site de uma jovem escritora americana, Kim Morgan, que fez um imenso e interessantíssimo texto sobre Marilyn neste filme. Ela diz admirar especialmente o trabalho da atriz nos seus primeiros e nos seus últimos filmes. Não resisto à tentação de transcrever ao menos um trecho. A mulher é séria:

I find Marilyn’s first and last hopes at proving herself on screen immensely powerful. Such is the case in Monroe’s first starring vehicle, 1952′s Don’t Bother to Knock. There’s a prophetic sadness permeating her nuanced, fascinating performance, and for a picture of this period, her delusional babysitter (freshly released from an insane asylum) is surprisingly sympathetic. Knowing all we do about the troubled star, it most likely wasn’t a stretch for the then-relative newcomer to understand the pathology and despondency of her character Nell, a beautiful young woman burned by love who can’t handle the breach between reality and fiction. A film noir of sorts, director Roy Baker’s part-thriller, part-character-study is a tense tale with plenty of pathos geared toward Marilyn, who wasn’t the full-blown MM superstar yet. As Nell, a mysterious girl who takes on a babysitting job in a hotel where her creepy, sad-sack uncle (Elisha Cook Jr. – who else) works, Monroe enters the picture in plain clothes, dark blonde hair, and little makeup. Though she’s no plain-Jane, she looks like a “nice girl” – nice enough for hotel guests the Joneses (played by Jim Backus and Lurene Tuttle) to allow a stranger to watch over their cute little daughter Bunny (Donna Corcoran). After quickly putting the girl to bed (clearly she’s not interested in the kid), Nell plays dress-up in Mrs. Jones’ fine silk robe, perfume, and diamond jewelry.

ALMAS DESESPERADAS
(Don’t Bother to Knock, EUA, 1952).
Direção: Roy Ward Baker.
Roteiro: Daniel Taradash.
Elenco: Richard Widmark, Marilyn Monroe, Anne Bancroft.
Drama / Thriller.
76 minutos.

Disponível em DVD.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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