Premiado em Paulínia, filme gay é censurado em projeto educativo no Acre


“Eu Não Quero Voltar Sozinho”, premiado no Festival de Paulínia 2010, por público e júri, foi censurado de forma arbitrária e extremamente preconceituosa no Acre. Dirigido por Daniel Ribeiro, o curta integra a programação do Cine Educação, programa que leva a arte para dentro da sala de aula.

Segundo o diretor e a produtora Diana Almeida, “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, sobre um garoto cego que descobre o surgimento da paixão por um novato no colégio, foi escolhido por uma docente e projetado aos alunos. A introdução da arte no cotidiano escolar é um dos princípios da Lei de Diretrizes e Bases (LDB).

A exibição foi levada ao conhecimento de líderes religiosos, sempre eles, que pressionaram políticos do estado para proibir não só a exibição do curta, mas, pasmem, ocasionar o cancelamento do Cine Educação.


O projeto, realizado em diversos locais do país, é resultante da parceria entre a Cinemateca Brasileira, a consultoria Via Gutenberg e as secretarias estaduais.

“De forma arbitrária, em uma república federativa cuja Constituição atesta um Estado laico, a sociedade está sendo privada de promover debates. Como pretendemos que adolescentes consigam respeitar a diversidade e formem-se cidadãos lúcidos, pensantes e ativos se informação, arte e cultura (sem qualquer caráter doutrinário) lhes são negadas?”, questionam diretor e produtora do filme.

Trata-se do segundo episódio recente de um projeto educativo organizado, em parte, pelo governo, afetado por lobby de setores religiosos. No fim de maio, o Kit Anti-Homofobia, materiais impresso e em vídeo que seriam distribuídos a estudantes para orientar em como lidar com a diferença e promover o debate em torno da sexualidade, foi cancelado por pressão da bancada evangélica no Congresso. À época, deputados ameaçaram pressionar o já ameaçado ministro da Casa Civil, Antonio Paloci, às voltas com suspeitas de enriquecimento ilícito, se o Kit Anti-Homofobia não fosse suspenso.

Opinião, por André Azenha

É deprimente, vergonhoso e desanimador constatar que nossos “líderes” agem contra a evolução da nação, contra o desenvolvimento da humanidade e a busca por uma convivência pacífica. As pessoas precisam acordar. Qualquer tipo de religião que pregue a separação, e por consequência o preconceito, o ódio ao próximo, não pode ser levada a sério. Precisa ser combatida e proibida. A censura é execrável. Mas quando declarações são ofensivas ao próximo, ou podem prejudicar, isolar, constranger, diminuir alguém, deve ser evitada, desarticulada em sua raiz.

Devemos acordar e dizer não a esses corruptos, que soam como pessoas amorosamente reprimidas e frustradas, e enriquecem com a desculpa de que estão pregando o bem, seguindo a bíblia ou seja lá o que for. Não. Preconceito é crime. Ao menos deveria ser encarado como tal. Por mais que alguns pseudo intelectualóides, mergulhados em seus egos nos 15 minutos de fama, digam que vivemos uma época do politicamente correto.


Abaixo, confira na íntegra a nota escrita pelo diretor Daniel Ribeiro e a produtora Diana Almeida:

Queridos amigos e colegas,

No início da semana recebemos a notícia de que a exibição do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, como parte do programa Cine Educação, havia sido censurada no Acre.

O programa Cine Educação, uma parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos, tem como objetivo “a formação do cidadão a partir da utilização do cinema no processo pedagógico interdisciplinar” e disponibiliza diversos filmes cujos temas englobem os direitos humanos, de modo que professores escolham quais são mais adequados para serem trabalhados em aula.

Na semana passada, no estado do Acre, uma professora escolheu o curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” e exibiu-o para seus alunos. Para aqueles que não conhecem, a trama narra a história de Leonardo, um adolescente cego que, ao logo do filme, vai se descobrindo apaixonado por um novo colega de sala.

Alunos presentes na exibição confundiram o curta-metragem com o “kit anti-homofobia” e levaram a questão aos líderes religiosos, que mobilizaram políticos da região com o intuito de proibir o projeto Cine Educação como um todo. Nenhum desses representantes públicos deu-se ao trabalho de ir atrás da verdade e descobrir que se tratava de um programa pedagógico com o intuito de levar o debate sobre direitos humanos para a sala de aula. Mais uma vez no Brasil, a educação perde a batalha contra o poder assustador das bancadas religiosas e conservadoras.

Neste momento, o programa Cine Educação está paralisado. Enquanto isso, os secretários de Educação e de Direitos Humanos do Acre estão articulando com o governador a possibilidade de garantir sua continuidade, enquanto os líderes evangélicos forçam o cancelamento definitivo do programa. Pelo que sabemos, mesmo que o programa seja reativado, o curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” será excluído do catálogo e não mais ficará disponível para que professores o utilizem no debate de questões que envolvem algo tão elementar quanto a sexualidade humana e tão importante quanto a deficiência visual.

De forma arbitrária, em uma república federativa cuja Constituição atesta um Estado laico, a sociedade está sendo privada de promover debates. Como pretendemos que adolescentes consigam respeitar a diversidade e formem-se cidadãos lúcidos, pensantes e ativos se informação, arte e cultura (sem qualquer caráter doutrinário) lhes são negadas?

“Eu Não Quero Voltar Sozinho” não é um filme proselitista, tampouco ergue bandeiras de nenhuma natureza. É apenas uma obra de ficção amplamente premiada em festivais de cinema no Brasil e no exterior, cujos predicados artísticos e humanos transcendem qualquer crença. Ademais, se assuntos referentes à orientação sexual dos indivíduos e seus respectivos direitos civis está na pauta do Supremo Tribunal de Justiça e do Congresso Nacional, por que não debatê-los em sala de aula? Que combate sombrio é esse, que reacende a memória de um obscurantismo Inquisidor?

Produtores do “Eu Não Quero Voltar Sozinho

Veja o curta-metragem:

EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO
(Idem, Brasil, 2010).
Direção e roteiro: Daniel Ribeiro.
Elenco:  Tess Amorim, Fabio Audi, Ghilherme Lobo, Júlio Machado, Nora Toledo.
Drama / Curta-metragem.
17 minutos.

Prêmios:

– Festival de Cuiabá: Melhor curta, melhor diretor.
– Festival Internacional de Curtas de São Paulo: Prêmio Mix Brasil.
– Festival de Paulínia:  Prêmio da crítica de melhor curta, Prêmio do júri de melhor curta nacional, Melhor curta-metragem nacional e Melhor roteiro de curta nacional.

O CineZen é um site independente sobre cinema, DVD e Blu-ray, TV e eventualmente literatura, quadrinhos, teatro, música e artes plásticas, lançado em 29 de março de 2009. Tem o objetivo de informar, analisar obras e cobrir eventos dessas áreas (com atenção para a Baixada Santista), prestar serviços e atuar no incentivo ao cinema nacional.

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