Um novo despertar para Mel Gibson?

Jodie Foster e Mel Gibson juntos em "Um Novo Despertar"
Mel Gibson se queimou feio em Hollywood. Foram as declarações antissemitas, o alcoolismo, a acusação de ter ameaçado bater na ex-mulher… Chegou ao fundo do poço. Mas gente como Jodie Foster diz que, no fundo, ele é do bem. Amigo generoso, fiel, daqueles que se pode contar a qualquer hora.
E a atriz/diretora se manteve ao lado do companheiro. Preparou “Um Novo Despertar” para ele brilhar. Aguentou os atrasos na produção em virtude da exposição negativa do colega na imprensa. Foi com ele à Cannes divulgar o trabalho.
O personagem protagonista foi pensado para o veterano astro. Walter Black mergulha na depressão, influenciando negativamente os filhos, é abandonado pela família, e encontra num fantoche em forma de castor (em inglês, beaver, do título original), uma nova maneira de se comunicar com o mundo. Quem sabe, redimir-se, recomeçar. Impossível não comparar intérprete e personagem. Ambos chegaram ao limite. Viram suas vidas quase desmoronarem. No lapso de perdição, encontraram apoio em figuras próximas. Na vida real, a amiga Jodie Foster. Na ficção, a esposa, curiosamente vivida pela atriz.

Jennifer Lawrence e Anton Yelchin
O filme fracassou nas bilheterias. No entanto, a história funciona, emociona, chega a dar um nó na garganta. Principalmente quem sabe o que a depressão pode causar. Ou quem vê alguém querido se afundar, precisar de ajuda, e mesmo prejudicando-se, sabe que deve contribuir pela melhora da pessoa amada.
Jodie Foster conduz com garra a história e cercou-se de gente capacitada, principalmente no elenco. Mel Gibson incorpora – ou será que vive ele mesmo? – com intensidade Walter Black. É mais ou menos como ocorreu com Mickey Rourke em “O Lutador”. Todos são figuras que erraram, feio. Porém, não são más. Conhecem suas imperfeições. Desejam acertar de algum jeito. Ainda que saibam o quão difícil é encontrar o caminho.
Também há Anton Yelchin (o Chekov, do ultimo “Star Trek”, de 2009), bem na pele do filho mais velho, Porter, que faz anotações sobre os defeitos do pai, os quais não quer repetir. A excelente Jennifer Lawrence (“Inverno da Alma”, “X-Men: Primeira Classe”) é Norah, o interesse romântico deste último, outra que precisa superar um trauma do passado. O ator mirim Riley Thomas Stewart corresponde como o filhinho que se isola no colégio e fica fascinado pelo castor, numa interessante demonstração de como o lúdico pode contribuir no desenvolvimento de uma criança. Elogiar a atriz Jodie Foster é chover no molhado. Segura, experiente.
O roteiro dá alguns solavancos. Uma ou outra situação força a barra. No entanto, a obra, num todo, envolve, fala diretamente ao coração.

Dói é perceber que, enquanto Walter Black encontrou perdão e amor nas pessoas a quem magoou, na vida real nem sempre é assim. Vide a trajetória de Mel Gibson. Ele fez besteira. Mas quem de nós jamais fez? Foi julgado, execrado publicamente, numa onda de hipocrisia à maneira daquela que excluiu Lars Von Trier de Cannes. E tudo começou por que ele mexeu com quem não devia: ao ofender os judeus, ofendeu também o alto escalão de Hollywood, os poderosos da indústria. Tantos fizeram pior do que ele e seguiram em frente.
Se tantas vezes pregamos o perdão, ou escutamos pessoas nos dizendo que devemos perdoar, por que não damos uma chance a Mel Gibson. Não fazer isso, é ignorar uma atuação envolvente como essa, de “Um Novo Despertar”. Se é difícil crer nele depois de tantas burradas cometidas pelo astro, podemos crer em Jodie Foster, mulher respeitada, admirada, correta. O longa está aí. Em poucas salas de cinema. Mas depois vem o DVD, o Blu-ray. Então fica a dica e a torcida para que Mel Gibson, que fez tanta coisa boa no cinema (“Mad Max”, “Máquina Mortífera”, “Coração Valente”), dê a volta por cima.
UM NOVO DESPERTAR
(The Beaver, EUA, 2011).
Direção: Jodie Foster.
Roteiro: Kyle Killen.
Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, Anton Yelchin, Cherry Jones, Riley Thomas Stewart, Jennifer Lawrence.
Drama / Comédia.
91 minutos.
Estreia no Brasil: 27/05/2011.
Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.