Matemática do Amor: drama indie simpático e sensível

Jessica Alba e Chris Messina

O cinema sempre flertou com a matemática:  “Uma Mente Brilhante”, “Quebrando a Banca” e “Gênio Indomável” são alguns filmes que a usaram com grande efeito. Também professores e a sala de aula tem sido objeto de afeição dos roteiristas e diretores, como em “Ao Mestre com Carinho”, “A Primavera de uma Solteirona”, “Mentes Perigosas” e “Half Nelson – Encurralados”. Reunindo essas duas fortes temáticas existentes no best-seller de Aimee Bender, An Invisble Sign of My Own, Marilyn Agrelo debuta como diretora deste independente “Matemática do Amor”, após ter conseguido muito sucesso com um documentário em 2005, “Mad Hot Ballroom”.

Jessica com John Shea e Sonia Braga

A sequência de abertura é uma sombria animação que revela a influência que Hans Christian Andersen e os Irmãos Grimm exerceram sobre a escritora. Nela, apresenta-se uma fábula em que o rei ordena que cada família tenha um dos seus membros executados, mas uma consegue que, ao invés desse sacrifício, cada um dos membros perca uma parte de seu corpo. Narrada pelo pai (John Shea, o Lex Luthor da série “Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman”) para a filha Mona (Bailee Madison) em sua festa de aniversário, esse início já estabelece o clima de  conto de fadas recheado de  excentricidades  que acompanha  todo o filme. Por idolatrar seu pai, brilhante matemático que adora correr nas horas livres, ela o segue nessas duas paixões. Um dia, durante uma corrida, seu pai sente-se mal e a partir daí a vida de Mona vai desmoronar completamente. Debilitado pelo que parece ser um colapso nervoso e visivelmente afetado por algum distúrbio mental, ele fica aos cuidados da  paciente esposa (Sonia Braga), e a menina perde sua motivação e seu rumo. Ela decide desistir de tudo na vida num pacto com o universo em troca das melhoras de seu pai, o que acaba não acontecendo. Só lhe resta a matemática como salvação.

Já adulta, aos vinte anos de idade e agora interpretada por Jessica Alba, a heroína se encontra obcecada por números e os usa para lidar  com um mundo que lhe é hostil e imprevisível. Quando se sente ameaçada ou nervosa, bate compulsivamente na madeira, e números são visualizados de maneira inesperada, num bonito efeito criado pela equipe técnica, que assim  estabelece um efeito quase místico. Um dia a mãe decide que ela deve deixar a casa e seguir seu caminho, numa cena que intrigou grande parte da crítica, mas que pode ser apenas uma atitude de estimular a independência dos filhos, bem ao estilo da cultura norte-americana. Apesar de não ser graduada e de não ter experiência alguma, consegue emprego como professora de matemática para crianças de nove anos numa escola cuja diretora é conhecida de sua mãe. E é a partir daí que a vida de Mona vai lhe trazer grandes desafios.


Nessa parte do filme, seguimos Mona na sua trajetória como professora e seus métodos nada convencionais, usando expressão corporal, coreografias e muita criatividade para ensinar operações e sinais como “maior que” e “menor que”, resultando em momentos inspirados. Marilyn demonstra grande habilidade na direção dos atores mirins, especialmente a ótima menina  Sophie Nyweide, cuja personagem sofre pela mãe que está morrendo de câncer e se apega à professora como tábua de salvação. Esta, que se encontra constantemente fragilizada, de repente se vê forçada a apoiar a criança nesse terrível momento. O professor de ciências (Chris Messina, de “Vicky Christina Barcelona”) começa a nutrir um sentimento mais profundo em relação a Mona, e ela vai ter que enfrentar seus próprios medos  e esquisitices para aceitar a presença de um amor na sua vida. Esses dois relacionamentos formam o eixo da história, onde a professora é forçada a sair de seu casulo e se tornar uma pessoa plena, em busca de seu lugar no mundo. Na parte final do filme, uma cena envolvendo um machado representando o número sete trará a lembrança da fábula dark do começo da trama.

Para acentuar o visual “nerd” da personagem, Jessica Alba esconde a beleza e famosa sensualidade atrás de uma enorme franja, um penteado infantil e óculos grandes. Neste personagem totalmente oposto à sua imagem, ela se sai bem com seu ar perdido. Embora muitos críticos a acharam fora de papel, ela recebeu elogios do Los Angeles Times e do New York Daily News e o elenco de apoio também teve boas menções do New York Post. Messina está simpático como o namorado, um dos pouquíssimos “normais” da história; J.K. Simmons, figura carimbada dos “indies”, faz um afável e inspirador professor de matemática da infância de Mona e a nossa Sonia Braga é aquela grande atriz que se entrega totalmente ao personagem, discreta, sem vaidade, natural, intensa, verdadeira nos olhares, gestos e palavras, especialmente  na sequência do café da manhã para comemorar mais um aniversário da filha e nos atritos familiares. Sonia disse que adorou trabalhar com Jessica, que considerou adorável.

Com roteiro adaptado por Pam Falk e Mike Ellis (de “O Casamento de Meus Sonhos”), locações em Tarrytown e Sleepy Hollow e bonita e dramática fotografia de Lisa Rinzler, o filme resulta simpático e sensível, além de  interessante por apresentar personagens excêntricos, história inusitada e sinais invisíveis para falar de dúvidas, esperança, destino e amor.

MATEMÁTICA DO AMOR
(An Invisible Sign, EUA, 2010).
Direção: Marilyn Agrelo.
Roteiro: Pam Falk e Mike Ellis, baseados em livro de Aimee Bender.
Elenco: Jessica Alba, Chris Messina, John Shea, Sonia Braga, Sophie Nyweide, J.K. Simmons, Bailee Madison.
Drama / Romance.
95 minutos.

Lançamento direto em DVD e Blu-ray no Brasil: 17/05/2011.

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Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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