X-Men Origens: Wolverine prefere ação à complexidade da mitologia mutante


Até o lançamento do terceiro “Batman” de Christopher Nolan, “X-Men” continua sendo “a” trilogia cinematográfica de super-heróis. A franquia teve início em 2000 e chamou atenção por aliar de forma competente ação com um subtexto social sobre preconceito e exclusão, em filmes bem dirigidos e com bons atores, fatores que a tornaram sucesso de bilheteria (e um dos principais filões da Fox) e crítica.

Mas com o êxito do primeiro longa, alguns atores até então desconhecidos do grande público, como o próprio Hugh Jackman, e James Marsden, o Ciclope, viraram astros, e contratos precisaram ser renegociados, tornando o orçamento das continuações cada vez maiores – no elenco também estavam artistas consagrados, como a vencedora do Oscar, Halle Barry, e Patrick Stewart.

Uma quarta produção da série acabou não acontecendo, pois os gastos seriam exorbitantes (imagine dez atores com salários gigantescos… e o que sobraria para pagar os efeitos visuais, locações, etc?), e a solução encontrada pela Marvel foi lançar um filme solo. Assim, seria possível pagar um cachê considerável ao ator protagonista e deixar ainda uma bela dinheirama reservada à parte técnica. Como não podia deixar de ser, o escolhido foi Wolverine, talvez o mutante mais querido do público.

Curiosamente, a encarnação de Hugh Jackman (primeiro ator e viver um mesmo herói em quatro filmes seguidos desde Christopher Reeve, da série “Superman”) como Wolverine aconteceu devido uma dessas histórias de bastidores que acabam virando lenda no cinema. O ator australiano fez teste para o papel, que acabou nas mãos de Dougray Scott (o vilão de “Missão Impossível 2”). Só que este último sofreu um deslocamento no ombro, precisou ser substituído, e Jackman, que na época cantava e dançava num espetáculo da Broadway, foi chamado para interpretar o personagem que seria a guinada de sua carreira.

O modo como interpretou Wolverine, criando uma versão praticamente fiel às HQs, sarcástica e musculosa, cativou pessoas nos quatro cantos do globo e o transformou em astro requisitado para filmes variados, como o suspense “O Grande Truque”, a fantasia/terror “Van Helsing”, a comédia “Scoop – O Grande Furo”, e o épico “Austrália”.  Jackman se identificou de tal maneira com Logan que se tornou um dos produtores deste filme.

As expectativas eram as maiores. O diretor escalado foi Gavin Hood, que arrebatou um Oscar de Filme Estrangeiro por “Infância Roubada”, mas quando o elenco restante começou a ser anunciado, houve quem desconfiasse da qualidade da produção.  Porém, o forte esquema de divulgação, mais o vazamento do longa na  internet (como aconteceu com “Tropa de Elite”), recolocaram a obra no topo das manchetes do mundo inteiro.

Após o lançamento de “X-Men Origens: Wolverine”, as primeiras críticas que surgiram não foram as mais positivas. Em parte com razão, principalmente para quem admirava o teor denso das histórias mutantes. A trama não traz o subtexto adulto da trilogia original, e seus atores secundários não têm o mesmo quilate do elenco de “X-Men 1”, “2” e “3”.

Taylor Kitsch, por exemplo, não aproveitou a oportunidade que teve. Gambit é um dos mutantes preferidos dos fãs, e o ator da série “Friday night lights” surge insosso. O futuro Lanterna Verde Ryan Reynolds, não convence como o vilão Deadpool. Os destaques ficam, além do protagonista, para Danny Huston (“30 Dias de Noite”) como William Stryker (personagem que em “X-Men 2” foi de Brian Cox) e Lynn Collins, o interesse romântico do herói.

E claro, Liev Schreiber como Dentes-de-Sabre. A escolha deste, aliás, foi realizada pelo próprio Jackman – ambos são amigos na vida real e tal relação contribuiu para uma excelente química na tela, pois a ligação entre Wolverine e seu “irmão” é fator fundamental na mitologia  do x-man.

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Já o diretor Gavin Hood tem um desempenho digno de Michael Bay (“Os Bad Boys” e “Transformers”), realizando de forma correta cenas espetaculares de ação (e a sequencia inicial, que mostra Logan e seu irmão em diferentes guerras, faz excelente homenagem a vários filmes sobre conflitos armados), com lutas bem coreografadas, muitas explosões, correria, enfim, tudo o que um blockbuster precisa ter – exceto uma cena extremamente forçada, quando Wolverine sai caminhando com pose de fodão, após uma explosão.

O roteiro fica devendo. Há um grande excesso de personagens (tem mais mutante do que em “X-Men – O Filme”), e muitos só irão ser reconhecidos pelos leitores mais fanáticos dos gibis. E algumas “piadas” não provocam risada.

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Muita gente reclamou do encontro entre Wolverine com alguns personagens, acusando tais momentos de serem descartáveis, pois quando Logan cruza, em instantes diferentes, com Gambit, e Blob, eles mal se encontram e já saem na porrada, para depois resolverem as diferenças no bate-papo.

Quem conhece as HQs (e está aí algo fiel aos quadrinhos), principalmente os chamados “crossovers” (encontro entre super-heróis), sabe que o mote é fazê-los se esbofetearem para depois tornarem-se amigos e enfrentarem um inimigo comum.

Provavelmente a maior dificuldade em realizar um longa sobre a trajetória de Wolverine foi que, nos gibis, sua origem possui várias lacunas. Nesse sentido, a produção preenche os “vazios” e reconta, inclusive, a início da ligação de Logan com seu futuro rival Dentes-de-Sabre. Também presenciamos de forma resumida sua passagem pelo projeto Arma-X e como ele perdeu sua memória.

Além disso, o filme deixou várias brechas para uma possível continuação (tem cena pós-crédito com o protagonista num país oriental). E dois outros personagens da trilogia dão as caras (um, feito pelo mesmo ator dos longas anteriores), para surpresa e sorrisos do espectador.

Como filme de ação, pré-sequencia para a série original e blockbuster, “X-Men Origens: Wolverine” cumpre o papel. Se está aquém da qualidade dos três longas sobre a equipe mutante, e não alcançou o nível das melhores adaptações para o cinema dos quadrinhos, também não está entre as execráveis – fica em nível próximo a “Superman Returns” e os filmes do “Hulk”. É passatempo para ser digerido de forma rápida, como um filme dos Transformers – por isso mesmo, foi visto por mais de três milhões de brasileiros. Agora, se você é fã dos X-Men pela abordagem adulta dos gibis, passe longe.

X-MEN ORIGENS: WOLVERINE
(X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009).
Direção: Gavin Hood.
Roteiro: David Benioff, baseado em personagens criados por Len Wein.
Elenco: Hugh Jackman, Liev Schreiber, Ryan Reynolds, Danny Huston, Taylor Kitsch, Patrick Stewart.
Ação / Aventura / Fantasia.
107 minutos.

– Teen Choice Awards: Melhor filme de ação/aventura, Melhor ator de ação/aventura (Hugh Jackman).

Estreia no Brasil: 30/04/2009.

Disponível em DVD e Blu-ray.

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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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