O ‘caso’ Lars Von Trier e o tratamento hipócrita dado à situação

Kirsten Dunst, Lars Von Trier e Charlotte Gainsbourg na apresentação de "Melancolia" em Cannes

Lars Von Trier declarou que seus comentários a respeito de Adolf Hitler, que levaram o Festival de Cannes a declará-lo persona non grata, foram uma “piada estúpida”.”É o tipo de piada que faço quando falo com meus amigos, que me conhecem e sabem que não sou um nazista. Me desculpo profundamente por ter ofendido as pessoas. Não era minha intenção. Também ofendi os alemães quando em vez de dizer ‘alemão’, usei a palavra ‘nazista’, como se todo alemão fosse um nazista”, afirmou o cineasta dinamarquês.

O diretor disse que é capaz de se imaginar “na situação na qual os nazistas se encontraram”. “Não justifico o que os alemães fizeram. Sim, agi de forma estúpida na entrevista coletiva. Mas temos uma tradição na Dinamarca de dizer as coisas como são”, argumentou.

“Melancolia”, novo filme de Von Trier foi selecionado para a mostra competitiva do festival, e era considerado favorito para levar a Palma de Ouro, feito já alcançado pelo cineasta com “Dançando no Escuro” (2000).

Caso vença o festival, Von Trier não poderá receber o prêmio na cerimônia. Mas curiosamente, Mel Gibson, que já vociferou declarações anti-semitas, foi recebido de braços abertos pela organização, em virtude de sua presença em “Um Novo Despertar”, drama no qual contracena e é dirigido por Jodie Foster. E Von Trier se lembrou desse fato. “O que eu disse foi completamente idiota, mas eu, definitivamente, não sou o Mel Gibson”, disse ele.

Von Trier reconhece que o pedido de desculpas não apaga o que fez. “Pedir desculpas é algo muito estúpido, que não muda nada do que você disse. É algo muito americano falar uma coisa ofensiva e depois se desculpar. Como se as desculpas mudassem o que foi dito ou feito”.

http://www.youtube.com/watch?v=RWFYcEtcew4&feature=player_embedded Vídeo da entrevista que gerou a polêmica

Para acabar com qualquer suspeita de anti-semitismo, o diretor lembrou que cresceu como judeu até o dia em que sua mãe revelou, no leito de morte, que seu verdadeiro pai era um alemão, e não judeu. “Em vez de dizer que era alemão, porque não suporto meu pai biológico, disse que era nazista com uma espécie de humor típico dinamarquês, que muita gente não entende. Mas não sou”, justificou, acrescentando que, exatamente por se considerar judeu, ele se permite fazer brincadeiras consideradas de mau gosto quando feitas por quem não é judeu.

“Já que passei a maior parte da minha vida como judeu, ainda faço brincadeiras sobre judeus, que nós judeus somos permitidos fazer. Soaria mal se te dissesse que muitos de meus melhores amigos são judeus. Soa mal, como dizer que alguns de meus melhores amigos são gays. Portanto não direi”, emendou.

Repercussão na imprensa

Equipe de "Melancolia": Kiefer Sutherland, o diretor, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg

A expulsão do cineasta praticamente uniu os críticos de todo o mundo em protesto, ainda que em tom conformista. O crítico Oliver Lyttelton, do site The Playlist, que mostrou coragem em sua sensatez, disparou que “se Von Trier tivesse defendido atitudes racistas, certamente seria condenável, mas ele nem chegou perto disso e até exemplificou seu ponto de vista. Banir Von Trier do festival dias após Mel Gibson desfilar no tapete vermelho, um homem que assume o seu anti-semitismo, é um ato de clara hipocrisia”.

Já Andrew O’Hehir, do Salon, comenta o sensacionalismo com que a polêmica vem sendo tratada pela mídia “Ela revela o grande jogo de ‘Telefone sem Fio’ que virou o jornalismo do entretenimento, na medida em que as traduções da história foram distorcendo o que realmente foi dito, resumindo os comentários em manchetes do tipo ‘Eu sou nazista’ e ‘Eu entendo Hitler’, sempre fora de contexto”.

Dave Calhoun, editor de cinema da revista londrina Tim Out, afirma que a organização de Cannes ampliou uma polêmica desnecessária ao banir o cineasta. “Cannes é um forum cultural e a maioria das pessoas com quem eu conversei no festival concorda que os comentários eram passíveis de uma ampla interpretação. O festival exerceu o papel de juíz e júri, quando deveria ter sido mais sábio e deixar o público, a imprensa e todos os demais decidirem por si mesmos”.

Peter Bradshaw, crítico do The Guardian, e que integra o júri da mostra Um Certo Olhar, aplaudiu a decisão da organização do festival e exigiu um pedido de desculpas “de verdade” por parte do diretor. Opinião exatamente contrária a de Lee Marshall, do Screen International. “As desculpas iniciais de Von Trier, logo após as declarações, deveriam ter sido suficientes. O fato de não terem sido me sugerem que se trata de uma decisão política”.

Hipocrisia

O caso chegou a tal ponto, que a distribuidora argentina de “Melancolia” não exibirá mais o filme no país. Se fossem comentários contra negros, árabes ou asiáticos, será que a postura seria a mesma? O problema é que Von Trier mexeu em vespeiro. O cinema mundial é controlado por empresários judeus. A declaração foi idiota? Foi. Desnecessária? Completamente.

Mas Lars Von Trier não é e nunca foi nazista ou simpatizante do nazismo. Proferiu as palavras erradas, no local errado, e virou bode expiatório da situação. Ele pediu desculpas, explicou inclusive a forma como foi criado, e mesmo assim gente irresponsável tratou de crucificar o cineasta. Se for pra ser assim, que sejam banidos todos os profissionais que declarem frases preconceituosas contra as outras religiões, povos, classes sociais. Aí sim, poderá ser dado um mínimo de credibilidade à organização do festival que, parece, teve uma postura muito mais política do que social ou humanista.

No Brasil, o bom senso prevaleceu e distribuição de “Melancolia” está garantida.

O filme

A trama de “Melancolia”, descrita como um “filme catástrofe psicológico” pelos produtores, acompanha o casal formado por Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgård), que estão celebrando o casamento em uma festa suntuosa na casa de sua irmã (Charlotte Gainsbourg) e do cunhado (Kiefer Sutherland). Enquanto isso, o planeta, Melancolia, está se dirigindo à Terra. Veja o trailer:

http://www.youtube.com/watch?v=1_yfoxp1i3o&feature=player_embedded

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2 thoughts on “O ‘caso’ Lars Von Trier e o tratamento hipócrita dado à situação

  1. Sem dúvida, foi idiota. Mexeu no vespeiro do politicamente correto, mexeu com os donos da indústria mais forte dos EUA, junto com a indústria da guerra, pensando em ser engraçadinho na Croisset. Danou-se. Nem por isso, espero, que o Brasil siga os passos dos distribuidores na Argentina. O filme deve ser apresentado e como sempre avaliado pelo que apresenta e propõe. Palavras bobas do cineasta ficam na lata de lixo.

    1. Oi Paulo! Com certeza. No Brasil a distribuição está garantida. E o júri parece ter sido isento, tanto que deram o prêmio de melhor atriz à Kirsten Dunst. Abração, André

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